Esporte

Após falências e escândalos, clube italiano de 3ª divisão aposta em Ronaldinho para se reerguer

Aos 46 anos, brasileiro será acionista e deve disputar ao menos uma partida pelo Ravenna

Ronaldinho: Ex-jogador da seleção brasileira retorna aos gramados pelo Ravenna, clube da Emília-Romanha que tenta reconstruir sua trajetória no futebol italiano. (JEWEL SAMAD/AFP)

Ronaldinho: Ex-jogador da seleção brasileira retorna aos gramados pelo Ravenna, clube da Emília-Romanha que tenta reconstruir sua trajetória no futebol italiano. (JEWEL SAMAD/AFP)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 20 de agosto de 2026 às 16h16.

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Onze anos depois de deixar o futebol profissional, Ronaldinho Gaúcho está de volta aos gramados. Mas o retorno do brasileiro não acontece no Barcelona, no Milan ou em algum dos gigantes onde construiu sua carreira. Aos 46 anos, ele escolheu o Ravenna FC, clube da terceira divisão italiana que nunca disputou a Série A e carrega no currículo uma história marcada por crises financeiras, falências e até um escândalo de manipulação de partidas.

A chegada do ex-jogador faz parte de uma transformação que começou em 2024, quando o empresário Ignazio Cipriani adquiriu 100% do Ravenna. Poucos meses depois, metade do controle passou para a Black Duck, fundo de investimentos com sede em Londres. Desde então, o projeto combina futebol, tecnologia, moda e a rede internacional de negócios da família Cipriani para tentar levar o clube à elite italiana.

Ronaldinho é a aposta mais ambiciosa até agora. O brasileiro se tornou acionista do Ravenna e deverá disputar pelo menos uma partida oficial. O objetivo declarado é que consiga marcar mais um gol antes de encerrar definitivamente sua carreira profissional. Nesta quinta-feira, 20, ele desembarcou na Itália para iniciar essa nova etapa.

Mas o valor de Ronaldinho para o Ravenna está principalmente fora das quatro linhas. O ex-jogador será usado em campanhas promocionais e eventos internacionais para ampliar a exposição do clube e ajudar a atrair investimentos. Sua apresentação terá um festival à beira-mar preparado para receber cerca de 6 mil pessoas.

A estratégia ajuda a explicar por que um dos jogadores mais conhecidos do mundo decidiu se associar a um clube que ainda está longe da elite do futebol europeu.

De Miami para a terceira divisão italiana

O primeiro grande anúncio da parceria nem sequer aconteceu em Ravenna. Em junho, Ronaldinho foi apresentado em um evento no Cipriani Miami, nos Estados Unidos.

A noite começou com um jantar para 70 convidados e terminou com uma festa para cerca de 250 pessoas. O próprio clube classificou o evento como a estreia internacional do projeto “Ravenna FC by Cipriani”.

A escolha do local resume parte da estratégia. Ignazio Cipriani nasceu em Ravenna, mas vive há mais de duas décadas nos Estados Unidos e pertence à família responsável pela marca Cipriani, conhecida internacionalmente no setor de hospitalidade.

Quando assumiu o clube, em junho de 2024, ele deixou claro que pretendia utilizar essas conexões internacionais para ampliar a exposição do Ravenna.

Além da mudança de identidade visual, a nova gestão fechou uma parceria técnica de quatro anos com a Nike e colocou Ariedo Braida, dirigente que passou quase três décadas no Milan, na vice-presidência. O plano anunciado desde o início é levar o Ravenna à Série A.

O desafio é considerável. Quando Cipriani assumiu, o clube disputava a Série D, quarta divisão italiana. O Ravenna conquistou o acesso e atualmente está na Série C. Na temporada passada, chegou aos playoffs, mas ficou fora da Série B.

Ronaldinho aparece agora como uma forma de acelerar principalmente a transformação comercial do projeto.

“Queremos levar o Ravenna para a Série A”, afirmou Cipriani ao anunciar o acordo com o brasileiro. Segundo o empresário, a ideia é que Ronaldinho marque seu último gol profissional vestindo a camisa do clube.

Um fundo comprou metade do Ravenna

O projeto não depende apenas da família Cipriani.

Em outubro de 2024, a inglesa Black Duck AI Ltd adquiriu 50% da Ravenna FC Holding, companhia que controla integralmente o clube. A outra metade permaneceu ligada a Cipriani. O valor da transação não foi divulgado.

Por trás da Black Duck estão Michele Attisani e Niccolò Maisto. A entrada do fundo acrescentou outro componente ao projeto: tecnologia.

Na apresentação da nova gestão, Cipriani afirmou que o Ravenna serviria como um projeto-piloto para aplicação de inteligência artificial na análise de dados de jogadores, com utilização das informações tanto no scouting quanto na avaliação de desempenho.

