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Turismo sustentável: com mais de 656 mil visitantes no parque em 2025, avanço do turismo aumenta o desafio de destinar resíduos no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
Repórter de ESG
Publicado em 13 de agosto de 2026 às 05h43.
A expansão do turismo nos Lençóis Maranhenses trouxe para a região um problema que cresce junto com o número de visitantes: o que fazer com os resíduos gerados em um território ambientalmente sensível e com infraestrutura limitada para coleta seletiva.
Em Atins, vila localizada na entrada do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, uma operação voltada especificamente para embalagens de vidro recolheu mais de 30 toneladas do material em seus primeiros seis meses de funcionamento. O volume equivale a cerca de 135 mil garrafas long neck e ficou 47% acima da meta prevista para o período.
O projeto, chamado Vidrado, é uma iniciativa da fabricante de bebidas Heineken com execução da startup de impacto Solos, em uma parceria do Grupo Charme e da prefeitura de Barreirinhas. A operação também alcança Santo Inácio, no Maranhão. As organizações contaram os primeiros detalhes da iniciativa com exclusividade para a EXAME.
O resultado ocorre em um momento de aumento do fluxo turístico na região. Reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial, os Lençóis Maranhenses receberam mais de 656 mil visitantes em 2025, o maior volume já registrado no parque, segundo os dados da iniciativa.
O crescimento amplia a atividade econômica ligada ao turismo, mas também aumenta a geração de resíduos em localidades que não necessariamente contam com sistemas estruturados para absorver essa demanda.
Em Atins, por exemplo, não havia coleta seletiva específica para vidro. As próprias características da vila impõem dificuldades adicionais à logística: as ruas são de areia, o que exigiu uma operação adaptada ao território.
Nos primeiros seis meses, o projeto cadastrou mais de 160 estabelecimentos comerciais, que passaram a receber coleta porta a porta. Também foram instalados cinco Pontos de Entrega Voluntária, os PEVs, locais destinados ao descarte de materiais recicláveis, em Atins e Santo Inácio.
A atuação não ficou restrita ao vidro gerado nos estabelecimentos. Durante a implementação, foram identificados 26 pontos de descarte irregular, todos com presença de vidro. A retirada desses resíduos somou aproximadamente 3,1 toneladas.
Em fevereiro, um mutirão de limpeza com participação de moradores recolheu outras 1,5 tonelada de vidro em apenas um dia.
Os números ajudam a dimensionar um passivo que já estava presente na região antes da estruturação da iniciativa. Sem uma cadeia local organizada de coleta seletiva para o material, parte dessas embalagens acabava acumulada em pontos clandestinos de descarte ou sujeita a chegar a áreas ambientalmente sensíveis.
Do total recolhido pelo Vidrado durante o período, 63,5% correspondia a garrafas. O material é enviado ao centro de circularidade do vidro da Heineken Spin, ecossistema de negócios de impacto do Grupo Heineken, onde segue para reciclagem e posterior reinserção na cadeia produtiva.
Para Breno Aguiar de Paula, gerente de Sustentabilidade do Grupo Heineken no Brasil, a operação depende da articulação entre diferentes atores locais.
“O Vidrado mostra como a colaboração entre iniciativa privada, poder público e comunidade pode transformar um desafio ambiental em uma solução de longo prazo para o território. Além de garantir a destinação correta do vidro, fortalecemos a economia circular e contribuímos para a preservação de um dos patrimônios naturais mais importantes do país”, afirma.
A operação nos Lençóis Maranhenses é a sexta edição do Vidrado. O projeto foi criado em 2021 em Caraíva, destino turístico no litoral da Bahia que também combina alto fluxo de visitantes com limitações de infraestrutura para gestão de resíduos.
Ao longo de cinco anos, as diferentes edições destinaram 204 toneladas de vidro à reciclagem, volume que, segundo os responsáveis pela iniciativa, seria suficiente para a produção de mais de 1 milhão de novas garrafas.
A expansão do modelo para Atins exigiu adaptações à realidade local, segundo Saville Alves, fundadora da Solos. “Isso é possível quando combinamos uma escuta e participação da comunidade, desde as lideranças e representantes do poder público até o cidadão comum. Esse olhar local enriquece os aprendizados da nossa metodologia e proporciona adaptações mais eficientes”, afirma.
A Solos atua na implementação de sistemas ligados à economia circular e já realizou projetos com empresas como Ambev, Braskem, iFood, Nubank e Coca-Cola. Em nove anos, já coletou mais de 2 mil toneladas de resíduos e gerou R$ 10 milhões em renda para catadores.
No caso de Atins, a participação do setor turístico também integra a estrutura do projeto. O Grupo Charme, que atua na vila, é um dos parceiros da operação. “Atins é a nossa casa, e acreditamos que seu crescimento só faz sentido quando acontece em equilíbrio com a preservação de sua essência, da comunidade e do meio ambiente”, afirma Anna Teresa Ranus, cofundadora do Grupo Charme Atins.

O Vidrado integra o Green Your City, plataforma criada pela Heineken em 2021 para reunir projetos de cultura e sustentabilidade da marca.
Na frente de circularidade, a companhia estabeleceu como meta tornar 80% das suas embalagens circulares até 2030, inclusive por meio da ampliação do uso de embalagens retornáveis.
A estratégia também inclui outros compromissos. A empresa prevê entregar 324 mil MWh de energia elétrica renovável até 2030, volume que, segundo seus cálculos, seria suficiente para abastecer cerca de 125 mil residências brasileiras por um ano, considerando a média de consumo residencial de 2024 informada pela Empresa de Pesquisa Energética.
A plataforma prevê ainda a implementação de microflorestas urbanas em 19 capitais brasileiras até 2030 e ações de comunicação sobre consumo responsável de álcool. No Maranhão, a companhia também realizou em junho o plantio de sua primeira microfloresta urbana em São Luís.
A coleta de vidro nos Lençóis, porém, atua sobre um desafio diferente e imediato: construir uma logística para um resíduo que já circula em volume relevante em um destino turístico em expansão, mas que até então não contava com uma estrutura organizada de coleta seletiva para esse material.