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Paulo Artaxo, cientista brasileiro: "Nós estamos indo na direção certa, só não ainda na velocidade que seria necessária" (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 13h00.
Última atualização em 20 de janeiro de 2026 às 15h01.
A frustração com as negociações climáticas globais levou o Brasil a adotar uma estratégia paralela inovadora rumo à COP31 na Turquia: buscar soluções fora do arcabouço formal da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). A avaliação é do cientista Paulo Artaxo, integrante do conselho científico que assessora a presidência da COP30.
“O sistema foi feito para não funcionar. E, desse ponto de vista, ele é ultra eficiente — de fato, não funciona”, afirmou Artaxo em entrevista à EXAME.
A COP30 em Belém escancarou uma unanimidade: o consenso entre 196 países inviabiliza avanços concretos que respondam à altura do desafio climático. "Não é algo exclusivo do Brasil, isso não funcionou em nenhuma das 30 COPs do clima", lembrou o cientista.
Na prática, o acordo final da COP30 deixou de fora do texto dois dos temas mais urgentes: o fim gradual dos combustíveis fósseis e o combate ao desmatamento.
Ambos foram direcionados para uma "agenda de ação" fora do processo formal da ONU, um esforço prioritário da presidência brasileira da COP que se estende até passar o bastão ao próximo país anfitrião em novembro. Logo, 2026 é o ano em que o trabalho se intensifica.
"Dentro dos mecanismos que existem hoje não há solução", avaliou Artaxo, ao defender que a única saída é o arcabouço de cooperação internacional.
O desafio, portanto, é como construir processo fora das amarras do consenso universal que paralisa as negociações e em meio a uma crise persistente do multilateralismo agravada pelas ações de Trump, Rússia e China.
Esse movimento ocorre em um momento particularmente delicado da política internacional. Na América Latina, o quadro é particularmente preocupante. "Você tem Chile e Argentina na mão da extrema-direita, Trump derrubando o governo da Venezuela. Isso tudo faz com que o mundo perca força na agenda climática", analisou Artaxo.
Para ele, 2026 será difícil porque as questões geopolíticas globais só vão se agravar. Ao olhar para o ano que se inicia, o cientista o caracterizou como uma crescente "tensão entre os combustíveis fósseis e a pressão popular para que algo seja feito em relação às mudanças climáticas".
"Nós estamos indo na direção certa, só não ainda na velocidade que seria necessária", ponderou.
Neste cenário, o Brasil se apresenta como potência verde enquanto enfrenta um gigante paradoxo: a liberação para exploração de petróleo na margem equatorial. "Contradições são inerentes no sistema democrático", reforçou o especialista.
Sua visão otimista também se baseia na indústria, que segundo ele, está cada vez mais ouvindo os alertas da ciência e partindo para a ação. É o caso das seguradoras, impactadas pelo aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos.
Outros setores como o energético, por exemplo, está reavaliando a dependência excessiva do Brasil em relação às hidrelétricas, dada a crescente instabilidade das precipitações no país, e outras empresas começam a entender que a inação climática representa enormes prejuízos financeiros.
A nova estratégia brasileira aposta na conferência sobre combustíveis fósseis marcada para 26 e 27 de abril na Colômbia, na cidade de Santa Marta. A reunião tem como missão avançar em ações concretas sem esperar pelo consenso global ao reunir os mais de 80 países frustrados com o fracasso em incluir um roteiro pelo fim dos fósseis já em Belém.
Segundo o cientista, a presidência brasileira está fazendo o que pode dentro das circunstâncias atuais, e os preparativos já começaram a todo vapor em 2026.
A agenda de ação brasileira se estrutura em três frentes principais: [grifar]financiamento climático, combate ao desmatamento e fim dos combustíveis fósseis. Para cada uma dessas agendas, a presidência brasileira da COP está montando comitês científicos específicos.
Artaxo, que continuará no comitê científico maior e mais amplo, explica que subcomitês estão sendo criados para tratar de cada tema. Um deles focará especificamente na transição energética.
"A questão mais complexa é a do financiamento climático", ponderou ele, ao citar a resistência histórica dos países ricos em disponibilizar recursos para nações em desenvolvimento mais vulneráveis lidarem com os efeitos mais severos da crise do clima.
O cientista também alerta que o foco não pode se restringir apenas aos combustíveis fósseis e que o Brasil, a exemplo, tem como peça-chave acabar com o desmatamento para cumprir sua meta climática de reduzir em 67% as emissões até 2035.
"Além disso, precisamos acompanhar a evolução da trajetória na África e no sudeste da Ásia. Isso representa 12% das emissões anuais globais", destacou. Além de ser uma alavanca da descarbonização, a agenda traz benefícios colaterais como a preservação da biodiversidade e a redução da poluição do ar.
As perspectivas para a COP31, marcada para novembro na cidade turca de Antália, ainda são incertas. Artaxo avalia que somente em março ou abril será possível ter uma ideia mais clara do que esperar da grande conferência climática, especialmente após a reunião da Colômbia.
Um fator complicador é a própria estrutura de coordenação da COP31 dividida entre o país-sede (Turquia) e a presidência da Austrália, um dos maiores exportadores de carvão do mundo e ao mesmo tempo lugar fértil para implementação de projetos de energia solar e eólica.
Para o cientista, há incertezas e tensões em jogo relacionadas ao protagonismo e condução das negociações.
"Será um ano de fortes emoções", prevê Artaxo. Primeiro na Colômbia, depois na COP31, a aposta brasileira em romper a inércia do sistema multilateral será colocada à prova.