CIÊNCIA

75 anos depois, os efeitos de Hiroshima ainda são visíveis

Catarata, leucemia, diversos tipos de câncer, síndrome cerebral, queimaduras. Os efeitos colaterais de um ataque que aconteceu no século passado

Há 75 anos a cidade de Hiroshima, no Japão, foi destruída por uma bomba nuclear, até então nunca antes vista em uma guerra. Era dia 6 de agosto de 1945, 8h15 da manhã, quando a bomba atômica americana Little Boy caiu sobre a cidade de Hiroshima, a segunda mais populosa do país asiático na época, deixando de imediato cerca de 80 mil pessoas mortas e destruindo 69% do território.

Apenas três dias depois do primeiro ataque, no dia 9 de agosto, a cidade de Nagasaki enfrentou o mesmo destino, com a bomba nuclear Fat Man — mais poderosa que a Little Boy, mas menos efetiva por conta das irregularidades no terreno da cidade. Em menos de um segundo 35 mil pessoas estavam mortas.

Até o final do século XX o número de mortos total pelas bombas nucleares passaria de 200 mil, muitas causadas pelos efeitos a exposição à radiação  — efeitos estes que até hoje, 75 anos depois, ainda são visíveis na sociedade japonesa.

A fundação Radiation Effects Research Foundation (RERF), fruto de uma união entre os Estados Unidos e o Japão, quer continuar estudando os efeitos da radiação das bombas nos seres humanos e amostras biológicas de 30 mil participantes de estudos anteriores serão analisadas para entender melhor os sistemas moleculares pelos quais a radiação acaba criando um quadro cancerígeno. Outra resposta que os cientistas pretendem responder é se um pai ou uma mãe expostos à radiação são capazes de passar os mesmos distúrbios para seus filhos.

Em 1953, um estudo feito pela Comissão de Acidentes com Bombas Atômicas (ABBC) apontou que das mais de 60 mil mulheres grávidas entre 1948 e 1952, não houve correlação entre exposição à bomba e problemas com os recém-nascidos. O que foi observado, à época, é que a radiação em mulheres tornava mais provável que meninas nascessem enquanto a exposição nos homens fazia com que mais meninos nascessem.

O principal problema para novos estudos sobre os efeitos dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki é que quase 70% dos 120 mil participantes principais do estudo inicial da RERF morreram. Os outros 30% que continuam vivos estão na casa dos 80 ou 90 anos.

Os efeitos da radiação

Catarata, leucemia, diversos tipos de câncer, síndrome cerebral, queimaduras. Todas são situações prováveis de acontecer quando uma pessoa tem um grau intenso de contato com a radiação, mas não o suficiente para matá-la.

Em uma reportagem feita pela revista americana Timea sobrevivente Emiko Okada, que estava a 2,8 quilômetros de distância do centro da bomba em Hiroshima, afirmou que “a guerra é uma das duas coisas: ou você mata, ou morre”. “Eu também fui afetada pela radiação e vomitei muito depois do ataque. Meu cabelo caiu, minhas gengivas sangraram, e fiquei muito doente para ir à escola”, contou ela.

Também à publicação americana, Fujio Tarikoshi, outro sobrevivente de Hiroshima, afirmou que seu rosto inchou o suficiente para que ele não conseguisse abrir os olhos mesmo dias após o ataque. À época, ele recebeu um diagnóstico dos médicos de que só viveria até os 20 anos. “E aqui eu estou, sete décadas depois, aos 86 anos. Tudo que eu quero é esquecer, mas a quelóide em meu pescoço é a lembrança constante da bomba atômica. Não podemos continuar a sacrificar vidas preciosas em nome das guerras. Tudo que eu posso fazer é rezar pela paz mundial”, disse. Tarikoshi estava a 2 quilômetros de distância do hipocentro da bomba.

Quando a bomba Little Boy explodiu a aproximadamente 570 metros do chão, ela foi capaz de produzir uma nuvem de fumaça que chegou a até 18 quilômetros de altura. A bola de fogo gerada por ela, com uma temperatura aproximada de 300ºC, destruiu tudo em um raio de 2 quilômetros.

Se uma bomba do tipo caísse na Praça da Sé, em São Paulo, por exemplo, seus efeitos seriam sentidos com mais força em bairros como o Brás, a República, a Liberdade e Bela Vista, e atingiria áreas da Luz, da Santa Cecília e do Cambuci. Os demais bairros próximos também seriam afetados — embora de forma mais leve, mas ainda assim com consequências.

-

(Maps/Reprodução)

A dose da exposição à radiação é muito importante nos efeitos causados por uma bomba nuclear, como apontaram diversos cientistas ao longo dos anos.

