ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Na luta contra o metano, lixo orgânico vira alvo de startup: 'Criamos indústria do zero', diz CEO

Carrot amplia rede de compostagem e aposta em transformar resíduos orgânicos em créditos ambientais, um mercado que pode chegar a US$ 1 trilhão na próxima década

Ian McKee, presidente e cofundador da Carrot: “A biomassa é provavelmente a maior oportunidade climática da década"  (Divulgação)

Ian McKee, presidente e cofundador da Carrot: “A biomassa é provavelmente a maior oportunidade climática da década" (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 10 de março de 2026 às 13h00.

Última atualização em 10 de março de 2026 às 18h55.

Resolver o problema do lixo orgânico pode ser uma das formas mais rápidas de combater as mudanças climáticas e uma startup quer transformar essa ideia em um novo mercado ambiental.

“Estamos criando uma indústria do zero”, diz Ian McKee, fundador da Carrot, em entrevista à EXAME.

A climatech suíça fundada por dois brasileiros aposta em uma solução que conecta toda a cadeia de reciclagem de resíduos orgânicos para gerar créditos ambientais ligados à redução das emissões de metano.

Antes, o empreendedor conta que já atuava em projetos verdes e liderou o desenvolvimento do primeiro estádio com certificação LEED para edifícios sustentáveis, criou uma rede global de bares e restaurantes lixo zero e participou da implementação de programas de certificação ambiental da Copa do Mundo no Brasil em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016.

Foi nesse período que veio a virada de chave. Ao lidar com grandes volumes de resíduos orgânicos em eventos e estabelecimentos de alimentação, o brasileiro percebeu que o principal problema da reciclagem não era tecnológico e sim econômico.

Há cerca de três anos, a empresa criou uma plataforma baseada em blockchain que rastreia o processo de compostagem e remunera de forma justa todos os participantes da cadeia.

O foco? grandes geradores de "lixo", como restaurantes, redes de supermercado, indústrias alimentícias, com atuação não exclusiva no Brasil.

Em 2026, o negócio prepara uma expansão da rede e pretende ampliar significativamente sua capacidade de processamento nos próximos meses.

Hoje, são quatro parques de reciclagem responsáveis por reduzir mais de 30 mil toneladas de CO₂ equivalente e gerar mais de 1600 empregos diretos e indiretos. 

Quando estiverem operacionais, a rede terá capacidade para processar cerca de 35.150 toneladas de resíduos por mês e mitigar 200 mil toneladas de metano equivalente por ano.

A estimativa é que cada tonelada de orgânico reciclado pode gerar entre 0,4 e 1,7 toneladas de CO₂ equivalente evitadas na atmosfera, dependendo do tipo de resíduo e do aterro de referência.

Para ser bem-sucedida, a tecnologia rastreia cada etapa do processo e valida que o material foi efetivamente processado.

A partir desses dados, a Carrot consegue gerar dois ativos: o primeiro são créditos de carbono, ligados à redução das emissões de metano que ocorreriam se o resíduo fosse enviado para aterros e o outro são os créditos de circularidade, que representam o volume de biomassa efetivamente reciclado.

A expansão ocorre após a startup realizar, no final do ano passado, a primeira venda de créditos ambientais gerados a partir da reciclagem de biomassa.

“Hoje existe uma falha de mercado: é mais barato enterrar lixo em aterros do que reciclar", explica Ian ao reforçar que enquanto hoje o mercado de carbono está focado em florestas e conservação, metade do problema climático está fora disso.

Para o CEO, há um potencial econômico pouco explorado da economia circular: de U$ 500 bilhões a U$ 1 trilhão dentro de 10 a 15 anos.

“A biomassa é provavelmente a maior oportunidade climática da década", ressalta.

O vilão invisível do clima

A aposta da empresa está diretamente ligada a um dos gases mais perigosos para o planeta: o metano.

Embora menos conhecido que o dióxido de carbono (CO₂), este gás tem impacto climático muito mais intenso no curto prazo e é responsável por cerca de 30% do aquecimento global atual.

Estima-se que o metano seja até 86 vezes mais potente que o CO₂ no curto prazo. Resíduos orgânicos respondem por cerca de 25% das emissões globais de metano, segundo relatório global.

“Se a gente parar de emitir metano agora, conseguimos frear o aquecimento global muito rapidamente", garante Ian.

O foco em superpoluentes como o metano também começa a ganhar espaço entre grandes empresas globais. Na semana passada, Google, Amazon e outras bigtechs anunciaram a criação da Superpollutant Action Initiative, uma coalizão voltada a financiar projetos capazes de eliminar esses gases da atmosfera.

Uma das principais fontes desse gás são justamente os aterros sanitários, onde resíduos orgânicos se decompõem sem oxigênio e liberam grandes quantidades de metano na atmosfera.

Hoje, a maior parte do lixo orgânico no mundo ainda segue esse destino: menos de 2% da biomassa do mundo é tratada biologicamente de forma correta.

No Brasil, cerca de 61% dos resíduos sólidos urbanos coletados ainda são enviados para aterros sanitários, o equivalente a mais de 40 milhões de toneladas por ano.

Estudos mostram o impacto dessa escolha. Em um cenário comparativo, duas toneladas de resíduos orgânicos enviadas para aterros sem captura de gás podem gerar cerca de 2,45 toneladas de CO₂ equivalente ao longo de 20 anos. Já a compostagem gera aproximadamente 0,22 toneladas no mesmo período — mais de dez vezes menos emissões.

A falha do mercado

Segundo o CEO, parte do problema é econômica. No modelo atual de gestão de resíduos, muitas vezes é simplesmente mais barato enviar lixo para aterros do que reciclá-lo.

Ele cita o exemplo de restaurantes, que frequentemente geram grandes volumes de orgânicos. Enquanto enviar esse material para o aterro pode custar cerca de 190 reais por tonelada, a compostagem pode chegar a 400 reais por tonelada.

A proposta da Carrot é justamente mudar essa realidade usando os créditos ambientais.

“A única forma que a gente encontrou de baratear e ganhar escala foi valorizar a reciclagem através do mercado de carbono", destaca Ian.

O Brasil ainda tem um longo caminho pela frente nessa área. De acordo com estimativas da Carrot, cerca de 99% dos resíduos orgânicos nacionais ainda acabam em lixões. Além disso, o número de pátios de compostagem ainda é pequeno para um país continental.

Para o fundador, isso mostra o tamanho da oportunidade. Se o modelo da startup ganhar escala, a ideia é que o sistema funcione como uma infraestrutura digital capaz de conectar e financiar toda a cadeia da reciclagem de biomassa.

“A gente não faz projetos isolados. Criamos a infraestrutura para que esse mercado exista", conclui o CEO.

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeMudanças climáticasClimaEmissões de CO2ReciclagemEconomia Circular

Mais de ESG

Em meio à crise do petróleo, países da Pan-Amazônia ignoram conferência de Santa Marta

Temperatura dos oceanos fica perto de recorde e indica volta do El Niño

Rumo à Turquia: “COP do Futuro” estreia sem metas concretas em carta inaugural da COP31

Vendas de carros elétricos crescem, mesmo com atrasos em infraestrutura