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Em Santa Marta, Colômbia sai na frente com roteiro para cortar 90% dos combustíveis fósseis

Plano lançado no primeiro dia da conferência prevê economia de US$ 280 bilhões até 2050 e amplia pressão sobre o Brasil, que ainda não apresentou sua estratégia nacional para a transição

Irene Vélez Torres durante a abertura da conferência em Santa Marta: "Chega de promessas, queremos ações" (Flickr / Ministério do Meio Ambiente)

Irene Vélez Torres durante a abertura da conferência em Santa Marta: "Chega de promessas, queremos ações" (Flickr / Ministério do Meio Ambiente)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 25 de abril de 2026 às 14h00.

Última atualização em 25 de abril de 2026 às 18h54.

No primeiro dia da primeira conferência global para o fim dos combustíveis fósseis, a Colômbia saiu na frente e apresentou seu roteiro nacional para abandonar progressivamente petróleo, carvão e gás.

O documento, lançado em Santa Marta durante o anúncio do Painel Científico para a transição energética que coloca a ciência no centro do debate, propõe reduzir em 90% o uso de combustíveis fósseis até 2050 e pode servir de modelo para outros países produtores.

A vanguarda colombiana ocorre em meio à tentativa de destravar um dos principais impasses das negociações climáticas globais: como transformar em medidas concretas o compromisso firmado nas últimas conferências do clima de promover uma transição para longe dos fósseis poluentes.

A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, destacou que a entrega é o primeiro passo para avançar justamente onde a negociação formal travou: na construção de caminhos concretos para a implementação.

“O plano envolve a criação de territórios para a vida, zonas de exclusão do extrativismo e zonas priorizadas para o fechamento progressivo”, afirmou.

Nas COPs da ONU, o tema costuma ser "tabu" e enfrentar resistência de países exportadores de petróleo, além de depender de consensos difíceis entre quase 200 governos.

Para Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, a conferência colombiana e o debate sobre planos nacionais respondem justamente a esse bloqueio.

“Os dois processos são complementares: ambos buscam enfrentar a falha do multilateralismo climático em alcançar consenso sobre como e com que rapidez implementar o acordo de transição energética de forma justa, ordenada e equitativa”, afirmou em coletiva de imprensa.

A conferência de Santa Marta busca justamente operar fora dessas limitações da diplomacia internacional. Representantes de 56 países do Norte e do Sul Global participam do encontro, número superior aos 24 governos que haviam sinalizado apoio inicial durante a COP30, em Belém.

“A participação está bastante positiva, especialmente considerando que é a primeira conferência desse tipo e que o cenário político piorou desde Belém”, disse, citando conflitos geopolíticos em curso como a guerra no Oriente Médio e as crises energéticas como fatores adversos.

A escolha da cidade colombiana também é simbólica. Além de ser a cidade mais antiga do país, Santa Marta abriga um dos principais portos exportadores de carvão do mundo.

O que prevê o plano colombiano

O estudo apresentado pelo governo colombiano e por cientistas internacionais traça metas para reorganizar a economia energética do país nas próximas décadas. Entre os principais pontos estão:

  • redução de 90% da demanda primária de fósseis até 2050, em relação a 2026;
  • corte de 90% das emissões do sistema energético frente aos níveis de 2015;
  • matriz elétrica 100% renovável até 2050;
  • eliminação do carvão no setor elétrico até 2045;
  • retirada do gás natural da geração elétrica até 2050;
  • eletrificação total do transporte rodoviário e público até 2050;
  • economia líquida estimada em US$ 280 bilhões entre 2026 e 2050.

Segundo o documento, a transição exigiria investimentos elevados na fase inicial, mas passaria a gerar economia líquida anual a partir dos anos 2040.

Dependência do petróleo e carvão

O principal desafio da Colômbia está na dependência externa dos fósseis. Hoje, o país exporta cerca de US$ 25 bilhões em petróleo e carvão, valor equivalente a aproximadamente metade das exportações totais.

Mesmo assim, os autores argumentam que essa receita tende a cair de qualquer forma nas próximas décadas, à medida que o mundo acelere a descarbonização.

O documento também mostra que a renda com exportações fósseis pode encolher pela metade já em meados da década de 2030.

Como alternativa, o roteiro nacional propõe diversificação econômica, apoio às regiões produtoras, requalificação profissional e expansão de setores como minerais críticos, especialmente cobre.

Pressão sobre o Brasil

O debate em Santa Marta dialoga diretamente com uma proposta defendida pelo governo brasileiro durante a COP30: a criação de um “mapa do caminho” global para orientar o abandono dos combustíveis fósseis.

Nos bastidores da conferência do clima em Belém, a iniciativa foi apoiada por países como Colômbia e Países Baixos, mas ficou de fora do texto final da ONU.

++ Leia mais: Conferência na Colômbia: a cada R$ 1 para energia limpa no Brasil, R$ 2,52 vão para fósseis

Agora, o encontro em solo colombiano tenta preencher essa lacuna e pressionar o roteiro que a presidência brasileira da COP30 deverá apresentar em novembro na próxima COP31 na Turquia e que ainda não saiu do papel. Até então, nenhum documento foi apresentado 

Ao mesmo tempo, a vanguarda amplia a pressão sobre o Brasil, pois o documento ainda não saiu do papel e acumula cerca de dois meses de atraso em relação ao prazo inicial.

Mais do que um evento diplomático, a conferência de Santa Marta sinaliza o surgimento de uma nova estratégia: formar coalizões de países dispostos a avançar mais rápido na saída dos fósseis, mesmo sem unanimidade formal da ONU.

Se ganhar escala, a iniciativa pode reposicionar o debate climático global e dar início a um era para longe do petróleo, gás e carvão, responsáveis por cerca de 70% das emissões. 

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