Presença feminina nos conselhos cresce, mas igualdade ainda está a vinte anos de distância

De acordo com relatório da Teva Índices, país está a duas décadas de alcançar igualdade de gênero em conselhos; veja ranking com as 10 empresas mais diversas
Flavia Bittencourt, CEO da Adidas: executiva é também conselheira da TIM Brasil, uma das 10 empresas com maior igualdade de gênero, segundo a Teva índices (Leandro Fonseca/Exame)
Flavia Bittencourt, CEO da Adidas: executiva é também conselheira da TIM Brasil, uma das 10 empresas com maior igualdade de gênero, segundo a Teva índices (Leandro Fonseca/Exame)
Por Maria Clara DiasPublicado em 09/03/2021 08:00 | Última atualização em 09/03/2021 13:23Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Quase metade das empresas listadas na B3, bolsa de valores brasileira, não têm nenhuma mulher no conselho de administração. Se a barra subir para duas ou mais mulheres, o número de empresas sem representação feminina é de 81%. As conclusões são do levantamento “ESG Mulheres na Liderança”, da Teva Índices.

Das 283 empresas analisadas pelo estudo, 43,5%, ou 123, não têm nenhuma mulher no conselho de administração. Foram consideradas para o estudo apenas as empresas que enviaram relatórios de governança nos últimos 24 meses e com capitalização de mercado igual ou superior a 300 milhões de reais.

A representatividade feminina em conselhos cresceu cerca de 1,8% nos últimos três anos. No entanto, a lentidão no avanço do tema deixa a igualdade de gênero distante de ser uma realidade no Brasil. De acordo com o relatório, se mantiver o ritmo atual, o país levará duas décadas para que todas as empresas tenham a distribuição igual entre homens e mulheres na liderança.

Uma jornada igualitária no varejo

De acordo com o estudo, as empresas brasileiras de capital aberto que possuem a maior representatividade feminina nos conselhos são, nesta ordem: Banco BMG, Magazine Luiza, Mills, Santander, Copel, Pague Menos, TIM, TOTVS, Porto Seguro e Petz. O ranking tem como referência o terceiro trimestre de 2020.

Segunda melhor colocada na classificação, o Magazine Luiza tem três integrantes femininas em seu conselho administrativo de sete pessoas: Luiza Helena Trajano, Betânia Tanure, e Inês Corrêa de Souza, especialista em finanças e ex-diretora financeira da Vale.

A empresa tem metas ambiciosas quando se fala em equidade de gênero. O panorama atual é de 15% da diretoria composta por mulheres. A maior porcentagem feminina, porém, está entre os trainees e na linha de produção: 50% e 46,9%, respectivamente. Parte do mérito se deve aos programas com foco em diversidade da empresa que recrutam estudantes recém-formados.

Para a empresa, a pluralidade no conselho é primordial para obter um “olhar completo da companhia e do mercado e mais sofisticada governança corporativa”, pois a diversidade é determinante na hora de “estabelecer as diretrizes do negócio, eleger os membros da diretoria executiva, definir suas atribuições e fiscalizar seu desempenho”, afirmou a Magalu em seu relatório anual.

"O que todas as pesquisas mostram, nossa experiência revela, é que a diversidade nas suas mais diferentes perspectivas, contribui de maneira significativa para a performance das organizações, especialmente quando se fala em processos de inovação, tão fundamentais nesse mundo atual", afirma Betânia Tanure, conselheira do Magalu. "O Conselho do Magalu e contando com todo seu propósito, seus valores e o desempenho da organização pode ser uma inspiração para outras empresas", diz.

Outro exemplo de diversidade de gênero no alto escalão está no setor de telecomunicações. A TIM está entre as dez empresas listadas pelo ranking da Teva Índices com o maior percentual de mulheres no conselho de administração. Na companhia as mulheres têm 30% dos assentos. Um deles é ocupado por Flavia Bittencourt, conselheira de administração.

Bittencourt é também conselheira na empresa do setor de alimentação BRF e tem passagem pela Marisa. Ela conta que as três companhias não tinham mulheres na liderança até pouco tempo atrás, mas isso vem sendo transformado nos últimos anos. "A direção agora é muito clara: ao procurar novos profissionais, empresas estão olhando para competências e chamando mulheres para participarem dos processos de seleção como um esforço de poder também ouvi-las mais”, diz.

A executiva é também presidente da Adidas no Brasil. Na marca de artigos esportivos, a discussão de diversidade se desdobrou em programas de capacitação de mulheres que desejam ocupar cargos de liderança. Preparar mulheres e deixá-las “prontas para a cadeira” é uma ação inerente a empresas que desejam ser mais diversas, segundo a conselheira. A empresa tem hoje 35% das posições de liderança ocupadas por mulheres globalmente. No Brasil, a média é de 44%.

Já a TIM tem uma diretoria de diversidade responsável por fomentar projetos da base até o alto escalão. Na empresa, há o consenso entre a liderança feminina de que há um trabalho de base a ser feito. A diretora de tecnologia da TIM, Auana Mattar, garante que “ser diversa faz parte do DNA da empresa".

O grande desafio, segundo Mattar, é conseguir elevar o discurso para atrair talentos. “A formação de líderes femininas vem desde a educação. Nosso desafio será fazer com que nosso discurso atraia essas pessoas e elas cheguem até a TIM”. A TIM tem como meta aumentar para 35% o número de mulheres em cargos de chefia na companhia até 2023.

A meta é ambiciosa e exigirá um esforço extra das empresas. “A barra está e sempre esteve mais acima para as mulheres. Mas o que está em jogo vai depender das companhias serem capazes de ceder, filtrar com excelência e saber ter diferentes vozes nos conselhos”, diz Bittencourt.

 

Auana Mattar,CIO da TIM Brasil

Auana Mattar, CIO da TIM Brasil (TIM/Divulgação)

A busca por uma participação feminina cada vez maior nos conselhos é um caminho sem volta, segundo Bittencourt. "Empresas buscam por diferentes pontos de vista para questões estratégicas e por pessoas que se preocupem também com pessoas, e não apenas por números - e esse é um valor muito comum às mulheres”, diz.

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