Postura do Flamengo mostra como futebol brasileiro está atrasado

Especialista afirma que os clubes estão desalinhados com o que há de mais moderno na gestão corporativa

Campeão brasileiro e da Libertadores e dono da maior torcida do Brasil, o Flamengo domina o noticiário nos últimos dias por episódios menos abonadores. O clube que mais pressionou pela volta do futebol nas primeiras semanas da pandemia do novo coronavírus se vê agora às voltas com um surto em seu elenco — e com uma crise de imagem.

Mais de vinte jogadores e funcionários voltaram de uma viagem ao Equador contaminados, o que colocou em dúvida a realização de um jogo com o Palmeiras afinal realizado neste domingo pelo Campeonato Brasileiro. A partida, que terminou empatada, recebeu uma enxurrada de críticas nas redes sociais.

Antes disso, durante o voo de volta do Equador, uma foto do elenco, sem máscaras, gerou críticas nas redes sociais. O presidente do clube, Rodolfo Landim, primeiro afirmou que ele mesmo tira a máscara para tirar foto enquanto “prende a respiração”. Depois, demitiu o funcionário que tirou a foto.

Landim é ex-executivo da indústria do petróleo e faz parte do grupo de dirigentes que tirou o Flamengo da lona financeira. Com práticas de boa gestão corporativa, derrubaram a dívida do clube e transformaram o Flamengo no primeiro time com receitas bilionárias no futebol brasileiro. De quebra, ganharam todos os títulos possíveis dentro de campo.

O problema, segundo Amir Somoggi, sócio da consultoria esportiva SportsValue, é que os episódios recentes mostram que o clube com a gestão mais azeitada do Brasil está desconectado do mundo. “O futebol brasileiro está desalinhado com o que de mais moderno acontece no mundo corporativo. Um clube europeu ou uma franquia americana já perceberam que não dá mais para apenas ter equilíbrio financeiro. É preciso ter responsabilidade corporativa, olhar para os objetivos sustentáveis da ONU. Ajudar o próximo, ser respeitoso com o adversário. E não pressionar a sociedade para o lado errado”, afirma.

Amir defende que os clubes adotem o que um grupo crescente de empresas vêm abrançando, as práticas ESG (ambiental, social e governança, em inglês). É uma forma de ver o negócio para além do lucro, mirando o impacto na sociedade.

“O que acontece hoje é que os clubes brasileiros estão orientados para o que há de mais arcaico. Nos últimos seis, sete meses não fizeram transformação digital, nem produziram novos conteúdos na mídia. Só o que queriam era a volta do futebol, e agora querem a volta do público aos estádios”, diz.
“Como vamos retomar a volta do público aos estádios com essa taxa de mortos pela pandemia que o Brasil ainda tem? Na Alemanha e na Polônia, onde o público começou a voltar, a taxa de mortes é muito menor do que no Brasil. O futebol brasileiro não liga para as boas práticas”.

A postura do Flamengo, segundo o consultor, denota ainda um outro grande problema do futebol nacional. Falta aos clubes uma organização coletiva para valorizar o campeonato, como nas grandes ligas americanas. Por aqui, clubes de maior torcida pressionam por contratos melhores na televisão e deixam os outros à deriva, enfraquecendo a competição.

“O futebol não merece nenhuma benesse, achar que pode fazer o que bem entende, com respaldo dos torcedores, que têm para o futebol uma régua diferente da que muitas vezes usam para outras frentes”, diz. “O jovem hoje está afastado dos clubes, assim como os patrocinadores. O consumidor é cada vez mais exigente e não vai mais aceitar esse tipo de postura dos clubes, a falta de visão social e ambiental”.

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