A estratégia mistura, portanto, diferentes ativos: a experiência esportiva de Braida, o capital e a tecnologia da Black Duck, as conexões internacionais da família Cipriani e, agora, o alcance global da imagem de Ronaldinho.

O resultado esportivo ainda precisará aparecer. Mas, em termos de exposição, a contratação já colocou um clube da terceira divisão italiana em uma conversa internacional que dificilmente teria alcançado apenas pelos resultados dentro de campo.

De duas falências a um projeto para chegar à Série A

O contraste fica maior quando se olha para o passado do Ravenna.

A trajetória empresarial do clube é marcada por sucessivas reconstruções. A antiga US Ravenna entrou em colapso em 2001 depois de cair da Série B e não conseguir se inscrever para a temporada seguinte. Uma nova sociedade foi criada para dar continuidade ao futebol na cidade.

Pouco mais de uma década depois, veio outra crise.

Em junho de 2012, a Justiça italiana decretou a falência do Ravenna Calcio. Investigações posteriores da Guardia di Finanza apontaram mais de € 5 milhões em dívidas não pagas aos credores.

A apuração sobre o colapso revelou episódios incomuns até para a contabilidade de um clube de futebol.

Segundo a acusação, antigos dirigentes registraram receitas de patrocínio que nunca chegaram ao caixa. Entre elas estavam € 320 mil previstos em um acordo com a Seaser e outros € 130 mil relacionados à Marinagest. Havia ainda centenas de milhares de euros ligados a outros patrocinadores.

As receitas apareciam contabilizadas como créditos mesmo sem terem sido recebidas.

O efeito era significativo. De acordo com a investigação, o balanço de 2010 apresentava patrimônio positivo de cerca de € 16 mil. Sem aquelas operações, o resultado real seria um patrimônio negativo de aproximadamente € 400 mil.

Uma das soluções encontradas para compensar parte de um patrocínio não recebido foi particularmente curiosa: quatro vagas para barcos em uma marina. Segundo a acusação, além de terem pouca relação com a atividade de um clube de futebol, os ativos valiam menos do que o montante indicado no contrato.

Os antigos dirigentes contestaram as acusações. A defesa sustentou, entre outros argumentos, que empresas dos setores imobiliário e portuário haviam sido atingidas pela crise econômica e deixaram de conseguir cumprir compromissos anteriormente assumidos.

O escândalo das apostas

A crise financeira não foi o único episódio que abalou o Ravenna naquele período.

Em 2011, o clube esteve envolvido no Scommessopoli, investigação sobre manipulação de partidas e apostas no futebol italiano.

A Justiça Desportiva considerou especialmente grave o envolvimento do então diretor esportivo do Ravenna. Na decisão, a Federação Italiana de Futebol citou a “gravidade e reiteração” das condutas e o papel ativo do dirigente nos ilícitos.

A punição foi pesada: exclusão do campeonato que o Ravenna disputaria, rebaixamento para uma categoria inferior e multa de € 50 mil.

O episódio ocorreu justamente quando o clube já enfrentava dificuldades econômicas. No ano seguinte, a sociedade acabou declarada falida.

Ronaldinho como ativo global

Quase 15 anos depois, o Ravenna tenta escrever uma história bastante diferente.

O clube que acumulou dívidas milionárias e atravessou sucessivas reconstruções passou a se apresentar internacionalmente como “Ravenna FC by Cipriani”. A nova camisa foi lançada em Miami, produtos começaram a ser comercializados sob a nova identidade e Ronaldinho virou o principal rosto dessa internacionalização.

A aposta ajuda a explicar por que sua eventual contribuição esportiva é apenas uma parte do acordo.

Ronaldinho deixou o futebol profissional em 2015, após sua passagem pelo Fluminense. Aos 46 anos, dificilmente será responsável por levar tecnicamente uma equipe da Série C até a primeira divisão.

Sua capacidade de gerar atenção, no entanto, continua muito superior à dimensão atual do Ravenna.

O próprio desenho do acordo evidencia isso. Além de ser registrado como jogador, Ronaldinho terá participação acionária, presença em eventos e papel institucional e promocional.

Para Cipriani, a associação representa uma oportunidade de transformar uma história pessoal — ele afirma que Ronaldinho era seu ídolo na juventude — em estratégia empresarial.

Para o Ravenna, significa colocar uma das marcas pessoais mais conhecidas do futebol mundial a serviço de um projeto que tenta sair da terceira divisão.

O plano esportivo é chegar à Série A pela primeira vez. O comercial é maior: fazer com que, antes mesmo disso acontecer, o mundo saiba quem é o Ravenna.

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