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Com vacinação, grandes festivais de música estão de volta aos planos

Enquanto os americanos já experimentam grandes eventos sem a necessidade de máscara e distanciamento, na Europa e no Brasil as expectativas se voltam para 2022 quando, espera-se, a pandemia já tenha passado de vez

O início do verão no Hemisfério Norte será marcado pela volta da indústria da música em sua capacidade máxima nos Estados Unidos e em alguns países europeus. No Brasil, organizadores esperam a retomada em 2022

Depois de 460 dias sem receber um único show, o Madison Square Garden, complexo de arenas esportivas localizado em Nova York, nos Estados Unidos, voltará a abrir as portas com 100% de sua capacidade no próximo domingo, 20 de junho. 

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O grupo escolhido para dar as boas-vindas as cerca de 20 mil pessoas que deverão lotar a arena Garden foi a banda americana Foo Fighters, que subirá ao palco com o novo álbum "Medicine at Midnight", lançado nesta semana.

A última vez em que a banda, fundada em 1994 pelo ex-Nirvana, Dave Grohl, pisou no Garden foi em 2018, quando encheu o complexo de entretenimento com a turnê “Concrete and Gold”.

O retorno é simbólico para o Foo Fighters mas é também um marco de retomada para a indústria dos shows e festivais nos EUA. Não à toa, depois da apresentação em Nova York, a banda voltará para a estrada com uma série de shows no país, a começar pela cidade de Cincinnati, em Ohio, no próximo dia 28. 

Para assistir ao show deste domingo, que está com os ingressos esgotados, o público maior de 16 anos deverá comprovar que recebeu as duas doses da vacina contra o coronavírus. Entre os adultos, o uso de máscara não será obrigatório. Já os menores de idade, que percentualmente ainda não têm a mesma taxa de imunização dos americanos mais velhos, também poderão acompanhar o concerto, desde que apresentem testes negativos para a covid-19 e que permaneçam de máscara. “Esperamos por este momento há 15 meses e estamos ansiosos para finalmente dar as boas-vindas a uma casa lotada com  fãs totalmente vacinados", disse, em comunicado, James Dolan, presidente executivo e CEO da MSG Entertainment.

Para além da apresentação do Foo Fighters, a agenda dos próximos finais de semana no Madison Square Garden está abarrotada. Todos os eventos serão com capacidade máxima. O feito só se tornou possível, obviamente, com o avanço da vacinação no país, que já beira 64% dos adultos. 

Há 3 anos, o Foo Fighters tocava no Madison Square Garden. Neste domingo (20), a banda retorna aos palcos com uma grande comemoração.

Há 3 anos, o Foo Fighters tocava no Madison Square Garden. Neste domingo (20), a banda retorna aos palcos com uma grande comemoração. (Noam Galai/Getty Images)

No cenário de otimismo entre os estadunidenses, as restrições e distanciamentos começam a arrefecer enquanto a vida retorna a algo bem próximo do que era antes da pandemia. Ainda assim, o governo do democrata Joe Biden quer chegar a 70% de adultos imunizados até o dia 4 de julho, quando se comemora a declaração da Independência do país. A fim de cumprir o prometido, vale de tudo: desde cupons de descontos em supermercados até ingressos para o Lollapalooza Chicago, que começa em 29 de julho.

Não é somente nos Estados Unidos que a indústria dos grandes shows e festivais de música está voltando. Em alguns países europeus, onde a imunização em massa já pode ser vista no horizonte, organizadores e patrocinadores de grandes eventos também já riscaram o calendário. Enquanto isso, no Brasil, organizadores de eventos adiam os festivais e shows para o ano que vem.

Na Europa, grandes festivais de 2021 são cancelados

Entre os grandes festivais do velho continente, o Tomorrowland, na Bélgica, está programado para o final de agosto. Nada de máscara ou distanciamento social: um comprovante de vacinação ou um teste de covid-19 negativo já é o suficiente para liberar a diversão sem preocupações. Mas nesta sexta (18), o governo local anunciou que, por falta de um decreto que regulamente a capacidade máxima de grandes eventos, o festival não poderá acontecer. Ainda que a solução pareça simples, a incerteza sobre o evento ainda paira no ar.

Para não correr riscos como este, o Glastonbury, um dos maiores festivais do Reino Unido, previsto para junho de 2021, anunciou o cancelamento da edição presencial já em janeiro. As apresentações do Coldplay, Haim e Jorja Smith, entre outros, acabaram acontecendo "com todos os cuidados", pela internet. Uma próxima edição como nos "velhos tempos" pré-pandêmicos foi marcada para junho de 2022.

Neste mesmo mês, Barcelona, na Espanha, receberá o Primavera Sound, com shows de Dua Lipa, Tame Impala, Lorde e até a brasileira Pabllo Vittar. Após o cancelamento de 2020, a edição 2021 do festival estava programada para junho. Mas já em março, a organização adiou novamente o evento "devido às incertezas sobre as restrições da pandemia neste ano". Ainda não se sabe como será a vida daqui um ano mas, até junho de 2022, espera-se que as máscaras e o distanciamento social sejam coisa do passado.

No Brasil, shows online e adiamentos para 2022

A onda de adiamentos para 2022 engoliu muitos festivais brasileiros, como o Coala Festival. Em 2020, o festival migrou do Memorial da América Latina, em São Paulo, para a internet.

“Não queríamos que o evento fosse apenas mais uma live, mas, sim, um festival no digital”, comenta Guilherme Marconi, sócio do Coala Festival e membro da ABRAPE (Associação Brasileira dos Promotores de Eventos). “Para o evento, nós havíamos firmado contrato com o canal TNT para transmitir os shows, então já estávamos pensando em como fazer um evento com um olhar de programa de televisão, e não apenas uma filmagem dos palcos”, comenta.

