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Nos últimos cinco anos, o grupo ArcelorMittal investiu R$ 25 bilhões no Brasil, com aportes em capacidade produtiva, novos produtos e aquisições
Repórter de ESG
Publicado em 25 de março de 2026 às 09h00.
Última atualização em 25 de março de 2026 às 11h46.
A ArcelorMittal Brasil avançou neste mês a última peça de um quebra-cabeça de R$ 5,8 bilhões. A entrada em operação comercial do parque solar do Complexo Babilônia Centro, no município de Várzea Nova, na Bahia, concluiu o maior ciclo de investimentos em autogeração de energia renovável já realizado por uma empresa privada no Brasil.
Com 365 mil painéis fotovoltaicos e capacidade instalada de 200 MW, a nova obra custou aproximadamente R$ 700 milhões e transforma o complexo baiano em uma unidade híbrida — combinando geração eólica e solar num mesmo território.
"Estamos falando de uma redução de 200 mil toneladas de CO₂ por ano na produção de aço", afirmou Everton Negresiolo, CEO da ArcelorMittal Aços Longos para a América Latina, em entrevista exclusiva à EXAME. "E a expectativa é que 85% do consumo de energia da ArcelorMittal no Brasil passe a vir de autogeração, sendo metade disso de fontes renováveis", disse.
O pacote de R$ 5,8 bilhões está distribuído entre dois complexos. O maior deles é o Babilônia Centro, na Bahia, desenvolvido em parceria com a Casa dos Ventos numa joint-venture com gestão compartilhada tanto na construção quanto na operação.
O aporte total no complexo chegou a R$ 4,8 bilhões e a capacidade instalada soma agora 753,5 MW — sendo 550 MW eólicos, em operação desde outubro de 2025, e 200 MW solares, que iniciaram a geração comercial neste mês.
O segundo ativo é o Parque Solar ArcelorMittal Energia Paracatu, localizado na cidade de Paracatu, em Minas Gerais. Com capacidade instalada de 260 MW e investimento da ordem de R$ 895 milhões, o parque mineiro opera no modelo BOT (build, operate, transfer) pela Atlas Renewable Energy e pertence integralmente à ArcelorMittal.
Juntos, os dois complexos entregam 1 GW de nova capacidade instalada à empresa. Isso representa o abastecimento de cerca de 500 mil a 600 mil residências no Brasil.
A decisão de incluir geração solar dentro do Complexo Babilônia Centro foi estratégica. Ao aproveitar a infraestrutura já instalada para o parque eólico — subestação, linhas de transmissão e conexão com o sistema elétrico —, ArcelorMittal e Casa dos Ventos reduziram o capital incremental necessário e eliminaram a ociosidade na produção, já que solar e eólica se complementam ao longo do dia e das estações do ano.
Everton Negresiolo, CEO da ArcelorMittal Aços Longos e Mineração no Brasil: "Estamos falando de uma redução de 200 mil toneladas de CO₂ por ano na produção de aço" (Douglas Magno/NITRO)
Negresiolo é enfático ao descrever o projeto dentro da atuação sustentável. "É um grande exemplo do que deveria ser o ESG, porque é um investimento que gera impacto nos três eixos", disse o executivo.
No eixo ambiental, a redução de emissões se soma a um histórico já diferenciado. Hoje, 54% da produção de aço da ArcelorMittal Brasil utiliza a rota de reciclagem a partir de sucata — o que já coloca a empresa abaixo da média global de emissões na produção. Enquanto a média do setor gira em torno de 2,2 toneladas de CO₂ por tonelada de aço bruto produzida, a ArcelorMittal opera com 1,7 tonelada.
A empresa também produz aço a partir de ferro-gusa (produto intermediário da indústria siderúrgica) com carvão vegetal proveniente de florestas de eucalipto — em especial em sua usina de Juiz de Fora —, outra rota de baixa emissão. Com a expansão da autogeração renovável, a tendência é que esse índice caia ainda mais.
No eixo social, os parques foram instalados em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, e sua implantação gerou milhares de empregos diretos na fase de construção. No Complexo Babilônia Centro, ainda foram desenvolvidos projetos voltados ao agronegócio com associações e cooperativas locais, além de cursos específicos para mulheres.
Na governança, o modelo de joint venture com a Casa dos Ventos reflete uma escolha deliberada por parceiros de referência. "O nosso core business é aço, não geração solar e eólica", reconheceu o CEO.
"A Casa dos Ventos é líder em renováveis, pioneira na energia eólica no Brasil e reconhecida internacionalmente. Fazer o maior contrato de energia renovável entre privados da história do país só poderia ser conduzido por dois gigantes", afirma.
A ArcelorMittal figura entre as cinco maiores consumidoras de energia elétrica do Brasil. Para uma indústria eletrointensiva, o custo energético é um insumo crítico na composição de custos.
A autogeração, portanto, não é apenas um posicionamento ambiental para a companhia, mas também uma alavanca de competitividade.
"A autogeração traz redução do custo de energia", explicou Negresiolo. "E o momento atual e o conflito no Oriente Médio mostram isso: a segurança energética, tanto para o país quanto para as empresas produtoras, é cada vez mais relevante."
O executivo fez questão de ampliar a perspectiva: ao reduzir sua dependência do sistema elétrico nacional, a ArcelorMittal libera capacidade para indústrias e consumidores em geral. "Falamos em capacidade instalada para abastecer cidades com milhões de habitantes. Isso é extremamente positivo", explica o diretor.
Cerca de 90% da energia gerada nos dois complexos será direcionada às próprias operações industriais da empresa. Os 10% restantes serão vendidos no mercado nacional — resultado de contratos de energia de longo prazo firmados antes da conclusão dos investimentos em autogeração, que criaram um excedente temporário no balanço energético da companhia.
O ciclo de R$ 5,8 bilhões em energia integra um plano estratégico mais amplo. Nos últimos cinco anos, o grupo investiu R$ 25 bilhões no Brasil, com aportes em capacidade produtiva, novos produtos e aquisições.
Quanto a novos investimentos em energia, Negresiolo é cauteloso. "Já atingimos 85% do nosso consumo com autogeração. Novos projetos em energia dependem de fatores além da autogeração, e neste momento não há nada previsto", conta.
A ressalva, contudo, vem acompanhada de um alerta ao setor: o curtailment — a necessidade de cortar a geração renovável por limitações de transmissão ou excesso de oferta na rede — cria incertezas econômicas que dificultam a viabilidade de novos projetos. "É uma questão que precisa ser resolvida para que o Brasil continue atraindo investimentos em renováveis", disse o executivo.
No mercado de aço, o cenário também exige atenção. A importação de aço chinês a preços abaixo do custo de produção local pressiona a rentabilidade do setor e ameaça a viabilidade de novos investimentos industriais no país, criando um cenário de competição desigual.