Natura cresce portfólio vegano e chega a 90% dos produtos

A cera de abelha, por exemplo, já não é empregada em novas formulações, mas é o último componente não-vegano que ainda integra o portfólio da Natura; entenda o processo de inovação da marca de cosméticos
 (Divulgação/Natura/ Guilherme Missumi)
(Divulgação/Natura/ Guilherme Missumi)
Por Marina FilippePublicado em 30/11/2021 07:00 | Última atualização em 30/11/2021 10:22Tempo de Leitura: 6 min de leitura

A fabricante de cosméticos Natura alcançou a marca de 90% de produtos veganos em todo seu portfólio, um aumento de seis pontos percentuais em comparação com 2020.

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O resultado ocorre após um processo de revisão, conduzido ao longo do último ano, que abrangeu por completo a cadeia de fornecimento da empresa para garantir a não-utilização de ingredientes de origem animal no fornecimento ou no processo de obtenção das matérias-primas.

Para isto, toda a rede de parceiros da empresa foi mobilizada para buscar ingredientes que pudessem cumprir com todos os requisitos para serem considerados veganos.

"Esse movimento foi muito positivo e engajador porque estimulou todos os nossos parceiros a aprimorar seus próprios processos e cadeias, assegurando a não-utilização de nenhum ingrediente não-vegano", diz Roseli Mello, líder global de pesquisa e desenvolvimento da Natura.

A cera de abelha, por exemplo, já não é empregada em novas formulações, mas é o último componente não-vegano que ainda integra o portfólio da marca em alguns itens como batons e máscaras de cílios, por exemplo.

"Temos um pipeline previsto para substituir completamente a cera de abelha em todos os nossos produtos nos próximos anos. É um compromisso já assumido, que exige um trabalho de inovação e de pesquisa em todo o mundo para encontrar os ingredientes ideais que apresentem as mesmas propriedades estruturantes de forma a manter a qualidade", diz Mello.

Inovações 

O movimento ocorre em um processo mais acelerado de inovações, conforme aponta o índice que mede a participação da venda de produtos lançados versus os produtos vigentes do portfólio, e chegou a 67,1% em 2020, o mais alto desde 2015. Somente no ano passado, a marca depositou 38 novas patentes no mercado e lançou mais de 200 produtos no Brasil.

Por conta disto, a Natura saltou de 84% do portfólio composto por produtos veganos em agosto, para 90% em novembro. A aceleração se dá também pela inauguração do mais moderno parque tecnológico da Natura da América Latina, em março do ano passado, em Cajamar, no interior de São Paulo.

"Assim há a melhor infraestrutura de dados, uso de inteligência artificial e mais. Além disto, foram intensificadas as práticas de gestão focadas em metodologias ágeis", diz Mello.

Metodologias alternativas inéditas

Um dos atributos relevantes para a definição de vegano é a não realização de testes em animais. Nesse sentido, o avanço no índice de produtos veganos do portfólio da Natura vem acompanhado pelo desenvolvimento de metodologias substitutivas a testes em animais, algumas inéditas no Brasil.

Sendo que, a Natura não testa em animais desde 2006 e conta com a certificação do Programa Leaping Bunny, da Cruelty Free International, e da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). Além disso, toda a cadeia produtiva é certificada com verificação por partes terceiras independentes, como a Union for Ethical BioTrade (UEBT).

"Matérias-primas e ingredientes cosméticos já consagrados no mercado possuem uma bibliografia abundante de dados e histórico de uso. Mas, quando avaliamos ativos como a Ucuuba ou o Tucumã, por exemplo, que são manteigas e óleos para as quais não há literatura disponível, precisamos adaptar ou até mesmo criar metodologias em laboratório que, futuramente, poderão ser difundidas internacionalmente", diz Kelen Fabiola Arroteia, gerente científica de segurança humana e métodos alternativos e responsável pela plataforma de testes in vitro e in silico da Natura.

Para cada matéria-prima, são usadas atualmente cerca de 14 metodologias in vitro diferentes em uma única bateria de avaliação de segurança. Hoje, o processo para cada novo ingrediente tem uma duração média de até oito meses -- antes os processos eram de até dois anos.

Um dos modelos de avaliação de segurança mais disruptivos adaptados pela Natura se chama human-on-a-chip, no qual são combinados miniórgãos biofabricados em laboratório e que mimetizam tecidos de órgãos humanos, criando um sistema microfisiológico que reproduz o funcionamento do organismo.

O sistema miniaturizado é ativado por um fluxo de líquidos e soluções entre os miniórgãos que imita a circulação sanguínea e permite aos cientistas avaliar o efeito de um novo produto ou matéria-prima.

A novidade desenvolvida pela equipe de P&D da Natura é a adaptação desse modelo para avaliar a toxicidade sistêmica de um ingrediente cosmético - as cientistas conseguem avaliar seus efeitos tanto dentro do corpo (órgãos) quanto fora (pele) ao mesmo tempo.

Outra metodologia é o cultivo de folículos de cabelo em laboratório, que permite alcançar uma resposta dos efeitos e benefícios de novos ingredientes muito próxima daquela obtida em testes em voluntários. "Testamos os ingredientes ativos dos produtos no cabelo e no couro cabeludo, com foco em crescimento dos fios. Futuramente, queremos expandir para outras aplicações, como oleosidade e queda de cabelo", afirma Carla Scavanez, gerente científica responsável pela aplicação do modelo.

Também como parte do esforço para ampliar os modelos substitutivos, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a Natura trouxe para seus laboratórios a tecnologia de impressão 3D de tecidos, chamada de bioimpressora, inaugurando uma plataforma própria com a qual produz modelos de peles com maior complexidade estrutural em condições mais padronizadas.

"São vários métodos que coexistem e se combinam para termos uma resposta em relação à eficácia e segurança. E agora fazemos isso em maior volume e em menos tempo com a adoção de metodologias computacionais", acrescenta Kelen, em referência à equipe que aplica modelos preditivos há mais de uma década na Natura e que, desde o ano passado, se consolida em uma nova área.

Chamada Biodata Lab, a área reúne especialistas em ciência computacional, big data, machine learning e inteligência artificial para ampliar a capacidade de testes alternativos da empresa em ativos da sociobiodiversidade brasileira, hoje executados em larga escala com o auxílio de uma plataforma baseada em computação na nuvem.

A área detém ainda metodologias próprias para acelerar a inovação, reduzindo custos e tempo de testagem. A composição química de algumas matérias-primas é tão complexa que pode chegar a ter mais de cem compostos. Através da identificação da assinatura molecular de cada uma no computador, a Natura consegue predizer potenciais mecanismos, benefícios ou aspectos de segurança que esse ativo poderia induzir, reduzindo a necessidade de testes em laboratório.