Das 30 mil pessoas que o evento comporta presencialmente, as transmissões no YouTube e na TNT, somaram 1 milhão de views. Sem lucro de bilheteria, o evento contou com QR codes, para que as pessoas pudessem contribuir com o evento. Os patrocinadores também fizeram presença, Amstel, Jameson, Trident e
RedBull, por exemplo, utilizaram o aplicativo de entregas Rappi, para ativações com brindes durante o festival. 

Em setembro deste ano, subiriam ao palco do Memorial da América Latina, Gal Costa, Maria Bethânia, Alceu Valença e Rubel. Porém, há um mês, o Coala Festival anunciou a remarcação para 17 e 18 de setembro de 2022, no mesmo local de todos os anos. Um alívio para alguns fãs, visto que o Lollapalooza também estava marcado para o mesmo fim de semana neste ano. 

Coala Festival chega a receber 30 mil pessoas no Memorial da América Latina. No evento digital, um milhão de pessoas assistiram o evento.

Coala Festival chega a receber 30 mil pessoas no Memorial da América Latina. No evento digital, um milhão de pessoas assistiram o evento. (Fernando Schlaepfer/Divulgação)

Com line up inicial incluindo Guns n’ Roses, Lana Del Rey, Travis Scott e The Strokes, o Lollapalooza brasileiro, que aconteceria inicialmente em abril de 2020, foi remarcado para setembro deste ano, e então para março de 2022. Os artistas que participarão do evento no ano que vem ainda não foram anunciados.

O "Lolla" latino, porém, segue confirmado. Com 48,8% da população vacinada até o momento, a edição do Lollapalooza no Chile está confirmada, assim como na Argentina, ainda que por lá o nível de vacinação esteja bem menor -- apenas 7,9% da população já tomou as duas doses da vacina. 

Festivais com edições internacionais, como o Rock in Rio Lisboa, já divulgaram algumas das atrações para o festival, incluindo The Girl From Rio, Anitta, a baiana Ivete Sangalo e Foo Fighters. “O verão europeu faz com que a cidade se transforme num polo efervescente do turismo e o festival recebe mais de 20 mil fãs por dia de inúmeros países”, disse Roberto Medina, presidente e idealizador do evento em comunicado. Porém, para a edição nacional, apenas o mês, setembro de 2022, foi confirmada. 

Medina reforçou, ainda, a retomada dos eventos cariocas para o próximo ano. “2022 sem dúvida será especial, com a volta de grandes ativos do Rio de Janeiro, como o Réveillon, o Carnaval e, claro, o Rock in Rio, que juntos representam um impacto econômico de mais de R$5 bilhões e empregam 48 mil pessoas”.

Para o setor do entretenimento, como a Time For Fun, representante de casas de shows e de eventos como o Lollapalooza, o balanço do primeiro trimestre de 2021, trouxe os impactos da pandemia para o setor, como redução de funcionários, cancelamento e adiamento de eventos, e fechamento de casas. “Tempestivamente reduzimos o quadro de funcionários do Brasil quase pela metade imediatamente após os primeiros impactos da pandemia e, nesse momento de recrudescimento da pandemia, realizamos uma redução adicional de 36% no quadro de colaboradores no 1T21”, comentou Fernando Alterio CEO da T4F.

Embora os maiores festivais nacionais tenham sido adiados, um ainda se mantém confirmado: o Rock The Mountain. Marcado para 13 e 14 de novembro, em Itaipava (RJ), a venda de ingressos se esgotou em dezembro do ano passado. A menos de 150 dias do evento, que terá mais de 80 atrações, como Caetano Veloso, Gal Costa, Criolo, Marina Lima, Alceu Valença, e outros, a expectativa de vacinação no Rio de Janeiro já terá cumprido a primeira dose em pessoas maiores de 18 anos até o final de agosto

Marconi, que viajou para os Estados Unidos recentemente para assistir uma partida da NBA como parte do teste de eventos, comenta que, no Brasil, há parcerias dos governos estaduais com o setor cultural no planejamento de eventos testes para os próximos meses, seja com público 100% vacinado ou eventos com público misto, entre vacinados e não vacinados, mas apresentando testes negativos para covid-19 no dia do evento. 

O produtor se diz animado para a próxima edição do festival, pensado para um formato híbrido. “Eventos relevantes não irão permanecer no físico apenas, veja exemplos como o Rock in Rio e o Super Bowl, que transmitem na televisão e na internet”. Marconi vislumbra anos áureos do entretenimento ao vivo a partir de 2022. “As pessoas não veem a hora de se reencontrarem e irem a shows, festas e festivais”, diz ele.

E é verdade. Habitué de festivais na Europa, o publicitário Filipe Almeida e pelo menos uma dezena de amigos preferiram olhar para as incertezas da pandemia "vendo o copo meio cheio" e já garantiram suas entradas para comemorar seus 30 anos no Primavera Sound. "Até junho do ano que vem a pandemia já vai ter passado. O que me preocupa mesmo é o câmbio", diz o publicitário, que já monitora diariamente a cotação do euro.

A moeda europeia fechou a semana em 6,01 reais, o menor valor desde julho de 2020. Enquanto a escalada da Selic pode representar uma tendência de queda ainda maior por atrair mais dólares ao Brasil, a aproximação das eleições e o constante risco fiscal ainda são uma barreira para a valorização do real.

"O risco de ter que gastar muito mais por causa do câmbio é grande. Mas ter um plano futuro me dá energia para esperar pela vacina", brinca Almeida - mas falando sério.

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