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Mercado livre de energia pode cortar 9,3 milhões de toneladas de CO2 por ano no Brasil, diz MIT

Estudo revela que expansão do modelo para residências e pequenos negócios, prevista para 2028, pode acelerar a descarbonização e reduzir desperdício de energia limpa

O avanço das renováveis expõe um novo desafio: alinhar oferta variável com consumo em tempo real (Jacobs Stock Photography Ltd/Getty Images)

O avanço das renováveis expõe um novo desafio: alinhar oferta variável com consumo em tempo real (Jacobs Stock Photography Ltd/Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 28 de março de 2026 às 14h00.

A expansão do mercado livre de energia para consumidores residenciais e pequenos comércios pode se tornar um dos principais vetores de descarbonização do Brasil.

É o que revela um estudo recente apresentado pelo MIT: a medida tem potencial para evitar a emissão de 9,3 milhões de toneladas de CO2 por ano, volume equivalente à retirada de mais de 2 milhões de carros a gasolina das ruas ou ao sequestro de carbono realizado por 65 milhões de árvores ao longo de uma década. 

A análise considerou um consumo anual de cerca de 320 TWh e mostra que se trata menos de uma mudança regulatória e mais de uma "transformação no comportamento de consumo energético no país".

O chamado mercado livre de energia é um modelo em que consumidores podem escolher de quem comprar eletricidade, negociando diretamente com geradores ou comercializadoras, muitas vezes com foco em fontes renováveis e preços mais competitivos.

Hoje, esse sistema ainda é restrito principalmente a grandes empresas. Já residências e pequenos negócios permanecem no chamado mercado cativo, no qual a energia é fornecida pela distribuidora local, sem possibilidade de escolha.

A chamada abertura total do mercado, prevista para 2028, deve mudar esse cenário. Com a inclusão da baixa tensão, milhões de consumidores poderão migrar para o mercado livre.

Na prática, isso permite escolher fornecedores de energia, contratar fontes renováveis, reduzir custos e gerenciar melhor o consumo, destaca a análise.

Além do impacto econômico, a mudança também tem efeito ambiental direto, ao ampliar o acesso à energia limpa.

Avanço já começou entre pequenas e médias empresas

A abertura não é apenas uma projeção. Desde janeiro de 2024, consumidores de média tensão já podem migrar para o mercado livre e os resultados já são expressivos.

Dados da Abraceel e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) mostram que o número de consumidores no modelo saltou de 38 mil em 2023 para mais de 90 mil em 2025.

Só em 2025, cerca de 30 mil novos consumidores — em sua maioria pequenas e médias empresas — aderiram ao sistema, evitando aproximadamente 240 mil toneladas de CO2 por ano, com base no fator de emissão do Sistema Interligado Nacional.

Na prática, empresas já relatam ganhos relevantes. Um exemplo é o da Digital PrintZ, que reduziu em quase 30% os custos com energia e deixou de emitir cerca de 37 toneladas de CO2 em um ano após migrar para fontes renováveis.

“Casos como esse mostram que a transformação não é teórica. Ela já está acontecendo, com impacto direto no caixa das empresas e na redução da pegada de carbono”, afirma Alan Henn, CEO da Voltera.

Energia limpa desperdiçada pode ganhar destino

O estudo também aponta que a expansão do mercado livre pode ajudar a resolver um dos principais gargalos do setor elétrico: o curtailment, quando usinas eólicas e solares precisam interromper a geração por excesso de oferta.

Nos últimos anos, o Brasil registrou recordes desse fenômeno, evidenciando um paradoxo em curso: há energia renovável disponível, mas falta demanda no momento certo.

A entrada de milhões de novos consumidores no mercado livre pode funcionar como um “absorvedor” dessa energia excedente, dizem especialistas.

“A abertura da baixa tensão é o catalisador que faltava para resolver a intermitência. Não nos falta recursos naturais; nos falta demanda qualificada e sinais de preço”, afirma Hudson Mendonça, VP de Energia da MIT Technology Review Brasil.

Segundo o executivo, o avanço incentiva uma gestão mais ativa do consumo, alinhando uso de energia com momentos de maior geração solar e eólica.

Outra frente complementar é o avanço dos sistemas de armazenamento, como baterias, que permitem guardar o excedente gerado em períodos de alta produção para uso posterior.

A tecnologia reduz desperdícios, aumenta a flexibilidade do sistema e ajuda a lidar com a variabilidade das fontes renováveis, e aguarda por um leilão pioneiro previsto para acontecer em junho. 

Estados com maior potencial de descarbonização

O levantamento também mapeou o impacto potencial por estado. São Paulo lidera o ranking, com possibilidade de evitar 2,35 milhões de toneladas de CO2 por ano, seguido por: Minas Gerais (756 mil toneladas), Rio de Janeiro (672 mil toneladas), Paraná (504 mil toneladas) e Rio Grande do Sul (462 mil toneladas).

O Rio de Janeiro se destaca pelo impacto por residência, cerca de 25% acima da média nacional, impulsionado pelo alto consumo com climatização.

Se confirmadas as projeções, a partir de 2028 a escolha por energia limpa pode deixar de ser privilégio de grandes indústrias e se tornar uma decisão cotidiana para milhões de brasileiros.

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