Existe um paradoxo silencioso no Brasil: um país cercado por academias, parques e corpos em movimento, mas onde a maioria não consegue se movimentar o suficiente. A contradição ganha forma em um dado provocativo: mais de 70% dos brasileiros afirma que abriria mão de aumento salarial em troca de mais tempo para treinar. O problema, ao que tudo indica, não é falta de desejo — é falta de condições.
Esse é o ponto de partida da pesquisa “O Novo Significado do Esporte no Brasil”, conduzida pelo antropólogo Michel Alcoforado em parceria com a francesa Decathlon. O estudo mostra que 93% dos brasileiros querem praticar atividade física, mas apenas cerca de 44% conseguem manter uma rotina regular. O dado revela um descompasso estrutural: o esporte é valorizado, mas não está plenamente integrado à vida cotidiana.
Para entender esse cenário, é preciso voltar algumas décadas. Até os anos 1980, o esporte no Brasil era majoritariamente associado ao lazer ou ao alto rendimento. Foi nesse período, com a popularização do fitness e a ideia de "corpo saudável", que a prática esportiva começou a se infiltrar no cotidiano urbano. Nos anos 2000, esse movimento ganhou uma nova camada: a conexão entre corpo e mente. Exercitar-se deixou de ser apenas uma questão estética ou médica e passou a ser visto como ferramenta de bem-estar psicológico, identidade e até pertencimento social.
A pesquisa de Alcoforado mostra que essa transformação chegou ao Brasil, mas de forma desigual. Hoje, o país tem mais de 50 mil academias, o segundo maior mercado do mundo e atrás apenas dos Estados Unidos. Ainda assim, 56% da população não atinge o mínimo recomendado de atividade física. Esse mínimo, vale explicar, gira em torno de 150 minutos semanais de exercício moderado — algo como ir à academia duas ou três vezes por semana ou manter uma rotina de caminhadas.
Na prática, o que impede essa adesão não é desconhecimento, mas barreiras concretas. Falta de tempo aparece como um dos principais obstáculos, especialmente em grandes cidades onde deslocamentos podem consumir horas do dia. Soma-se a isso a falta de motivação e o custo financeiro. Entre mulheres, surgem ainda camadas adicionais: insegurança, assédio e sobrecarga doméstica. O esporte, que deveria ser um espaço de liberdade, muitas vezes se torna mais uma arena de tensão.
Apesar disso, há sinais de mudança. Entre aqueles que conseguem manter uma rotina ativa, a motivação não está apenas no corpo, mas na combinação entre corpo e mente. É como se o exercício funcionasse como uma espécie de "botão de reset". um momento em que o indivíduo reorganiza não só os músculos, mas também o pensamento. Esse grupo, mais engajado, chega a considerar trocar ganhos financeiros por tempo livre para treinar, evidenciando uma inversão de prioridades que começa a ganhar força.
"Outro achado relevante é o “jeito brasileiro” de se relacionar com o esporte. Diferente de culturas mais orientadas à performance, no Brasil o valor está na frequência, não no desempenho. Importa mais ir três vezes por semana do que correr mais rápido ou levantar mais peso", afirma Alcoforado, indicando que a lógica de consistência é um ativo de diferenciação. "É quase como regar uma planta: o efeito vem da repetição, não da intensidade isolada".
Mas essa lógica também tem limites. A pesquisa indica que renda ainda é um fator determinante: quanto maior o poder aquisitivo, maior a diversidade e a frequência das práticas esportivas. Além disso, há uma lacuna entre o que as pessoas fazem e o que gostariam de fazer.
No fundo, o estudo aponta para uma questão maior: o esporte no Brasil deixou de ser apenas uma atividade física e se tornou um indicador social. Ele revela desigualdades, rotinas exaustivas e até padrões culturais de gênero. Ao mesmo tempo, carrega um potencial transformador — não só para a saúde individual, mas para a forma como as pessoas se conectam entre si e com a cidade.
"A pesquisa mostra uma direção e nosso trabalho tem sido o escuta do consumidor. Ter isso ao centro da Decathlon ajuda a construir uma comunidade forte e mais conectada com o esporte", afirma a CMO da Decathlon Liana Kerikian.
O futuro dessa equação ainda está em aberto. Se o desejo já existe, o próximo passo parece ser estrutural: como criar condições para que mais brasileiros consigam transformar intenção em hábito? O desafio não é fazer o brasileiro querer se mover — é permitir que ele consiga.