Príncipe saudita Faisal bin Bandar bin Sultan, presidente da Federação Saudita de eSports (AFP)
Repórter
Publicado em 14 de julho de 2026 às 14h53.
Última atualização em 17 de julho de 2026 às 08h49.
PARIS* - A Arábia Saudita quer ocupar no mercado global de games uma posição semelhante à conquistada por países como Estados Unidos e China. Uma das principais ferramentas dessa estratégia é a Esports World Cup (EWC), a Copa do Mundo dos eSports criada em Riad que, em 2026, realiza sua primeira edição internacional em Paris.
Durante sete semanas, mais de 2 mil jogadores, representantes de cerca de 200 clubes e mais de 100 países, participam de torneios de 24 jogos. No total, estão em disputa US$ 75 milhões (cerca de R$ 410 milhões) — a maior premiação já oferecida em um evento de esportes eletrônicos, segundo a organização.
A competição também reúne mais de 100 parceiros de mídia, produzirá aproximadamente 7 mil horas de conteúdo ao vivo e será transmitida para mais de 160 países. Antes da abertura, mais de 100 mil ingressos haviam sido vendidos.
'Nossa ambição ultrapassa fronteiras': o plano para transformar a Copa dos eSports em negócio globalPor trás dos números está um projeto que vai além da realização de campeonatos. A ambição é utilizar o evento para organizar uma indústria ainda marcada pela instabilidade financeira, fortalecer clubes e transformar a Arábia Saudita em um centro internacional de games e esports.
“A Arábia Saudita vê um grande potencial econômico nos esports e nos jogos”, afirma Mohammed Al Nimer, diretor comercial da Esports Foundation, organização responsável pelo evento, em entrevista à EXAME. “Faz parte da estratégia nacional do Reino tornar a Arábia Saudita um dos polos globais de esports, assim como acontece em países como China e Estados Unidos.”
Segundo o executivo, a meta de longo prazo é fazer com que a Copa do Mundo de eSports alcance uma relevância comparável à dos maiores eventos esportivos do planeta.
“Tudo começou em Riad, agora o evento chegou a Paris e esperamos que continue crescendo pelo mundo. Quem sabe, nos próximos dez ou 15 anos, possamos falar da Copa do Mundo de eSports no mesmo patamar de alguns dos maiores eventos esportivos globais”, diz.
Esports World Cup 2026: jogos ocorrem em Paris nesta edição.
Criada como parte da estratégia saudita para games, a Esports World Cup chegou ao terceiro ano com uma mudança importante: pela primeira vez, a competição deixou Riad e passou a ser realizada em outro país.
A edição de Paris concentra torneios, palcos e atividades para torcedores em um único espaço. A decisão permite testar um novo modelo operacional e aproximar a competição do público europeu, segundo Mike McCabe, diretor de operações e vice-CEO da fundação.
“Como estamos no coração da Europa, temos a oportunidade de atrair uma base de torcedores totalmente diferente”, afirma. “Queremos observar um novo público apoiando esses clubes.”
A mudança também foi influenciada pela instabilidade no Oriente Médio, em razão da guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel. De acordo com McCabe, restrições de viagem, dificuldades para emissão de vistos e alertas de segurança tornaram a transferência necessária.
A organização avaliou cancelar, adiar ou transferir o evento. A escolha por Paris buscou preservar a competição e as receitas de clubes que dependem das premiações para financiar suas operações e montar suas equipes.
“Muitos clubes dependem muito deste evento e da premiação oferecida para se manterem lucrativos ou formar seus elencos. As condições estão seguras agora. Mesmo assim, queríamos fazer a coisa certa e realizar isso em um local incrível como Paris”, afirma McCabe.
Apesar do investimento na globalização do torneio, a fundação pretende manter Riad como o centro institucional do projeto. Durante a abertura do evento, representantes da organização compararam o papel da capital saudita para os eSports ao da Grécia para o movimento olímpico.
"Riad será sempre o lar da Copa do Mundo de eSports, sua fundação, seu local de origem e o ponto de partida desta jornada", declarou o príncipe saudita Faisal bin Bandar bin Sultan, presidente da Federação Saudita de eSports, durante evento de abertura da EWC.
E acrescentou: "Riad representa uma visão ousada para o futuro dos eSports como uma plataforma global que une jogadores, clubes, desenvolvedoras, parceiros e fãs por meio da competição, da inovação e da celebração".
A China é o país que lidera o ranking dos maiores mercados consumidores de jogos, após movimentar US$ 54,6 bilhões em receita e 723 milhões de jogadores em 2024, segundo dados da consultoria Newzoo. Em seguida, aparecem os Estados Unidos, com US$ 50,8 bilhões e 224,8 milhões de jogadores no mesmo período, e o Japão, com US$ 17,6 bilhões.
O Brasil ocupa a nona posição, com aproximadamente US$ 2,8 bilhões, mas possui uma base expressiva de 123 milhões de jogadores.Por outro lado, a Arábia Saudita é hoje o país que mais investe para se transformar em polo global de eventos. O governo criou uma estratégia nacional para desenvolver toda a cadeia de games e esports e pretende posicionar o reino como centro internacional do setor até 2030.
A Esports World Cup, originalmente criada em Riad, tornou-se uma das maiores competições do mundo em número de modalidades e premiação.
