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Eucatex incorpora risco climático à estratégia e investe R$ 410 milhões

Novo relatório de sustentabilidade da companhia de construção mostra criação de GT climático, desenvolvimento de eucaliptos mais resistentes e avanço em bioenergia e conservação

Eucatex administra 51,3 mil hectares, sendo 38,9 mil hectares destinados ao plantio de eucalipto

Eucatex administra 51,3 mil hectares, sendo 38,9 mil hectares destinados ao plantio de eucalipto

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 9 de setembro de 2026 às 18h10.

Última atualização em 10 de setembro de 2026 às 15h10.

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“Passamos a olhar não só o impacto no meio ambiente e na sociedade, mas também quanto esses riscos e oportunidades ligados às mudanças climáticas podem impactar o nosso caixa”, diz Naiara Arantes de Carvalho, gerente de tecnologia, meio ambiente e ESG da Eucatex, em entrevista à EXAME.

A ideia reflete a principal mudança apresentada no novo relatório de sustentabilidade da companhia de materiais de construção, publicado na Comissão de Valores Imobiliários (CVM), que pela primeira vez incorpora à estratégia ESG os potenciais efeitos financeiros dos riscos ambientais e sociais. 

A evolução da agenda ESG acompanha uma mudança na estrutura de governança. Em 2023, o BTG Pactual entrou no capital da Eucatex com 33,4% de participação e passou a ser um dos principais acionistas do negócio, que tem a família Maluf como controladora.

Como uma empresa de base florestal que depende do eucalipto para abastecer suas fábricas, a Eucatex tem no clima um fator diretamente ligado à produtividade, ao abastecimento e à própria continuidade do negócio.

"Isso traz uma necessidade extra de estar sempre em equilíbrio, porque dependemos do solo, da água e da natureza para extrair nossa principal matéria-prima”, destaca a gerente.

Hoje, a empresa administra 51,3 mil hectares em 142 fazendas, próprias e de terceiros, dos quais 38,9 mil hectares são destinados às florestas plantadas de eucalipto. A operação fornece mais de 1,5 milhão de metros cúbicos de madeira por ano às unidades industriais.

Na prática, o risco climático já chegou ao resultado. Em 2025, secas e incêndios afetaram a produção florestal própria, levando o negócio a buscar madeira no mercado e arcar com custos adicionais de transporte. Apesar da pressão sobre as margens, a companhia encerrou 2025 com receita líquida de R$ 3,1 bilhões, alta de 8,6% sobre o ano anterior.

“O clima não está nas nossas mãos, mas o que está é continuar investindo em pesquisa e desenvolvimento para novos materiais”, afirma Naiara.

Segundo a executiva, a combinação de queimadas, geadas, ventos, pragas e doenças aumenta a necessidade de tornar a operação mais precisa e resiliente. 

“A partir do momento em que você não tem controle sobre as mudanças climáticas, é preciso ter controle sobre a sua operação”, complementa.

R$ 410 milhões entre floresta e indústria

Esse movimento ocorre em meio a um ciclo relevante de investimentos. Em 2025, a Eucatex direcionou R$ 410,8 milhões à expansão florestal e à modernização industrial, especialmente da planta de Salto, no interior paulista.

Os aportes em máquinas e equipamentos buscaram ampliar a automação dos processos, melhorar a ergonomia, elevar o controle de qualidade e reduzir consumo de materiais e geração de resíduos.

Na área florestal, um dos principais focos está no melhoramento genético. A companhia vem selecionando e desenvolvendo clones de eucalipto com maior rendimento e maior resistência a pragas, doenças e eventos climáticos extremos. Antes de serem incorporados à operação, esses materiais são testados em diferentes regiões e condições ambientais. 

++ Leia mais: De câmeras a joaninhas: como gigantes florestais inovam para proteger animais

O relatório também destaca como uma oportunidade o desenvolvimento de mudas mais adaptadas a variações de temperatura e menor disponibilidade hídrica, além de maior cooperação com universidades e institutos de pesquisa.

A área plantada também vem aumentando. A soma de novas florestas e condução da brotação passou de 6.667 hectares em 2024 para 7.395 hectares em 2025. Para 2026, a previsão é crescer para 8.250 hectares.

Um GT para acompanhar o clima

Outro avanço de 2025 foi a criação de um Grupo de Trabalho sobre Mudanças Climáticas, com participação multidisciplinar e foco em acompanhar os efeitos do clima sobre a produtividade florestal e definir medidas de mitigação e adaptação.

Entre as iniciativas previstas estão a revisão dos processos de silvicultura e colheita e o aprofundamento da análise de dados sobre produtividade.

A estratégia está ligada ao programa Silvicultura 4.0, que inclui mecanização, revisão de processos, tecnologia, nutrição de solos e técnicas de manejo que buscam reduzir os impactos sobre o terreno.

Apesar dos avanços, o próprio relatório reconhece que a Eucatex ainda não possui uma metodologia estruturada para calcular o impacto financeiro dos riscos climáticos sobre receitas, despesas ou projeções.

A intenção é desenvolver essa capacidade nos próximos anos. A intenção é desenvolver essa capacidade nos próximos anos. Para Naiara, a companhia ainda está em uma fase de amadurecimento da agenda climática. 

A partir desta edição, referente a 2025, a divulgação passa a ser anual e adota o formato de relato integrado.

Esse é o motivo para que a empresa não tenha estabelecido ainda uma meta de longo prazo para redução das emissões. A maior dificuldade está no Escopo 3, que inclui emissões indiretas da cadeia de valor.

Da floresta preservada à madeira que vira energia

Além da adaptação das plantações, a Eucatex também avança em iniciativas de circularidade e conservação ambiental.

A companhia mantém mais de 10 mil hectares de áreas destinadas à conservação de vegetação nativa e contabiliza cerca de 1,8 mil hectares de áreas restauradas.

Segundo Naiara, o manejo da empresa busca conciliar produção florestal e preservação. O monitoramento ambiental identificou em 2025 33 espécies de animais ameaçadas de extinção nas áreas em que há cultivo de eucalipto.

“Temos evidências de que o mosaico existente entre as nossas florestas de eucalipto e as nativas preservadas é um habitat favorável ao desenvolvimento da fauna e da flora”, afirma.

Na frente de economia circular, a companhia criou em 2025 a divisão Eucatex Bioenergia, responsável por fortalecer a coleta e o reaproveitamento de resíduos de madeira em cidades próximas às fábricas.

A operação recebe materiais como podas de árvores, móveis antigos, paletes quebrados e caixarias, que são triturados e utilizados como combustível nas caldeiras industriais. No ano, foram 95.161 toneladas de madeira recicladas, das quais 27.460 toneladas foram vendidas na forma de cavaco.

A matriz energética também avançou no uso de fontes renováveis, com um contrato de longo prazo que assegura que 50% da demanda elétrica do negócio seja atendida por energia solar.

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