Jogadores do Brighton comemoram terceiro gol diante do Manchester United durante partida da Copa da Liga Inglesa. Os Red Devils foram eliminados em pleno Old Trafford (OLI SCARFF/AFP)
Repórter
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 16h27.
De clube ameaçado de desaparecer do futebol profissional a referência em gestão esportiva na Europa. Essa é a trajetória do Brighton, equipe que vem chamando atenção não apenas pelos resultados dentro de campo, mas também por um modelo de negócios baseado em análise de dados, desenvolvimento de talentos e lucros milionários com transferências.
A prova mais recente da competitividade dos Seagulls aconteceu na última quarta-feira, quando a equipe comandada por Fabian Hürzeler venceu o Manchester United por 3 a 2, de virada, em pleno Old Trafford, após sair perdendo por dois gols nos minutos iniciais. O resultado garantiu a classificação na Copa da Liga Inglesa e reforçou o bom momento do clube, que também figura entre os primeiros colocados da Premier League.
O cenário atual contrasta com a situação vivida pelo Brighton no fim da década de 1990. Em 1997, o clube esteve a uma partida do rebaixamento para a quinta divisão inglesa, enfrentava graves dificuldades financeiras e não tinha estádio próprio. A transformação começou em 2009, com a chegada do empresário Tony Bloom, que investiu mais de £ 360 milhões para reestruturar a instituição e viabilizar a construção do Amex Stadium.
O diferencial do Brighton, no entanto, não foi o volume de investimentos, mas a estratégia adotada. Sob a liderança de Bloom, o clube passou a utilizar fortemente análise de dados e inteligência de mercado para identificar jogadores subvalorizados em ligas periféricas da América do Sul, África e Europa. O objetivo é contratar atletas com potencial de valorização antes que eles entrem no radar das grandes potências do continente.
Segundo Vinícius Las Casas, gestor de marketing da CUJU no Brasil, plataforma que faz avaliação de atletas, a tecnologia ampliou a capacidade dos clubes de encontrar talentos em mercados pouco explorados.
"O caso do Brighton evidencia como a tecnologia pode ampliar a capacidade de identificação de talentos no futebol. Com inteligência artificial e análise de dados, é possível observar um universo muito maior de atletas e encontrar jogadores que poderiam permanecer fora do radar por questões geográficas ou pela dificuldade de acesso aos grandes centros", afirma.
A estratégia também passa por um trabalho contínuo de planejamento esportivo. Para Rui Costa, executivo com passagens por São Paulo, Grêmio, Atlético-MG e Athletico-PR, o sucesso do modelo está na preparação para o futuro.
"O Brighton identifica jogadores com potencial de desenvolvimento, cria um ambiente para que eles evoluam e entende o momento adequado para negociá-los. O clube já trabalha com alternativas mapeadas para repor atletas antes mesmo de concluir uma venda", explica.
O resultado dessa política transformou o Brighton em uma das maiores referências do mercado de transferências. Nos últimos anos, o clube acumulou mais de £ 400 milhões (algo em torno de R$ 2,7 bilhões) em lucro líquido com negociações de jogadores.
Entre os casos de maior sucesso está o volante Moisés Caicedo, contratado junto ao Independiente del Valle por £ 4,5 milhões e vendido ao Chelsea por £ 115 milhões. Outro exemplo é o lateral Marc Cucurella, comprado por £ 15,4 milhões e negociado posteriormente por £ 62 milhões.
A lista ainda inclui o atacante João Pedro, adquirido por £ 30 milhões e revendido por £ 60 milhões, além do zagueiro Ben White, formado nas categorias de base e negociado com o Arsenal por £ 50 milhões.
Também geraram retornos expressivos o argentino Alexis Mac Allister, comprado por £ 7 milhões e vendido ao Liverpool por até £ 55 milhões, o volante Yves Bissouma, negociado com o Tottenham pelo dobro do valor investido, e o atacante Leandro Trossard, vendido ao Arsenal após valorização significativa.
A América do Sul segue como um dos principais mercados observados pelo departamento de scouting do Brighton. Casos recentes incluem o paraguaio Julio Enciso, os argentinos Facundo Buonanotte e Valentín Barco, o equatoriano Pervis Estupiñán e o meia Diego Gómez, contratado junto ao Inter Miami por £ 11 milhões.
Especialistas destacam que o uso de dados no clube vai muito além da contratação de atletas. Os números influenciam diretamente os treinamentos, o acompanhamento de desempenho e a tomada de decisões da comissão técnica.
Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy, afirma que a tecnologia também ampliou o alcance da observação de talentos em mercados emergentes.
"Os clubes europeus ampliaram muito o olhar para o futebol africano. O avanço do scouting e do uso de dados tornou esse processo mais abrangente e permitiu identificar talentos cada vez mais cedo", analisa.
Outro diferencial apontado pelos especialistas é o trabalho realizado pela Starlizard e pela Jamestown Analytics, empresas ligadas ao proprietário Tony Bloom. As plataformas monitoram centenas de milhares de atletas e dezenas de milhares de partidas ao redor do mundo, cruzando indicadores de desempenho e valores de mercado para identificar oportunidades de investimento antes dos concorrentes.
Na prática, o sistema compara métricas de rendimento de jogadores em diferentes ligas. Caso um atleta apresente números semelhantes aos de jogadores avaliados em dezenas de milhões de libras, mas esteja disponível por um valor muito inferior, o software sinaliza o nome como potencial alvo de contratação.
Para Moises Assayag, especialista em finanças no futebol e sócio-diretor da Channel Associados, o Brighton criou um modelo semelhante ao mercado financeiro.
"O clube identifica ativos antes da valorização, desenvolve esses jogadores e realiza o valor no momento adequado. É uma lógica muito próxima da gestão de investimentos, mas sem comprometer a performance esportiva. O Brighton conseguiu transformar a valorização dos atletas em um ciclo permanente de crescimento", conclui.