Esporte

Brasileiro trocaria aumento de salário por tempo para treinar, descobrem Alcoforado e Decathlon

Pesquisa feita pelo antropólogo e a empresa francesa indica que 93% querem se exercitar, mas menos da metade consegue transformar intenção em rotina

Michel Alcoforado: antropólogo autor do livro 'Coisa de Rico'  (Divulgação)

Michel Alcoforado: antropólogo autor do livro 'Coisa de Rico' (Divulgação)

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 16 de abril de 2026 às 12h28.

Última atualização em 16 de abril de 2026 às 12h43.

Existe um paradoxo silencioso no Brasil: um país cercado por academias, parques e corpos em movimento, mas onde a maioria não consegue se movimentar o suficiente. A contradição ganha forma em um dado provocativo: mais de 70% dos brasileiros afirma que abriria mão de aumento salarial em troca de mais tempo para treinar. O problema, ao que tudo indica, não é falta de desejo — é falta de condições.

Esse é o ponto de partida da pesquisa “O Novo Significado do Esporte no Brasil”, conduzida pelo antropólogo Michel Alcoforado em parceria com a francesa Decathlon. O estudo mostra que 93% dos brasileiros querem praticar atividade física, mas apenas cerca de 44% conseguem manter uma rotina regular. O dado revela um descompasso estrutural: o esporte é valorizado, mas não está plenamente integrado à vida cotidiana.

Para entender esse cenário, é preciso voltar algumas décadas. Até os anos 1980, o esporte no Brasil era majoritariamente associado ao lazer ou ao alto rendimento. Foi nesse período, com a popularização do fitness e a ideia de "corpo saudável", que a prática esportiva começou a se infiltrar no cotidiano urbano. Nos anos 2000, esse movimento ganhou uma nova camada: a conexão entre corpo e mente. Exercitar-se deixou de ser apenas uma questão estética ou médica e passou a ser visto como ferramenta de bem-estar psicológico, identidade e até pertencimento social.

A pesquisa de Alcoforado mostra que essa transformação chegou ao Brasil, mas de forma desigual. Hoje, o país tem mais de 50 mil academias, o segundo maior mercado do mundo e atrás apenas dos Estados Unidos. Ainda assim, 56% da população não atinge o mínimo recomendado de atividade física. Esse mínimo, vale explicar, gira em torno de 150 minutos semanais de exercício moderado — algo como ir à academia duas ou três vezes por semana ou manter uma rotina de caminhadas.

Na prática, o que impede essa adesão não é desconhecimento, mas barreiras concretas. Falta de tempo aparece como um dos principais obstáculos, especialmente em grandes cidades onde deslocamentos podem consumir horas do dia. Soma-se a isso a falta de motivação e o custo financeiro. Entre mulheres, surgem ainda camadas adicionais: insegurança, assédio e sobrecarga doméstica. O esporte, que deveria ser um espaço de liberdade, muitas vezes se torna mais uma arena de tensão.

Apesar disso, há sinais de mudança. Entre aqueles que conseguem manter uma rotina ativa, a motivação não está apenas no corpo, mas na combinação entre corpo e mente. É como se o exercício funcionasse como uma espécie de "botão de reset". um momento em que o indivíduo reorganiza não só os músculos, mas também o pensamento. Esse grupo, mais engajado, chega a considerar trocar ganhos financeiros por tempo livre para treinar, evidenciando uma inversão de prioridades que começa a ganhar força.

"Outro achado relevante é o “jeito brasileiro” de se relacionar com o esporte. Diferente de culturas mais orientadas à performance, no Brasil o valor está na frequência, não no desempenho. Importa mais ir três vezes por semana do que correr mais rápido ou levantar mais peso", afirma Alcoforado, indicando que a lógica de consistência é um ativo de diferenciação. "É quase como regar uma planta: o efeito vem da repetição, não da intensidade isolada".

Mas essa lógica também tem limites. A pesquisa indica que renda ainda é um fator determinante: quanto maior o poder aquisitivo, maior a diversidade e a frequência das práticas esportivas. Além disso, há uma lacuna entre o que as pessoas fazem e o que gostariam de fazer.

No fundo, o estudo aponta para uma questão maior: o esporte no Brasil deixou de ser apenas uma atividade física e se tornou um indicador social. Ele revela desigualdades, rotinas exaustivas e até padrões culturais de gênero. Ao mesmo tempo, carrega um potencial transformador — não só para a saúde individual, mas para a forma como as pessoas se conectam entre si e com a cidade.

"A pesquisa mostra uma direção e nosso trabalho tem sido o escuta do consumidor. Ter isso ao centro da Decathlon ajuda a construir uma comunidade forte e mais conectada com o esporte", afirma a CMO da Decathlon Liana Kerikian.

O futuro dessa equação ainda está em aberto. Se o desejo já existe, o próximo passo parece ser estrutural: como criar condições para que mais brasileiros consigam transformar intenção em hábito? O desafio não é fazer o brasileiro querer se mover — é permitir que ele consiga.

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