Como as braçadeiras de capitão contra homofobia viraram ameaça de cartão no Catar

Capitães de alguns times europeus queriam entrar em campo com braçadeira de apoio à comunidade LGBTQIA+, mas FIFA ameaçou equipes com cartão amarelo
Harry Kane: atacante inglês usou braçadeira com frase "sem discriminação", mas não com a bandeira LGBT (David S. Bustamante/Soccrates/Getty Images)
Harry Kane: atacante inglês usou braçadeira com frase "sem discriminação", mas não com a bandeira LGBT (David S. Bustamante/Soccrates/Getty Images)
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Da RedaçãoPublicado em 22/11/2022 às 12:25.

Desde que o Catar foi escolhido para sede da Copa de 2022, há dez anos, a decisão sobre a sede veio cercada de polêmicas. Há críticas ao governo não democrático do país e a leis que desrespeitam direitos humanos, além de acusações contra condições de trabalho ruins na construção da infraestrutura do mundial.

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Com o início da competição no dia 20 de novembro, o debate se intensificou. Nos primeiros dias da Copa, a principal polêmica veio das braçadeiras dos capitães de algumas seleções.

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Em meio às polêmicas envolvendo leis restritivas contra cidadãos LGBTQIA+ (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer, além de outras identidades de gênero), os jogadores queriam entrar com uma mensagem de apoio à comunidade. No Catar, ser homossexual é ilegal e passível de prisão.

A braçadeira que as seleções planejavam usar trazia a mensagem "One Love" (um amor, em inglês) e as cores do arco íris, símbolo da comunidade.

Punição da FIFA a seleções com mensagem LGBTQIA+

A FIFA, organização que comanda o futebol mundial e organiza a Copa, havia proibido a braçadeira com as mensagens.

Mas a polêmica se intensificou depois que a federação afirmou as punições pelo descumprimento da ordem seriam não só financeiras, mas dentro de campo, com os capitães levando um cartão amarelo ao entrar com o símbolo. 

Ao menos sete seleções europeias haviam combinado de entrar com a braçadeira: Inglaterra, País de Gales, Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Suíça. Após o comunicado da FIFA e ameaça de cartão amarelo, os times desistiram da ação.

"A FIFA tem sido muito clara: vai impor sanções esportivas se nossos capitães usarem as braçadeiras em campo. Como federações, não podemos pedir aos nossos jogadores que arrisquem sanções esportivas, incluindo cartões amarelos", escreveram as seleções em nota conjunta.

Alguns protestos ainda têm sido vistos, apesar das sanções. Alex Scott, uma ex-jogadora e hoje comentarista na BBC, TV do Reino Unido, usou a braçadeira durante a transmissão da estreia da Inglaterra contra o Irã (a seleção inglesa venceu por 6 a 2).

Na estreia da Dinamarca contra a Tunísia nesta terça-feira, 22, o capitão dinamarquês, Simon Kjær, usou uma outra braçadeira, com os dizeres "sem discriminação".

A mesma mensagem esteve no braço de Gareth Bale, do País de Gales, na segunda-feira, do capitão da Inglaterra, Harry Kane, e de Van Dijk, da Holanda.

Simon Kjær, da Dinamarca, passa a braçadeira de capitão a Christian Eriksen em estreia contra a Tunísia: faixa de "sem discriminação" (Laurence Griffiths/Getty Images)

Regime político e leis no Catar

O Catar é um Estado absolutista e de influência de uma interpretação radical dos escritos islâmicos, comandado pelos membros da família al-Thani desde o fim do século 19. O país obteve independência do Reino Unido e continuou sob comando dos al-Thani.

O atual mandatário é o emir Tamim bin Hamad Al Thani, no cargo desde 2013 e que discursou na abertura da Copa do Mundo no domingo, 20. Outros cargos importantes também são ocupados por membros próximos à família.

Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar

Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar: interpretação radical dos textos islâmicos (Faisal Al Nasser/Reuters)

“Durante 28 dias, o mundo todo vai acompanhar essa festa do futebol internacional, nesse espaço de diálogo e civilização. Por mais que as pessoas sejam diferentes, de culturas e orientações diferentes, vão se reunir aqui no Catar”, disse em discurso de abertura. A cerimônia de início da Copa teve a participação de estrelas internacionais como o ator Morgan Freeman e o cantor Jung Kook (do grupo de k-pop sul-coreano BTS).

A estimativa é que o Catar tenha investido US$ 220 bilhões na edição deste ano da Copa, a mais cara da história.

A família no comando adere a uma interpretação radical das leis islâmicas. Assim, pelas regras do país, ser homossexual é proibido, e um cidadão pode ser condenado a prisão. Drogas legalizadas em vários países, como maconha, também são proibidas, seja para venda ou para consumo.

Outra polêmica no país veio em relação às leis para bebidas alcoólicas: beber em público no Catar pode resultar em prisão de até seis meses. Só há exceção a essa regra em alguns espaços para a Copa, como nas fan fests organizadas pela FIFA fora do estádio; mas, dentro dos estádios, não é permitido beber ou a venda de bebidas. O caso gerou polêmica com a Budweiser, patrocinadora da Copa e que terminou fazendo um acordo com a FIFA para aceitar que não haveria venda de cerveja nos jogos.

Ao todo, o Catar tem 3 milhões de habitantes, dos quais há uma fatia alta de adultos imigrantes de países vizinhos, como o Paquistão, que vão ao país em busca de trabalho. Apesar de pequeno, o Catar é um dos maiores exportadores de petróleo e gás natural do mundo, o que responde pela maior parte da riqueza do país. A capital é Doha, onde estão a maioria dos estádios da Copa.

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