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Alemanha reduziu emissões em várias etapas, primeiro com expansão de renováveis no setor elétrico (Westend61/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 14 de junho de 2026 às 10h00.
No domingo, 14 de junho, a seleção da Alemanha entra em campo às 14h contra Curaçao para sua estreia na Copa do Mundo de 2026.
Fora do gramado, o país trava outro jogo: reduzir emissões de gases de efeito estufa enquanto mantém a maior economia da Europa funcionando. Os números mais recentes mostram que a Alemanha está, pelo menos em parte, conseguindo os dois ao mesmo tempo.
Em 2024, o país emitiu 649 milhões de toneladas de gases de efeito estufa, queda de 3,4% em relação ao ano anterior e abaixo do teto previsto pela lei climática alemã. O dado representa uma redução de cerca de 48% em relação ao nível de 1990 — praticamente metade das emissões em três décadas e meia. Em 2023, as emissões já tinham chegado a 673 milhões de toneladas, o menor nível em 70 anos. O recuo de 2024 aprofundou essa marca.
O contexto econômico complica a leitura, mas não invalida a tendência. A Alemanha fechou 2024 com o segundo ano consecutivo de contração do PIB — queda de 0,2%, depois de recuo de 0,3% em 2023. Em 2025, a economia voltou a crescer 0,2%, encerrando o ciclo recessivo. Com PIB nominal de aproximadamente 4,47 trilhões de euros, o país segue como a maior economia da Europa em tamanho absoluto, à frente de França e Itália, e responde por cerca de 24,4% do PIB total da União Europeia.
A questão que os dados levantam é direta: a queda nas emissões reflete uma transição estrutural genuína, ou é efeito colateral de uma economia que patinou? A resposta honesta é: os dois fatores estão presentes, mas o mais importante é a transformação do sistema elétrico.
O principal vetor de redução de emissões na Alemanha foi a mudança no mix elétrico. Em 2010, fontes renováveis respondiam por 19% da geração de eletricidade no país. Em 2019, já eram 46%. Em 2025, chegaram a 55,9% — com a solar superando o lignito pela primeira vez em geração anual. O carvão, que dominou o sistema elétrico alemão por décadas, perdeu espaço de forma consistente ao longo desse período, com recuos relevantes em 2019, 2023 e 2025.
Esse deslocamento do carvão é o que mais explica a trajetória de emissões no setor elétrico. Em 2023, a geração a carvão caiu ao menor nível desde a década de 1960. O governo alemão atribuiu os resultados de 2024 principalmente à expansão de eólica e solar e ao sistema europeu de comércio de emissões, que encarece progressivamente a queima de combustíveis fósseis para geração de energia.
Mas a transição não aconteceu de forma linear. Em 2022, a crise energética provocada pela guerra na Ucrânia e pelo corte do gás russo forçou a Alemanha a reativar usinas a carvão temporariamente, e as emissões do ano ficaram em torno de 761 milhões de toneladas — um recuo parcial em relação à trajetória de queda. O episódio expôs a vulnerabilidade de uma economia industrial dependente de energia importada e alimentou o debate sobre o ritmo do fechamento das usinas nucleares, concluído em abril de 2023.
A expressão que os economistas usam para descrever o que a Alemanha buscou nas últimas décadas é "desacoplamento" — crescer sem aumentar proporcionalmente as emissões. O país avançou nessa direção, mas o progresso não foi uniforme entre setores.
O setor elétrico descarbonizou mais rápido. A indústria pesada, o transporte e o aquecimento de edifícios continuam sendo os desafios não resolvidos. Em 2024, as emissões industriais ficaram praticamente estáveis, e o próprio governo alemão reconheceu que parte da melhora no balanço climático veio também de uma atividade industrial mais fraca — não apenas de ganhos estruturais de eficiência.
Isso torna a comparação mais honesta: a Alemanha reduziu emissões em várias etapas, primeiro com expansão de renováveis no setor elétrico, depois com o fechamento progressivo do carvão, e em paralelo com políticas climáticas domésticas que foram ficando mais rígidas ao longo do tempo. Mas o país ainda não equacionou os setores de difícil descarbonização, e parte da queda recente das emissões reflete um momento de baixa atividade econômica, não apenas uma transição consolidada.
A Alemanha não apresenta uma NDC própria no âmbito do Acordo de Paris — suas metas climáticas estão inscritas dentro do compromisso coletivo da União Europeia, que prevê redução de pelo menos 55% nas emissões líquidas até 2030 em relação a 1990. Domesticamente, o país foi endurecendo seus próprios objetivos: em 2021, ampliou a meta para corte de 65% até 2030. E foi além do bloco ao estabelecer neutralidade climática até 2045, cinco anos antes da meta da UE para 2050.
Com a queda de 48% já registrada até 2024, a Alemanha está bem posicionada na trajetória até 2030, mas o trecho restante é o mais difícil — justamente porque os setores que ainda emitem muito são os que mais resistem à descarbonização rápida.
A Alemanha que chega à Copa do Mundo de 2026 em busca do pentacampeonato é um país em transição em sentido duplo. Na economia, tenta retomar o crescimento depois de dois anos de retração sem perder a posição de maior PIB europeu. No clima, tenta transformar em avanço estrutural uma queda de emissões que, em parte, foi favorecida por um ciclo de baixa atividade industrial.