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Seu cosmético polui as águas? Grupo Boticário consolida metodologia para reduzir impacto ambiental

Após 10 anos, empresa atinge 98% dos shampoos e 100% dos sabonetes e óleos enxaguáveis biodegradáveis e usa ciência, dados e IA para avançar na sustentabilidade das fórmulas

Com apoio de ciência de dados e inteligência artificial, a gigante de cosméticos já analisa mais de 54 mil formulações com base em seu índice ambiental (Leandro Fonseca/Exame)

Com apoio de ciência de dados e inteligência artificial, a gigante de cosméticos já analisa mais de 54 mil formulações com base em seu índice ambiental (Leandro Fonseca/Exame)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 31 de março de 2026 às 19h00.

Última atualização em 1 de abril de 2026 às 10h10.

No Grupo Boticário, a ambição de melhorar continuamente as fórmulas dos produtos passa, necessariamente, por reduzir seu impacto no meio ambiente — especialmente na água.

Foi com essa missão que a companhia desenvolveu a metodologia I.A.R.A. (Índice de Avaliação de Risco Ambiental), que hoje orienta decisões de inovação e reformulação em todo o portfólio de produtos enxaguáveis.

Criado há uma década e em constante evolução, o índice funciona como uma ferramenta de comparação entre fórmulas e acaba de consolidar avanços concretos.

Dados divulgados em primeira mão à EXAME revelam que a  empresa alcançou 98% dos shampoos biodegradáveis e 100% dos sabonetes (em barra e líquidos) e óleos hidratantes enxaguáveis nas marcas de consumo do grupo.

Além disso, todos esses produtos apresentam menor impacto na água quando comparados à média da categoria.

“Cada vez que desenvolvemos uma nova fórmula, usamos a metodologia para comparar com a versão anterior e a regra é que ela nunca pode retroceder”, afirma à EXAME, Juliana Canellas, diretora de Qualidade, Excelência e Cuidado do Grupo Boticário.

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Juliana Canellas, diretora de Qualidade, Excelência e Cuidado do Grupo Boticário.
“É um índice bem dinâmico que está sempre evoluindo", diz a diretora.[/caption]

Na prática, a metodologia avalia a pegada ambiental das formulações com base em três critérios principais: [grifar]biodegradabilidade, toxicidade aquática e potencial de bioacumulação (capacidade de substâncias se acumularem em organismos vivos ao longo do tempo).

A lógica considera um cenário conservador, simulando o impacto direto no meio ambiente. “A gente sempre pensa na pior hipótese: como se essa água com produto fosse direto para o rio ou oceano”, conta a diretora.

Uma das conquistas foi a eliminação de microplásticos das fórmulas, como microesferas de polietileno e glitter plástico, substituídos por alternativas mais seguras e sustentáveis.

“São um exemplo de desafio que conseguimos vencer”, afirma a executiva. Segundo ela, a empresa também baniu determinados silicones e vem ampliando o uso de matérias-primas de origem vegetal e alta biodegradabilidade.

O índice também se tornou um sistema de gestão de risco para o negócio, permitindo identificar ingredientes críticos e orientar decisões de substituição. Na última análise, 85% das linhas de produtos enxaguáveis já apresentavam menor impacto ambiental, enquanto 49% atendiam aos critérios de biodegradabilidade. A meta é chegar a 90% até 2030.

Além de orientar o desenvolvimento de produtos, a metodologia também passou por validação externa. Em 2025, foi verificada por uma certificadora global que atestou sua robustez técnica e alinhamento com normas e padrões internacionais.

“Temos publicações científicas sobre o Iara validadas por pares e isso também dá um endosso da comunidade científica”, reforça Juliana.

Dados e IA aceleram decisões

Nos últimos anos, a gigante de cosméticos incorporou ciência de dados e inteligência artificial para escalar a aplicação do índice ambiental. Hoje, mais de 54 mil formulações estão cadastradas nos sistemas internos, um volume que, em um modelo tradicional, exigiria cerca de 27 mil horas de análise manual ou o equivalente a 3 anos de trabalho contínuo.

A automação ocorre por meio da plataforma Lyra, que calcula em tempo real indicadores como biodegradabilidade e impacto hídrico durante o desenvolvimento dos produtos.

A tecnologia permite identificar rapidamente quais fórmulas têm maior potencial de impacto e direcionar ajustes antes mesmo da etapa final de testes.

“O setor é altamente inovador, e a gente está o tempo todo desenvolvendo novas fórmulas e revisitando as existentes”, complementou a diretora. Para ela, esse dinamismo torna a metodologia ainda mais relevante como ferramenta contínua de evolução.

Mas o esforço da companhia não se limita às fórmulas. O Grupo Boticário também vem ampliando iniciativas de circularidade de embalagens, com foco na redução de resíduos e no uso de materiais reciclados pós-consumo.

Linhas recentes já incorporam inovações como frascos feitos com polietileno reciclado (PCR) e tampas produzidas a partir de óleo de cozinha reaproveitado. Além disso, refis de perfumaria conseguem reduzir em até 89% o uso de embalagem, evitando a geração de cerca de 90 toneladas de resíduos por ano.

A estratégia de descarbonização é complementada por programas de logística reversa. O Boti Recicla, por exemplo, conta com mais de 4,5 mil pontos de coleta no país e aceita embalagens de qualquer marca.

Em 2024, o volume recolhido cresceu 85% em relação ao ano anterior, com impacto também na geração de renda para cooperativas e catadores.

Do laboratório ao consumidor

Os avanços também chegam ao consumidor final. Nas prateleiras do varejo, os produtos que atendem aos critérios da metodologia recebem selos como “Fórmula Amiga das Águas” e “Fórmula Biodegradável”, indicando desempenho ambiental superior à média.

A estratégia reflete um movimento mais amplo da companhia de integrar ciência, inovação e sustentabilidade como pilares centrais do negócio.

“Quando falamos de inovação em beleza, também estamos falando de responsabilidade ambiental”, conclui Juliana.

Com respaldo científico, a ideia é continuar buscando soluções inovadoras e expõe um desafio estrutural da indústria de cosméticos: conciliar escala com menor poluição em produtos que são, por definição, descartados na água.

À medida que a pressão por redução de emissões e transparência aumenta no setor, a sustentabilidade "entra definitivamente na fórmula".

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