Conflito no Oriente Médio: guerra no Irã é principal responsável pelo aumento de preços do petróleo. (ATTA KENARE / AFP/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 13 de abril de 2026 às 15h23.
A guerra entre Irã e Estados Unidos, que teve início no final de fevereiro deste ano, vem gerando bilhões no mundo das apostas e uma série de críticas a algumas plataformas que estão liberando essas previsões, caso da Polymarket, considerada uma das principais empresas deste segmento.
Um destes exemplos foi a morte do líder iraniano Ali Khamenei. A aposta condicionada ao acontecimento gerou quase 1 bilhão de dólares a alguns apostadores na Polymarket. Outro portal considerado de bastante impacto no segmento, a Kalshi, acabou cedendo às pressões da opinião pública e tirou do ar todas as apostas relacionadas à morte de Khamenei, devolvendo o dinheiro aos apostadores.
Até alguns dias atrás, existiam outras previsões em algumas dessas plataformas, como a realização de operações militares, ataques nucleares e detonação nuclear, essas retiradas do ar até mesmo pela Polymarket, procedimento que está longe de ser padrão na empresa.
As apostas nesses tipos de previsões não param por aí: existem opções de apostas sobre quando os EUA vai atacar Cuba, ou sobre as chances do presidente cubano Miguel Diaz-Canel deixar o comando, seja por qualquer motivo.
Se não bastasse isso, algumas das apostas têm gerado debates sobre o uso de informação privilegiada. Dois casos chamaram a atenção. O mais emblemático deles aconteceu em janeiro deste ano, quando a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, encerrou uma coletiva de imprensa com 64 minutos e 40 segundos e duração. Só que em uma dessas plataformas de previsões, havia uma aposta de que a coletiva de imprensa duraria menos do que 65 minutos. Mais: a probabilidade de ultrapassar os 65 minutos era de quase 100%.
Mais recentemente, um apostador acumulou, sozinho, 862 mil euros (cerca de R$ 5,2 milhões) em apostas sobre ações militares no Irã. Elas foram realizadas na Polymarket e envolviam odds sobre os ataques dos Estados Unidos contra o Irã, a maioria delas registradas horas antes das operações se tornarem públicas.
No Brasil, a regulamentação que entrou em vigor desde janeiro de 2025 proibiu qualquer tipo de aposta neste sentido.“A oferta de contratos sobre temas sensíveis, como guerras, tragédias ou eleições, esbarra em vedações legais expressas e em princípios basilares do direito brasileiro. No Brasil, a aposta sobre resultados eleitorais é juridicamente inviável. O Tribunal Superior Eleitoral classifica como ilícito o uso de plataformas para apostas vinculadas a candidatos ou ao resultado do pleito, enquanto previsões sobre guerras ou tragédias são consideradas incompatíveis por ferirem a ordem pública e a moralidade”, explica Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw, escritório de advocacia voltado para o setor de betting, e consultor do Conselho Federal da OAB.
"A questão de permitir apostas em eventos trágicos, como a morte em situações de guerra, não é abordada na Lei 14.790. Para que qualquer tipo de aposta seja legalizada e disponibilizada, o operador responsável pela plataforma deve ser validado e licenciado pela SPA. Este processo envolve a apresentação de documentação, similar à exigida das plataformas de apostas esportivas, embora possa haver especificidades. A tendência é que os sistemas de predição sejam integrados às plataformas já existentes", acrescenta Daniel Fortune, influenciador digital especialista em bets e jogo responsável.
Acontece que, pelo mundo, o mercado de previsões vem se tornando uma "febre", e não apenas na política. Alguns casos são bastante emblemáticos e já acontecem há muito tempo, principalmente quando envolve esportes e entretenimento. O Super Bowl é um desses exemplos, quando são abertas opções para quantas vezes um determinado jogador vai beber garrafas de Gatorade e até mesmo de qual sabor, ou sobre qual música o cantor porto-riquenho Bad Bunny cantaria na abertura do show.
De acordo com a consultoria Eilers & Krejcik Gaming, esse negócio deve chegar a mais de US$ 1 trilhão por ano nos EUA até 2030. Somente em 2026, segundo a empresa americana de capital de risco Foresight Venture, esse tipo de aposta vai movimentar 40 bilhões de dólares. E é justamente por causa deste crescimento que o Brasil é visto como um mercado exponencial a curto prazo.
Em 2025, o país encerrou o ano como 5º maior mercado de bets no mundo, com as empresas de apostas faturando mais de US$ 4,1 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões), de acordo com dados divulgados pela consultoria internacional Regulus Partners, focada no setor de esportes e lazer, e revelada pela rede BBC News.
O avanço é significativo, até por ser a primeira vez que o Brasil é considerado na lista de maiores mercados da Regulus Partners -justamente por estar no primeiro ano da regulamentação no país, o que comprova ser ainda um mercado com enorme potencial para crescer.
Esses números já colocam o Brasil bem próximos daqueles que foram apontados como o 3o e 4o maiores mercados do mundo; a Itália, com US$ 4,617 bilhões, e a Rússia (US$ 4,515 bilhões. O Reino Unido é o 2o, com US$ 9,901 bilhões, enquanto os Estados Unidos aparecem imponentes em 1o, com receita líquida estimada de US$ 17,312 bilhões.
Um dos principais objetivos destas plataformas é trazer o mercado de previsões ao Brasil, como por exemplo, algo que acontecia antes da regulamentação, como apostas nas eleições presenciais, em quem vai ganhar o Oscar ou outros eventos políticos e do entretenimento.
“Atualmente, o mercado de previsão opera em uma zona cinzenta no Brasil. Não existe uma proibição expressa, mas também não há uma regulamentação específica que garanta segurança jurídica para esse tipo de operação”, diz Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw, escritório de advocacia voltado para o setor de betting, e consultor do Conselho Federal da OAB. “Na prática, o ordenamento jurídico brasileiro ainda não definiu como enquadrar esse modelo. Isso gera um cenário de incerteza, em que diferentes órgãos podem interpretar a atividade de formas distintas”, complementa.
"Consequentemente, a ausência de regulamentação impede sua permissão, uma vez que sua participação se sujeitaria às normas vigentes, como a exigência de idade mínima de 18 anos e a necessidade de comprovação de capacidade financeira e cognitiva para participar, através do QIC (Questionário de Identificação de Capacidade, por exemplo)", analisa o influencer Daniel Fortune.