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União Europeia registra virada histórica na geração de energia elétrica em 2025

Eólica e solar geraram 30% da eletricidade no ano passado, superando combustíveis fósseis; dependência do gás importado ainda é desafio

União Europeia: pela primeira vez, fontes de energia eólica e solar superam combustíveis fósseis. (Photoangel/Freepik)

União Europeia: pela primeira vez, fontes de energia eólica e solar superam combustíveis fósseis. (Photoangel/Freepik)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 16h51.

Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 18h42.

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A União Europeia alcançou um marco histórico em sua matriz elétrica em 2025. Pela primeira vez, fontes eólica e solar produziram mais eletricidade que os combustíveis fósseis no bloco, segundo relatório divulgado nesta quarta-feira (22/1) pelo think tank Ember.

Os dados do "European Electricity Review 2026" mostram que turbinas eólicas e painéis solares responderam por 30,1% da geração elétrica europeia no ano passado, enquanto termelétricas a carvão, gás e outros fósseis ficaram com 29%.

Apenas cinco anos antes, em 2020, eólica e solar representavam 19,7% do mix, contra 36,7% dos fósseis.

Crescimento solar impulsiona transição

O estudo mostra que energia solar foi protagonista dessa transformação. Com crescimento de 20,1% em relação a 2024, a fonte atingiu produção recorde de 369 TWh e passou a representar 13,2% da eletricidade do bloco, volume superior ao do carvão e da hidreletricidade.

O avanço foi generalizado. Todos os 27 países membros da UE registraram aumento na geração solar. Cinco nações já têm a fonte respondendo por mais de um quinto de sua demanda elétrica: Hungria (28%), Chipre, Grécia, Espanha e Holanda.

E o que parece sustentar esse desempenho é expansão da capacidade instalada. Em 2025, a UE adicionou 65,1 GW em painéis solares, divididos quase igualmente entre grandes usinas e sistemas residenciais, um crescimento de 19% na capacidade total em apenas um ano.

Segurança energética em foco

Conforme Beatrice Petrovich, analista sênior da Ember e principal autora do estudo, o marco tem relevância que transcende o setor elétrico. "A importância disso vai além da energia", afirmou no documento.

"O perigo de depender de combustíveis fósseis é iminente em um cenário geopolítico instável."

É uma preocupação pertinente. Embora em dezembro a UE tenha aprovado a legislação que proíbe importações de gás russo até 2027, o bloco aumentou significativamente as compras de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, trocando uma dependência por outra.

O aumento de 8% na geração a gás em 2025, impulsionado principalmente pela queda de 12% na produção hidrelétrica, elevou a conta de importação para o setor elétrico em 16%, chegando a € 32 bilhões. Alemanha, Itália e Espanha concentraram 60% desse crescimento.

Carvão em declínio; baterias para volatilidade

Enquanto eólica e solar avançam, o carvão segue em queda acentuada. Atualmente, 19 dos 27 países da UE têm participação do carvão inferior a 5% ou já eliminaram completamente a fonte.

Por exemplo, a Irlanda encerrou o uso do mineral em junho de 2025, e a Finlândia avançou rumo à meta de eliminação até meados de 2029.

Há uma década, o carvão respondia por 24,6% da eletricidade do bloco. Nesta análise, ainda que seja das fontes mais poluentes, caiu para 9,2% da geração europeia.

O relatório destacou também a ampliação de sistemas de armazenamento, especialmente baterias, como essencial para consolidar a liderança das renováveis. A capacidade de baterias em grande escala na UE ultrapassou 10 GW em 2025, mais que o dobro dos 4 GW de 2023.

A Ember calcula que, se a Alemanha tivesse toda a capacidade de baterias atualmente planejada (10,5 GW), poderia ter evitado um terço do desperdício de energia renovável curtailada em 2025, economizando cerca de € 830 milhões em custos de redespache e compra de gás.

Desafios persistem e bloco precisa ir além do discurso

Apesar dos avanços na geração elétrica renovável, analistas alertam que a União Europeia precisa acelerar o ritmo de transformação e traduzir sua liderança em ações mais concretas para eliminação dos combustíveis fósseis em todos os setores.

As renováveis responderam por 47,7% da geração em 2025, praticamente estável em relação aos 47,9% de 2024, devido principalmente às condições climáticas adversas no início do ano.

Ventos fracos nos primeiros meses reduziram a produção eólica em 2,5%, embora o clima excepcionalmente ensolarado tenha compensado parcialmente essa queda.

Adicionalmente, ainda que fontes eólica e solar tenham ultrapassado os fósseis na produção de eletricidade, o gás ainda representa desafio significativo, visto que sua participação aumentou 8% em 2025, impulsionando a conta de importação.

E UE também vem sendo criticada por organizações ambientais europeias, que defendem que o bloco deveria desenvolver seu próprio roteiro para eliminação gradual de carvão, petróleo e gás, em vez de apenas cobrar compromissos globais de outros países.

Durante a COP30 em Belém, a UE defendeu veementemente um roteiro global para transição energética, mas acabou cedendo ao consenso, que fez com que a proposta fosse vetada sobretudo por petroestados.

Em dezembro, organizações como a Fundação Heinrich Böll, com sede em Berlim, sugeriram que "nada impede a UE de definir seus próprios prazos para a eliminação gradual do carvão, do petróleo e do gás", questionando a coerência entre o discurso europeu e suas ações domésticas.

Outros questionamentos são em torno da a meta climática do bloco para 2035 - redução de pelo menos 66,25% nas emissões em relação a 1990 - , considerada insuficiente.

Pelos cálculos de ambientalistas, isso equivale a corte de 54% comparado a 2019, abaixo da redução de 60% que o mundo precisa alcançar para limitar o aquecimento a 1,5°C.

O relatório da Ember recomenda que os países membros eliminem barreiras regulatórias para implantação de baterias, acelerem licenciamentos de linhas de transmissão entre fronteiras e estabeleçam políticas claras para eletrificação de transporte, aquecimento e indústria.

Segundo o documento, esses setores podem reduzir pela metade a dependência de importações fósseis, mas exigem ação coordenada que vá além do sucesso já alcançado no setor elétrico.

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