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Re.green vence primeiro leilão federal de restauração florestal com créditos de carbono

Única concorrente no certame, startup brasileira vai preservar e recuperar 59 mil hectares desmatados da Floresta Nacional do Bom Futuro (RR) durante 40 anos

A startup Re.green foi anunciada como vencedora do primeiro leilão de concessão florestal voltado à restauração, realizado na B3, em São Paulo (Flickr / MMA)

A startup Re.green foi anunciada como vencedora do primeiro leilão de concessão florestal voltado à restauração, realizado na B3, em São Paulo (Flickr / MMA)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 25 de março de 2026 às 18h30.

Última atualização em 25 de março de 2026 às 19h12.

O Brasil tem 60 milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia Legal sem nenhuma destinação formal: não são unidade de conservação, terra indígena ou estão sem concessão. São áreas vulneráveis ao desmatamento, à grilagem e degradação ambiental.

É nesse contexto de urgência e de oportunidade que o governo federal estreou um modelo inovador: pela primeira vez, conceder uma floresta nacional não para extrair madeira, mas para restaurar o que foi desmatado e transformar essa recuperação em ativo econômico, via geração de créditos de carbono.

O resultado do primeiro leilão de concessão florestal voltado à restauração foi anunciado nesta quarta-feira, 25, na sede da B3, em São Paulo, e contou com a presença de autoridades como a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. 

A startup brasileira Re.green venceu o certame como única concorrente e ficará responsável por preservar e recuperar 59 mil hectares da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Porto Velho (RO) por 40 anos.

O edital, conduzido pelo BNDES e pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), abrangia no total 98 mil hectares divididos em duas unidades de manejo. O lote 1, de 39,27 mil hectares, não atraiu interessados. O investimento estimado ao longo do contrato é de R$ 86,7 milhões.

Como única participante, a startup propôs pagar ao governo 0,70% de tudo que ela faturar com a exploração da floresta.

Em coletiva de imprensa, Garo Batmanian, diretor-geral do SFB, afirmou que a baixa concorrência do leilão é menos sobre os riscos do projeto e mais sobre o ineditismo do setor.

"A regeneração é algo ainda novo e diferente. Se você for ver não há nenhuma grande empresa trabalhando nesse segmento, apenas startups", disse.

A concessão florestal não é novidade no país, mas nunca havia sido usada para restauração em escala federal. O modelo é gerido pelo Serviço Florestal Brasileiro e desde sua criação em 2006 é o instrumento pelo qual o poder público autoriza a iniciativa privada a realizar atividades florestais em áreas públicas por prazo determinado.

O diretor deixa claro: não há transferência de propriedade da terra, nem direitos sobre o subsolo, recursos hídricos, biodiversidade ou caça ou pesca, e a União permanece dona e fiscalizadora. O que muda de mãos é o direito de operar — e, agora pela primeira vez, de restaurar e comercializar créditos de carbono. 

Desde 2008, o programa administra 1,59 milhão de hectares sob esse regime, com 27 contratos vigentes. Para Garo, o fato de nenhum ter sido rescindido ou modificado ao longo de diferentes governos e sem ter registro de invasão ou conflito fundiário é uma métrica de sucesso.

"A diferença neste novo contrato é plantar em vez de manejar", resume o diretor. É essa expertise de duas décadas e a segurança jurídica que chegam agora ao que ele caracteriza como "modelo inédito".

O SFB já tem outros sete projetos em curso e, segundo o executivo esclareceu à EXAME, a área total a ser concessionada para restauração deve superar 1 milhão de hectares — apenas em florestas federais.

De vencedora do 'oscar verde' ao leilão: quem é a Re.green

Cofundada pelo empresário João Moreira Salles e com o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, no conselho, a Re.green não é uma novata no radar do mercado. Em 2025, foi campeã do Earthshot Prize, um dos prêmios ambientais mais prestigiados do mundo criado pelo Príncipe William.

O projeto foi vencedor na categoria "Proteger e Restaurar a Natureza" e concorria com o Fundo Florestas Tropicais Pra Sempre (TFFF), iniciativa do governo brasileiro encabeçada pela ministra Marina Silva e uma das grandes entregas da COP30 em Belém. 

Na Flona Bom Futuro, a empresa será responsável pelo plantio de espécies nativas da Amazônia, pela recuperação de recursos hídricos essenciais para populações próximas e por medidas de proteção contra desmatamento e degradação.

A área faz limite ao norte com a Terra Indígena Karitiana e o governo diz ter realizado uma série de consultas públicas com as comunidades locais antes de iniciar o processo.

"Mais uma vez, vamos unir ciência aplicada e viabilidade econômica para recuperar nossos ecossistemas. Estamos preparados para executar esse projeto com o rigor científico que nos coloca como referência no setor", destacou Thiago Picolo, CEO da Re.green.

As atividades de campo começam após a aprovação dos planos de restauração e proteção pela União.

O potencial bilionário da restauração

O resultado chega em um momento em que o potencial econômico da restauração começa a ser precificado e o mercado de carbono regulado se encontra em fase de implementação pelos próximos anos.

Ao mesmo tempo, o Brasil tem um passivo ambiental de proporções continentais. São mais de 177 milhões de hectares de pastagens degradadas em terras privadas espalhadas por todos os biomas, com concentração maior no Cerrado e na Amazônia Legal.

Dessas áreas, 40% ainda têm potencial produtivo, mas operam com apenas um terço da capacidade, segundo dados da Embrapa. Um estudo pioneiro já estimou que a agricultura regenerativa tem capacidade de agregar US$ 100 bilhões ao PIB brasileiro.

É nesse contexto que a ministra Marina Silva defendeu aos jornalistas uma arquitetura de políticas complementares que se somam à iniciativa do leilão: pagamentos por serviços ambientais, o Fundo de Florestas Tropicais (TFFF), o Bolsa Verde e os mapas prioritários de conservação da biodiversidade.

"Nenhum instrumento isolado chega ao nosso objetivo do desmatamento zero. Precisamos criar sinergias entre políticas diferentes", disse a ministra, à EXAME. O recado já foi dado pelo Brasil: restaurar a floresta deve ser visto como um bom negócio.

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