Brazil com Z: cidade em Indiana foi batizada em homenagem acidental ao Brasil (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 24 de junho de 2026 às 05h36.
Última atualização em 24 de junho de 2026 às 07h16.
No interior de Indiana, nos Estados Unidos, a 100 quilômetros de Indianápolis, há uma cidade onde uma fonte de pedra portuguesa enfeita a entrada do parque, onde quem nasce é chamado de "Brazilian" e onde, por mais de um século e meio, o nome de um país tropical convive com os invernos congelantes do meio-oeste americano.
A cidade se chama Brazil — com Z mesmo. E nesta quarta-feira, 24, ela vai parar para assistir a um jogo da seleção que, de certa forma, sempre foi um pouco sua.
Quando o Brasil entrar em campo contra a Escócia pela última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, os pouco mais de oito mil habitantes da pequena Brazil terão uma exibição especial da partida.
É um encontro improvável: de um lado, a seleção mais vitoriosa da história dos Mundiais; de outro, uma cidadezinha que leva seu nome quase por acaso, e que ainda está, em boa medida, descobrindo o país que homenageia.
Quem ajuda a construir essa ponte é Don Bryan, treinador de futebol de uma escola secundária de Brazil — função que, por si só, já tem algo de incomum em Indiana, o estado mais obcecado por basquete dos Estados Unidos. A paixão local pelo esporte da cesta tem até nome próprio, "Hoosier Hysteria".
Segundo dados oficiais do estado, 9 das 10 maiores quadras de ginásio escolar de todo o país ficam em Indiana, que forma mais jogadores da NBA por habitante do que qualquer outro estado americano. Foi nesse ambiente — onde a cesta vem antes da bola nos pés — que Bryan, na contramão, decidiu apostar no futebol. E a referência que o moveu, desde sempre, era brasileira.
A conexão vem de longe, da infância nos anos 1970. "O Brasil sempre teve uma forte ligação comigo por causa do futebol, desde que eu era criança", afirma Bryan, em entrevista à EXAME.
Naquela época, um nome resumia tudo o que o esporte podia ser. "Pelé era a grande referência, e vê-lo jogar na TV, na NASL, era algo incrível", diz, citando a antiga liga americana em que o Rei encerrou a carreira, no fim dos anos 1970, quando o futebol ainda engatinhava nos Estados Unidos.
Brazil: cidade de Indiana compartilha o nome com o país e prepara exibição especial de jogo da seleção brasileira (Imagem gerada por IA/Exame)
Para Bryan, o esporte que ele escolheu defender nunca foi só um jogo, mas sim uma forma de olhar o mundo. "Para mim, o futebol no Brasil é como o basquete em Indiana", diz.
Vindo de alguém que cresceu cercado por ginásios lotados, a frase é praticamente uma declaração de amor.
Essa paixão acabou se traduzindo em convivência real. Ao longo dos anos, Bryan recebeu estudantes brasileiros de intercâmbio na escola onde trabalha, e três deles chegaram a jogar futebol sob seu comando.
"É sempre uma boa oportunidade para conhecer novas experiências e ampliar conhecimentos", afirma.
Para ele, aproximar a cidade do país que lhe dá nome é também uma forma de educação. "Algumas pessoas daqui não sabem muito sobre futebol ou sobre o Brasil. E conhecimento é poder."
A história desse nome improvável começou na década de 1840, quando os donos de uma fazenda na região decidiram batizá-la de Brazil.
Não foi planejado. O país sul-americano apenas enchia as páginas dos jornais que chegavam aos Estados Unidos à época, e o nome soava bem.
Uma das versões mais contadas localmente diz que um comerciante teria visto a palavra "Brazil" em um jornal de Nova York e a achado bonita o suficiente para batizar o povoado.
O que importa é que o nome pegou. Em 1866, a cidade foi oficialmente fundada com essa identidade e se tornou a sede do Condado de Clay.
