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Argentina x Inglaterra: o paradoxo por trás do retorno inglês a uma final da Copa após 60 anos

Os 13 gols da seleção inglesa no Mundial foram marcados por atletas de clubes estrangeiros, reflexo de uma mudança histórica no futebol do país

Kane, Bellingham e Rashford lideram uma Inglaterra que chegou à decisão com gols marcados apenas por jogadores que atuam fora do país (Ilustração gerada por IA/Exame)

Kane, Bellingham e Rashford lideram uma Inglaterra que chegou à decisão com gols marcados apenas por jogadores que atuam fora do país (Ilustração gerada por IA/Exame)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 15 de julho de 2026 às 16h22.

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A Inglaterra pode seguir sem conquistar uma Copa do Mundo desde 1966, mas consolidou sua posição como o principal centro do futebol mundial. A força financeira da Premier League transformou o campeonato inglês na liga mais rica, competitiva e acompanhada do planeta, atraindo alguns dos melhores jogadores e treinadores da modalidade.

Esse protagonismo também ficou evidente nesta Copa do Mundo. Nenhuma liga forneceu tantos atletas ao torneio quanto a Premier League. Ainda assim, a campanha da seleção inglesa até a decisão apresentou um contraste que, há alguns anos, parecia improvável: os principais nomes da equipe construíram suas carreiras longe do futebol inglês.

Harry Kane, artilheiro da Inglaterra na competição com seis gols, atua pelo Bayern de Munique, na Alemanha. Jude Bellingham, também com seis gols, defende o Real Madrid, na Espanha. Marcus Rashford, outro inglês que marcou no torneio, passou a última temporada no Barcelona.

O resultado é um marco incomum para a seleção inglesa: os 13 gols da equipe na competição foram marcados exclusivamente por jogadores vinculados a clubes estrangeiros.

Uma mudança histórica no perfil da seleção

Durante décadas, vestir a camisa da Inglaterra significava, quase obrigatoriamente, atuar em um clube do país. Desde a Copa do Mundo de 1950, aproximadamente 211 jogadores representaram a seleção inglesa no torneio, mas apenas 13 defendiam equipes do exterior.

A participação desses atletas também teve impacto limitado. Antes da atual edição da Copa, apenas três dos 103 gols marcados pela Inglaterra em Mundiais haviam sido anotados por jogadores que atuavam fora do país.

A mudança reflete uma transformação no desenvolvimento dos atletas ingleses. Ao ser apresentado pelo Real Madrid, Bellingham afirmou que atuar em outro ambiente futebolístico ampliou sua formação.

"É uma cultura de futebol diferente, um estilo diferente. É muito bom poder levar isso aos meus companheiros de seleção inglesa."

O sucesso da Premier League também impulsionou a saída de jogadores

O aumento do número de ingleses atuando em grandes clubes europeus é, em parte, consequência do próprio sucesso da Premier League.

Os clubes ingleses figuram entre os mais ricos do futebol mundial e investem bilhões de libras em infraestrutura, formação de atletas e categorias de base. Esse ambiente elevou o nível técnico dos jogadores locais e aumentou o interesse de equipes como Real Madrid, Bayern de Munique e Barcelona.

Há cerca de duas décadas, era raro encontrar jogadores ingleses em ligas estrangeiras. Na temporada passada, esse contingente chegou a 31 atletas.

O calendário inglês pode cobrar um preço

Se a Premier League ajudou a elevar o padrão técnico dos jogadores ingleses, também expôs uma limitação da competição: o desgaste físico.

Considerada a liga mais intensa do futebol mundial, a Premier League exige mais acelerações, corridas em alta velocidade e esforços repetidos do que outras grandes competições europeias, segundo dados da SkillCorner, empresa especializada em monitoramento físico de atletas por tecnologia de rastreamento.

O calendário também amplia essa carga. Os principais clubes ingleses disputam até quatro competições por temporada, permitindo que seus atletas cheguem a aproximadamente 60 partidas em um único ciclo.

Nas principais ligas do continente, o cenário costuma ser diferente. Enquanto Declan Rice acumulou 4.336 minutos em campo pelo Arsenal na última temporada, o francês Ousmane Dembélé disputou 1.880 minutos pelo Paris Saint-Germain. Jude Bellingham, por sua vez, encerrou a temporada com 2.720 minutos pelo Real Madrid.

Essa diferença ajuda a explicar por que alguns jogadores que atuam fora da Inglaterra chegaram fisicamente mais preparados ao Mundial. Kane, por exemplo, liderou a seleção inglesa em distância percorrida durante a competição, desempenho atribuído, em parte, a uma temporada menos desgastante do que a enfrentada por atletas da Premier League.

A trajetória da Inglaterra evidencia um paradoxo. A Premier League consolidou o país como a principal potência econômica do futebol e contribuiu para o desenvolvimento de uma geração de alto nível técnico. Ao mesmo tempo, parte dos jogadores que lideraram a seleção no torneio encontrou fora da Inglaterra um ambiente que favoreceu sua evolução e preservação física ao longo da temporada.

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