ESG

The Elders, grupo de anciões criado por Nelson Mandela, quer o Brasil na liderança climática global

Grupo reúne cinco prêmios Nobel da Paz e ex-presidentes de Estados Unidos, Noruega, Irlanda, Chile, Colômbia, Moçambique, entre outros

Ellen Johnson Sirleaf, Prêmio Nobel da Paz: o Brasil deve liderar o mundo em direção a uma economia justa, livre e sustentável (Rodrigo Caetano/Exame)

Ellen Johnson Sirleaf, Prêmio Nobel da Paz: o Brasil deve liderar o mundo em direção a uma economia justa, livre e sustentável (Rodrigo Caetano/Exame)

Rodrigo Caetano
Rodrigo Caetano

Editor ESG

Publicado em 29 de maio de 2024 às 13h25.

Ellen Johnson Sirleaf, economista nascida em Monrovia, na Libéria, fugiu para o exílio duas vezes. Na primeira, enfrentava a ditadura militar de Samuel Doe, um regime violento que levou o país a uma guerra civil de sete anos, entre 1989 e 1996. Num breve intervalo de estabilidade, Sirleaf voltou à Liberaia e se candidatou a presidente, mas foi derrotada por Charles Taylor, líder guerrilheiro responsável pela morte de Doe em batalha.

Acusada de traição, voltou a se exilar. Taylor seguiu sua saga destruidora e promoveu um conflito sangrento que se espalhou para a vizinha Serra Leoa, até ser destituído em 2003. Com apoio internacional, Sirleaf retornou e venceu as eleições subsequentes, se tornando a primeira mulher a assumir como chefe de estado em uma nação africana. Entre seu primeiro exílio e sua eleição, 250 mil pessoas morreram nas duas guerras civis.

Sirleaf, agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, em 2011, enxerga o mundo, neste momento, em uma crise existencial. “Nos afastamos de princípios formadores da sociedade”, disse a ex-presidente em evento realizado pela Laclima, mobilização global de juristas para o combate às mudanças climáticas, e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). “Seremos cobrados pelas novas gerações.”

Na plateia, líderes políticos inclinavam levemente a cabeça em sinal positivo. Estavam presentes as ex-presidentes da Irlanda, Mary Robinson, e da Noruega, Gro Harlen Brundtland; o ex-presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos; o médico congolês Denis Mukwege, Prêmio Nobel da Paz em 2018; que são membros do The Elders, grupo de líderes globais em defesa da paz, justiça e de um planeta sustentável criado por Nelson Mandela, em 2007. Aniele Franco, ministra da Igualdade Racial no Brasil, também acompanhava a palestra, mas precisou se ausentar antes do encerramento do evento para não perder um voo.

O tema do encontro em São Paulo, “Liderança com Visão de Longo Prazo e Justiça Climática: Como o Brasil pode liderar o mundo”, talvez merecesse mais atenção do governo. Sirleaf seguiu Brundtland e antecedeu Robinson em apontar o Brasil como líder nato da nova ordem mundial sendo formada a partir dos esforços de transição para uma economia de baixo carbono. Na visão dos anciões de Mandela, o país tem os requisitos para comandar o mundo em direção a um modelo econômico mais justo e respeitoso com o meio ambiente: uma grande população, uma economia relevante e a maior biodiversidade do mundo, um ativo da Amazônia.

Assumir esse lugar depende da vontade da liderança política e da conscientização da sociedade, dizem os anciões. A elogiada diplomacia brasileira tem condições técnicas de unir o chamado sul global, bloco geopolítico formado pelos países emergentes, em torno da causa climática com ênfase na justiça social. Promover as mudanças necessárias para chegar ao ideal de liberdade, justiça e sustentabilidade, no entanto, depende de um componente extra, o poder econômico, atualmente concentrado nos países desenvolvidos.

Juan Manuel Santos, outro Prêmio Nobel da Paz, o presidente colombiano que negociou o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias (FARC) e encerrou uma guerra de seis décadas, entende ser possível convencer os países ricos a financiar as transformações econômicas para se chegar ao novo modelo econômico, um esforço de alguns trilhões de dólares e que depende da substituição do petróleo como a principal matriz energética global. “Precisamos ter muito poder de persuasão para convencê-los de que é do interesse deles ser mais generoso”, disse Santos. “Eles vão compreender”. É sempre um conforto ouvir a voz da experiência.  

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