Segundo dados do governo saudita, o setor de games deve contribuir com:

O crescimento dos esports atraiu publicadoras, marcas, fundos e governos nos últimos anos. O setor, porém, ainda enfrenta dificuldades para transformar audiência e popularidade em negócios sustentáveis.
Segundo McCabe, um dos principais problemas é o caráter de curto prazo de parte dos investimentos. Empresas entram no mercado, investem durante alguns meses e deixam o setor antes que clubes e competições consigam amadurecer.
“O maior desafio diz respeito à sustentabilidade dos eSports. O que vemos muito são grandes investimentos seguidos de retiradas rápidas”, afirma. “É muito difícil construir algo ao longo de vários anos, e coisas boas levam tempo.”
A fundação se apresenta como uma organização sem fins lucrativos, o que, segundo o executivo, permite realizar investimentos sem a pressão imediata por margens ou retorno financeiro.
A estratégia inclui não apenas financiar a competição, mas também apoiar clubes, desenvolver estruturas permanentes e estabelecer parcerias com as empresas responsáveis pelos jogos.
Atualmente, a organização mantém um programa com 40 clubes parceiros de diferentes países, incluindo equipes brasileiras. Parte dos recursos é distribuída por meio do campeonato geral de clubes, que premia as organizações com melhor desempenho em diferentes modalidades.
“O objetivo é tornar a indústria de esports sustentável”, afirma Al Nimer. “Queremos tornar os clubes autossustentáveis para que os jogadores profissionais possam construir carreiras sólidas em todo o mundo.”
Outro pilar do modelo de negócios da competição é a aproximação com empresas responsáveis por algumas das maiores franquias de games do mundo.
De acordo com McCabe, uma parcela crescente dos torneios da Esports World Cup passou a ser organizada em parceria com as próprias publicadoras. Dessa forma, a competição pode ser integrada aos calendários oficiais de cada jogo.
A fundação assume parte da estrutura e da operação dos campeonatos, enquanto as desenvolvedoras mantêm participação na definição dos formatos competitivos.
“Não somos apenas nós organizando o torneio. Somos nós e a editora realizando o evento”, explica McCabe. “A EWC está cada vez mais integrada à indústria de jogos, oferecendo às editoras a possibilidade de não terem de assumir sozinhas a responsabilidade por todas as suas competições.”
A edição reúne empresas concorrentes como Ubisoft, Tencent e Electronic Arts (EA). Para o executivo, essa capacidade de colocar diferentes grupos em um mesmo ambiente ajuda a criar confiança e ampliar a cooperação dentro desse ecossistema.
Além do campeonato de clubes, a organização trabalha na criação de uma competição entre países. A intenção é manter eventos regulares ao longo do calendário e oferecer mais previsibilidade para equipes, jogadores e publicadoras.
A Copa dos eSports fugiu da guerra. Agora quer virar o próximo grande negócio do esporteEsports World Cup 2026: jogos ocorrem em Paris nesta edição.
A organização também pretende ampliar a audiência da Esports World Cup para além do público que acompanha torneios profissionais.
Se o primeiro ano foi dedicado à consolidação e o segundo à expansão, a palavra escolhida pela fundação para definir a terceira edição é “conexão”.
A competição passou a ser apresentada como um festival da cultura gamer, com atividades que incluem streamers, músicos, atletas e experiências para jogadores casuais.
“Nossa meta é que a EWC seja um festival e uma celebração da comunidade gamer”, afirma McCabe. “Queremos receber todos, seja um jogador profissional, um fã ou alguém que joga casualmente em casa.”
A expansão para o entretenimento busca aumentar o tempo de permanência dos visitantes, diversificar as fontes de receita e tornar o evento mais atraente para patrocinadores que ainda não possuem familiaridade com os esportes eletrônicos.
Para Al Nimer, convencer grandes empresas e veículos de comunicação sobre o potencial comercial dos esports continua sendo um desafio. O executivo avalia que o setor precisa criar histórias e personagens capazes de alcançar o público de massa.
“É um esporte muito jovem, acompanhado por um público também muito jovem. Tudo se resume a educar as pessoas sobre o assunto, levá-lo para a grande mídia e contar histórias de heróis nacionais”, afirma.
Esports World Cup 2026: jogos ocorrem em Paris nesta edição.
O Brasil é considerado um dos mercados prioritários para a competição por causa do tamanho e do envolvimento de sua comunidade de fãs.
A fundação destaca principalmente o desempenho da audiência brasileira em campeonatos de Counter-Strike e a presença de equipes como a Furia. Clubes do país também participam do programa internacional de apoio mantido pela organização.
Nos últimos anos, o evento recorreu a nomes conhecidos do esporte brasileiro para ampliar sua visibilidade. Neymar participou da edição de 2024, enquanto Ronaldo Fenômeno e Kaká estiveram em uma partida de exibição em 2025.
“Para nós, o Brasil tem uma comunidade apaixonada, que gera uma audiência expressiva para a Esports World Cup”, afirma Al Nimer. “É um mercado muito importante.”
A expectativa da fundação é que o aumento das premiações, a profissionalização dos clubes e a maior exposição na mídia permitam que jogadores construam carreiras mais estáveis.
No horizonte saudita, a referência é o futebol: transformar competidores de games em estrelas reconhecidas fora do público tradicional dos esports.
“Acreditamos que, no futuro, um jogador de esports poderá se tornar tão grande quanto um jogador de futebol em países como o Brasil”, diz Al Nimer.
*O jornalista viajou a Paris a convite da Esports Foundation.