Décadas mais tarde, já no século 20, chegou a ter cerca de 40 mil habitantes, sustentada por fábricas de argila e cerâmica — número que encolheu para os atuais oito mil à medida que a indústria local minguou.
Quase um século depois da fundação, o laço com o Brasil ganhou forma de pedra. Em 1956, o governo brasileiro presenteou a cidade com uma réplica do Chafariz dos Contos, monumento erguido em 1745 em Ouro Preto, Minas Gerais.
A fonte foi instalada no Forest Park, o principal parque da cidade, e segue lá até hoje, no que é o vínculo (literalmente) mais concreto entre os dois lugares.
"É o principal símbolo dessa ligação", diz Bryan. "De tempos em tempos, esse relacionamento volta a ser lembrado e acaba reacendendo esse sentimento de conexão."
Carregar o nome de um país distante produz uma relação curiosa, feita de orgulho e desconhecimento na mesma medida.
Na entrada do Forest Park, as bandeiras dos Estados Unidos, a do Brasil — dessa vez com S — e uma terceira, própria, de "Brazil, Indiana", tremulam.
É talvez a imagem mais precisa do lugar: uma cidade que se reconhece brasileira no nome, mas cuja rotina é a de qualquer pequena cidade do meio-oeste americano, sem samba, sem café, sem nenhum traço evidente do país que batiza suas ruas.
O paradoxo aparece até no gentílico. Quem nasce ali é chamado de "Brazilian" — exatamente a mesma palavra que, em inglês, designa os brasileiros.
O orgulho, porém, conhece pouco do seu objeto. A ligação com o Brasil sobrevive mais como herança simbólica do que como vínculo cultural ativo.
Foi justamente esse contraste que mais chamou a atenção de Bernardo Barbosa e Raphael Pinteiro, os brasileiros à frente da organização da exibição.
"A principal surpresa foi perceber que, apesar do nome da cidade, muitas pessoas conhecem pouco sobre a cultura brasileira", afirmam, em entrevista à EXAME. "Ao mesmo tempo, notamos um interesse crescente pelo futebol, especialmente entre os mais jovens. As pessoas são mais reservadas do que os brasileiros, mas extremamente acolhedoras."
A distância cultural conversa também com a realidade econômica da cidade. Antes movida pelas minas de carvão e pelas fábricas de cerâmica e argila — que lhe renderam o apelido de "centro mundial dos produtos de barro" —, Brazil viu a indústria minguar ao longo do século 20 e hoje vive com dificuldades.
'Brazil': cidade em Indiana tem o mesmo nome do país — mas com Z (Imagem gerada por IA/Exame)
Um estudo de 2018 chegou a apontá-la como a cidade mais pobre de Indiana.
É nesse contexto, mais preocupado com o presente do que com as origens do próprio nome, que a maioria dos moradores vive — o que ajuda a explicar por que a conexão com o Brasil, embora real, raramente ocupa o centro das atenções.
A exibição de Brasil x Escócia é uma ação organizada por uma agência brasileira a pedido da marca Bem Brasil, que viu na coincidência do nome a chance de contar uma história longe do circuito tradicional da Copa — fora dos grandes centros e dos estádios lotados.
A ideia, dizem os organizadores, vai além dos 90 minutos: levar música, comida e um pouco da alegria brasileira para um encontro entre duas comunidades que, apesar da distância, dividem o mesmo nome.
Por uma tarde, a pequena Brazil de Indiana vai torcer pelo Brasil de verdade. E talvez, no intervalo entre um gol e outro, alguns de seus moradores descubram um pouco mais sobre o país que, sem que muitos deles soubessem direito por quê, sempre esteve ali.
Sobre a partida desta quarta, o treinador Bryan aposta em uma vitória de 3 a 1 para o Brasil. "O Brasil quer avançar para a fase eliminatória. No papel, é a equipe mais forte, mas ainda precisa jogar a partida. A Escócia está tentando construir uma presença mais relevante para o futuro. Talvez não seja a Seleção Brasileira mais forte de todos os tempos, mas ela carrega muito orgulho e tradição", diz.