Kylian Mbappé, da França (FRANCK FIFE/AFP/Getty Images)
Repórter
Publicado em 2 de julho de 2026 às 16h12.
Uma brincadeira que tomou conta da internet nos últimos dias envolve um dos maiores artilheiros da história das Copas do Mundo: o francês Kylian Mbappé. Por meio de memes e figurinhas de WhatsApp, o atacante passou a ser chamado de "Ditador Mbappé", uma sátira à sua grande influência, poder de decisão e status de estrela absoluta acumulados tanto em seus clubes quanto na seleção.
Embora não exista um fato único que justifique o apelido, o termo ganhou força durante sua renovação com o Paris Saint-Germain, em 2022. Na época, a imprensa europeia noticiou que o projeto esportivo do clube havia sido reorganizado em torno do jogador, gerando a percepção de que ele teria poder para influenciar na escolha de técnicos, diretores e contratações.
Em 2024, a piada ganhou ainda mais força após um episódio envolvendo o influenciador francês Mohamed Henni, que usou o nome do atleta de forma humorística para descrever um sanduíche em sua loja de kebab. A reação firme de Mbappé, que acionou seus advogados e processou o influenciador pelo uso comercial de sua imagem, foi interpretada por parte da internet como uma postura intolerante a críticas e brincadeiras. O caso gerou uma nova onda de montagens irônicas que colocavam o atacante em cenários autoritários.
O apelido também se fortaleceu após episódios em que o atleta adotou posturas mais rígidas ou exigiu maior controle sobre o uso de sua imagem, motivando os internautas a criarem montagens irônicas que o associam a líderes autoritários.
Na Copa do Mundo atual, a piada ressurgiu no jogo entre França e Iraque, quando Mbappé sugeriu aos funcionários do estádio Lincoln Financial Field, na Filadélfia, quais partes do gramado precisavam ser limpas após a tempestade que atrasou a partida.
Para especialistas em gestão e marketing esportivo, o fenômeno viral dessas ações tem o poder de alcances gigantescos mas, neste caso, há ressalvas que podem comprometer a imagem de qualquer pessoa pública.
"No ambiente digital, toda viralização aumenta visibilidade, alcance e relevância algorítmica. Nesse sentido, memes como 'Kylian Ditador' mantêm Mbappé no centro das conversas globais e reforçam seu status de protagonista do futebol, especialmente entre públicos mais jovens. O problema é que notoriedade e reputação não são sinônimos", analisa Bruno Brum, CMO da Agência End to End, empresa de marketing esportivo.
Brum entende que quando uma narrativa passa a associar repetidamente um atleta a traços autoritários, mesmo em tom de humor, ela pode consolidar uma percepção difícil de desconstruir. "Marcas investem em atributos como liderança, carisma e inspiração, e qualquer meme que desloque essa percepção para características negativas exige um trabalho maior de gestão de imagem. No curto prazo, a tendência gera engajamento; no longo, o risco é que a piada se torne parte da identidade pública do jogador. No marketing esportivo, o ideal é que o atleta seja protagonista pelas performances em campo e fora de campo, não por narrativas que possam desgastar sua reputação", explica.
Dembélé e os companheiros brincam chamando Mbappé de “Mobut”, uma referência ao ditador africano Mobutu. pic.twitter.com/73ZzN5iqNV
— Curiosidades Europa (@CuriosidadesEU) July 1, 2026
Para Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM, a forma como um atleta reage a um apelido costuma determinar sua duração. "Quanto mais parece incomodar, mais a internet tende a promover e viralizar. Por isso, existe um trabalho importante de gestão de imagem para decidir quando ignorar e quando entrar na brincadeira. Ao mesmo tempo, nenhuma marca pessoal se beneficia de ser associada repetidamente a adjetivos negativos, mesmo que em tom de humor".
Rene Salviano , CEO da agência Heatmap e especialista em patrocínios esportivos, acredita que o "meme" pode virar uma nova oportunidade de negócios. “Tudo isso deve ser cuidadosamente planejado e implementado estrategicamente. Quando feito com a participação do próprio jogador e de profissionais qualificados, os benefícios podem ser incalculáveis”.
Já Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo, entende que os memes têm um enorme potencial de amplificar a presença digital de um atleta. "Em termos de algoritmo, quanto mais um nome é compartilhado, comentado e transformado em conteúdo, maior tende a ser seu alcance orgânico. Isso aumenta a lembrança de marca e mantém o atleta permanentemente em evidência".
Por outro lado, Wolff também entende que existe uma diferença importante entre viralização positiva e viralização associada a atributos negativos. "Quando um apelido passa a reforçar características como autoritarismo, arrogância ou excesso de poder, ainda que em tom de humor, ele pode influenciar a percepção pública e afetar atributos fundamentais da marca pessoal do atleta, especialmente perante patrocinadores".