ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Lixo ou riqueza? O potencial estratégico dos resíduos no Brasil

Transformar o lixo em riqueza estratégica é mais do que uma necessidade ambiental: é uma oportunidade histórica para o Brasil reinventar seu modelo de desenvolvimento

Apenas 4,5% dos resíduos são efetivamente reciclados no Brasil, enquanto 33,6% têm potencial para reciclagem (Freepik)

Apenas 4,5% dos resíduos são efetivamente reciclados no Brasil, enquanto 33,6% têm potencial para reciclagem (Freepik)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 10 de agosto de 2025 às 16h00.

Última atualização em 11 de agosto de 2025 às 09h55.

Priorizar nos meus resultados Google

* Por Felipe Nassar Cury

O Brasil produz cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Isso equivale a uma média diária de 1,1 kg de lixo por habitante, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

Apesar desse volume impressionante, apenas 4,5% dos resíduos são efetivamente reciclados, enquanto 33,6% têm potencial para reciclagem. O resultado? Um desperdício econômico estimado em R$ 14 bilhões anuais e um desafio ambiental e social de proporções gigantescas, que exige reflexão urgente.

Transformar o lixo em riqueza estratégica é mais do que uma necessidade ambiental: é uma oportunidade histórica para o Brasil reinventar seu modelo de desenvolvimento. Não se trata apenas de descartar resíduos, mas de enxergá-los como recurso capaz de impulsionar inovação, gerar empregos e criar oportunidades econômicas robustas.

Trata-se, também, de promover dignidade a um público historicamente invisível: os catadores e trabalhadores da cadeia informal de reciclagem, que somam mais de 386 mil pessoas e que, muitas vezes, sustentam suas famílias com o que outros descartam.

O conceito de economia circular é o alicerce dessa transformação. Ele propõe reintegrar resíduos à cadeia produtiva como matérias-primas, reduzindo a extração de recursos naturais e a geração de novos resíduos.

Países como Alemanha, que recicla 67% de seus resíduos, e vizinhos latino-americanos como Chile e Argentina, com taxas acima de 16%, provam que é possível ir muito além dos modestos 4,5% do Brasil.

Esses exemplos internacionais mostram que o potencial do país é gigantesco, e que a mudança depende, sobretudo, de vontade política, investimento em infraestrutura e mobilização social.

Cada aumento de 1% na taxa de reciclagem pode criar cerca de 9.315 empregos diretos.

Em um cenário otimista, até 244 mil novos postos de trabalho podem surgir até 2040, com impacto adicional de R$ 10 bilhões anuais na economia.

A cadeia da reciclagem pode se consolidar como motor de inovação tecnológica, desenvolvendo processos mais eficientes e produtos de maior valor agregado, posicionando o Brasil como protagonista em tecnologias sustentáveis.

Do ponto de vista ambiental, o Brasil ocupa a 8ª posição entre os maiores poluidores plásticos do mundo, descartando cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico nos oceanos anualmente, o equivalente a 8% do total global.

A poluição plástica é considerada a segunda maior ameaça ambiental do planeta pela ONU. Substituir plásticos descartáveis por alternativas sustentáveis pode evitar a geração de 3,2 milhões de toneladas de resíduos plásticos entre 2025 e 2040, evitar a emissão de 18 milhões de toneladas de CO₂ e gerar R$ 6 bilhões em valor de mercado.

Apesar de avanços, como o crescimento de 46% na reciclagem de plásticos desde 2018, a infraestrutura para coleta seletiva ainda é restrita, presente em apenas 32 a 38% dos municípios brasileiros.

A coleta domiciliar regular atinge 93,4% da população, mas a baixa adesão à separação na fonte compromete a eficiência do sistema.

Conscientizar a população é essencial para transformar esse cenário. A educação ambiental e campanhas de comunicação precisam ser prioridade para que o cidadão entenda seu papel ativo nessa cadeia.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece a meta de reciclar 20% dos resíduos até o final de 2025, mas essa meta ainda parece distante. Alcançá-la exige fortalecer a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e cidadãos.

O papel das empresas é decisivo: ESG não é um fim, mas o meio para promover valor econômico, social e ambiental. Organizações que ignorarem ganhos ambientais e sociais estarão rapidamente fora do mercado.

Enxergar o lixo como valor estratégico é repensar a governança e integrar o ESG de forma transversal, como parte da solução.

Mais do que uma mudança técnica, trata-se de uma revolução cultural que transforma a relação com recursos, consumo e inclusão social. Reconhecer o lixo como ativo estratégico abre caminho para novos modelos de negócio, maior justiça social e um desenvolvimento econômico mais resiliente e sustentável.

É a chance concreta de promover crescimento equilibrado e distribuir melhor os benefícios da economia verde.

Transformar resíduos em riqueza é o passo essencial para o futuro do Brasil. O momento é agora. A oportunidade é única.

Se o país conseguir unir esforços, investir em inovação, infraestrutura e educação, poderá não apenas reduzir seus impactos ambientais, mas também criar uma economia mais justa, inclusiva e próspera para as próximas gerações.

* Felipe Nassar Cury é head de Pós-consumo da Ambipar

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticas

Mais de ESG

Eucatex incorpora risco climático à estratégia e investe R$ 410 milhões em expansão florestal

Mondelēz amplia cabotagem e aposta em biometano para reduzir emissões no Brasil

Antes de colapsar, geleira do Nepal registrou o calor mais alto em 55 anos

Como evitar que o setor elétrico corra o risco de colapsar em dias de muito sol?