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Em São Paulo, Rosewood aposta que o futuro do luxo tem raízes brasileiras e é sustentável

"Luxo é valorizar as brasilidades, preservar tradições e colocar as pessoas no centro do negócio", destaca a gerente de impacto social da rede hoteleira à EXAME

A Torre Mata Atlântica, projetada por Jean Nouvel, reúne mais de 250 espécies de plantas nativas e exalta a biodiversidade brasileira (Divulgação)

A Torre Mata Atlântica, projetada por Jean Nouvel, reúne mais de 250 espécies de plantas nativas e exalta a biodiversidade brasileira (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 26 de abril de 2026 às 18h00.

Última atualização em 26 de abril de 2026 às 19h14.

Há um simbolismo por trás de um hotel de luxo nascer dentro de uma antiga maternidade. Localizado na Rua Itapeva, no bairro Bela Vista, em São Paulo, o prédio histórico viu 500 mil brasileiros chegarem ao mundo.

Hoje, como sede do Rosewood, o espaço segue sendo um "lugar de começos". E a aposta do negócio é que o luxo se constrói com brasilidade, responsabilidade ambiental e pessoas no centro de cada decisão.

"Queremos criar um espaço de troca consciente, onde pessoas e planeta se enriquecem mutuamente. Esse propósito permeia todas as nossas escolhas, da curadoria de fornecedores à experiência do cliente", destaca a gerente de impacto social da rede hoteleira, Lou Ana Garcia, em entrevista à EXAME.

O hotel abriu as portas dentro da Cidade Matarazzo, complexo que reuniu edifícios históricos do início do século XX e os transformou no maior projeto de upcycling do Brasil.

Ao lado da antiga maternidade restaurada, uma torre de cem metros de altura é coberta de madeira nativa e cercada por mais de 250 espécies de plantas nativas.

Projetada pelo arquiteto Jean Nouvel, vencedor do Prêmio Pritzker, a chamada Torre Mata Atlântica valoriza a biodiversidade brasileira e coloca a natureza como protagonista em meio ao concreto da capital paulista.

A experiência é, de fato, luxuosa. As diárias partem de cerca de R$ 4.000 e chegam a R$ 5.300 para os quartos mais acessíveis. O hóspede encontra uma arquitetura que dialoga com a natureza, onde painéis de madeira, jardins verticais e luz natural criam a sensação de um "oásis verde" em plena metrópole.

A decoração carrega referências culturais brasileiras, de obras de artistas locais às texturas inspiradas nos biomas do país. De livre acesso ao público, seis restaurantes e bares trazem a proposta de pluralidade e valorização de produtos locais. 

Operação 100% renovável e economia circular

Em menos de um ano após a abertura, o hotel bateu a meta de uso de 100% de energia renovável. O resultado veio da combinação entre painéis solares instalados no próprio complexo e um contrato de longo prazo com a Omega Energy.

A lógica da sustentabilidade se repete na gestão de resíduos. O hotel conta com biodigestor e trituradora de vidro instalados no local, e todos os descartáveis são destinados corretamente. A parceria com a Multilixo formalizou a adesão ao modelo "Zero Aterro": nada do que sai do hotel vai para aterro sanitário, e o desempenho ambiental é mensurado com metas e indicadores.

Nas áreas de contato com o hóspede, a operação também reflete essa escolha consciente. A água servida é filtrada no próprio hotel e engarrafada em vidro. As amenidades dos quartos chegam em embalagens de material reciclado. Os carros à disposição dos hóspedes são elétricos ou híbridos, conduzidos por motoristas da própria equipe.

Segundo a gerente de impacto, "cada detalhe foi pensado dentro de uma mesma cadeia de decisão". 

A construção do hotel também foi feita com mármore e madeira são 100% brasileiros. O mobiliário e os interiores vieram de fornecedores locais ou de materiais reutilizados. Cinquenta e sete artistas brasileiros foram contratados para criar obras exclusivas para o espaço, visando ressaltar a brasilidade e impulsionar a arte e economia local. 

Para Lou, se trata de uma redefinição do que significa oferecer "uma experiência de alto padrão". No Rosewood, o padrão é medido também pelo que "fica para a cidade depois que o hóspede vai embora".

Pessoas no centro do negócio

O pilar social é onde o hotel mais aposta. Em parceria com a ONG Sefras, o Rosewood contratou refugiados e vinte jovens locais ingressaram como aprendizes, com rotação entre departamentos.

Em novembro de 2022, nove funcionários concluíram três meses de treinamento em língua de sinais. O cardápio do restaurante Le Jardin contempla opções certificadas disponíveis 24 horas, resultado de um processo de curadoria que envolveu desde consultorias religiosas até certificação formal.

A parceria com a tribo indígena Pataxó, do sul da Bahia, é um dos exemplos do que o hotel entende como brasilidade e valorização dos povos originários. As obras da comunidade ocupam paredes, o artesanato é comercializado dentro do complexo e o líder Arassari Pataxó tem presença ativa no espaço.

A Capela Santa Luzia, construída há mais de cem anos dentro do complexo, abre as portas para shows gratuitos mensalmente, visando a democratização.

Um modelo sustentável em expansão

O Rosewood São Paulo é o primeiro hotel da rede na América do Sul e segundo a gerende de impacto, as iniciativas implementadas funcionam como "laboratório" para o que a marca quer levar adiante: a ideia de que sustentabilidade ambiental, impacto social e experiência de luxo não apenas coexistem, mas se reforçam.

No complexo Cidade Matarazzo, o hub AYA é inspirado na estrutura do cipó Jagube, planta amazônica usada no preparo da Ayahuasca e já nasceu com operação carbono zero como meta central.

O espaço reúne marcas e eventos comprometidos com a descabonização, e funciona como extensão da mesma lógica que orienta o hotel: o ambiente construído pode ser um agente ativo de transformação na cidade.

"Não buscamos apenas criar destinos, mas memórias emocionais, aprendizado e conexões", conclui a gerente de impacto.

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