A bomba em formato de cogumelo pode explicar: sua força é expelida totalmente no hipocentro, e, como um efeito dominó, vai derrubando as outras peças até o final de uma linha difícil de ser delimitada.

Em locais mais próximos ao hipocentro, a dose da exposição chega até a dois grays (unidade de medida de radiação), e vai reduzindo conforme a distância aumenta. Quanto maior o gray, maior o risco de desenvolver algum tipo de câncer.

Mas não é esse o único fator que indica se uma pessoa vai desenvolver ou não a doença. Gênero, idade quando sofreu a exposição e susceptibilidade genética também influenciam no desenvolvimento de um câncer, bem como fumar.

Entre aqueles que estavam a cerca de 900 metros do hipocentro da bomba e receberam mais de 2 grays de radiação, 124 morreram de câncer. A radiação foi responsável pela morte de 70 desses indivíduos. Segundo o bioestatístico Dale Preston em entrevista à revista científica Science, isso pode ser explicado porque aqueles que estavam ainda mais próximos da explosão não sobreviveram para contar a história.

A incidência de câncer pós o ataque americano também foi maior em mulheres. Estudos de 2018 e 2019 feitos pela RERF também apontam que meninas expostas à radiação pela bomba na idade de suas primeiras menstruações tiveram riscos maiores de desenvolver câncer de útero ou de mama quando mais velhas do que as que já haviam passado pela puberdade.

Tanto entre homens quanto em mulheres, quanto mais jovens as pessoas eram em 1945, mais chances elas tiveram (e ainda têm, no caso dos sobreviventes) de desenvolver a doença após anos de exposição.

O que é uma bomba nuclear?

Um avanço científico e um pesadelo: com essas duas definições pode-se explicar melhor o que é, de fato, uma bomba nuclear.

Da teoria quântica do alemão Max Planck, a aprimoração feita por Albert Einstein em 1905, a neozelandês Ernest Rutherford que tentou comprovar a existência de um núcleo atômico até o dinamarquês Niels Bohr que misturou tudo e mais um pouco para provar que sim, seria possível dividir o núcleo do urânio em duas partes relativamente iguais. Entre as décadas de 1920 e 1930, foram iniciados os testes para a construção de uma bomba nuclear.

Então, no final da Segunda Guerra Mundial,  o físico americano Robert Oppenheimer, tido como o pai da bomba atômica, que estava à frente do projeto Manhattan, ficou bastante conhecido na comunidade científica. O projeto americano era o responsável pelas pesquisas e testes de uma bomba. A primeira, testada em 16 de julho de 1945, pouco menos de um mês antes do ataque real no Japão, foi explodida no deserto de Los Alamos, no Novo México.

Mas o que é, afinal, uma bomba nuclear? Ela nada mais é do que uma arma potente de destruição, que funciona com base do processo nuclear de fissão dos átomos (processo que quebra o núcleo dos átomos em dois menores) e capaz de liberar níveis intensos de energia. Para a construção de uma, são necessários diversos elementos químicos, como o urânio-235 e plutônio-239.

As bombas americanas que destruíram Hiroshima e Nagasaki não foram nem sequer as mais fortes já criadas pela humanidade. A Little Boy, por exemplo, tinha um poder de destruição de 16 quilotons, enquanto a Fat Man possuía 20 quilotons. A mais potente de todas foi a russa Tsar, desenvolvida pela União Soviética. Com 58 megatons, ela foi testada em 30 de outubro de 1961, em Nova Zembla, uma ilha no oceano Ártico — uma ameaça grande o suficiente para assustar os Estados Unidos durante o período da Guerra Fria.

Em 1968 foi assinado o Tratado de não proliferação de armas nucleares (TNP), acordo entre Estados que começou a vigorar a partir dos anos 1970 e tinha como objetivo limitar o poder de armas nucleares dos Estados Unidos, da Rússia, do Reino Unido e da China.

As armas nucleares em 2020

A Rússia é, ainda, o país com o maior número de armas nucleares segundo a Campanha Internacional para Banir Armas Nucleares (ICAN, na sigla em inglês), com um arsenal que conta com mais de 6 mil armas do tipo. Em seguida, vem os Estados Unidos. Ambos os países, mesmo após o final da Guerra Fria, se mantiveram firmes e fortes na produção de arsenal bélico.

O Japão, mesmo sem aparecer na lista de países com um arsenal nuclear, tem tentado encontrar formas de fortalecer seu poder militar ao mesmo tempo em que relembra um dos maiores acidentes de sua história.

Memórias

Como em todos os anos, acontecerá no Japão um evento para relembrar os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki em um memorial pacifista no centro de Hiroshima, dessa vez com menos convidados do que o habitual por conta da covid-19. O evento será transmitido pela internet, assim como uma série de videoconferências de ativistas contrários à proliferação de armas nucleares.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.