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Material analisou o estado da transição e da presença de petróleo nos países do Caribe (Arquivo Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 22 de abril de 2026 às 19h00.
Última atualização em 23 de abril de 2026 às 10h55.
A expansão da exploração de petróleo na Guiana vem impulsionando novas frentes fósseis em diferentes países do Caribe, segundo material da organização climática Fossil Free Caribe.
Com mais de 11 bilhões de barris descobertos em águas offshore desde 2015, o país passou a ocupar posição central no movimento e vem puxando os governos vizinhos, apesar dos riscos climáticos, sociais e ambientais apontados no documento.
O material apresenta um panorama regional do fenômeno entre 2021 e 2026 e destaca que o Caribe responde por menos de 1% das emissões globais, embora esteja entre as áreas mais vulneráveis a furacões e eventos extremos.
Ao mesmo tempo, América Latina e Caribe geram 67% de sua eletricidade a partir de fontes limpas em 2025, enquanto o gás fóssil já representa 25,9% da geração elétrica regional, impulsionado por novas terminais e usinas térmicas.
A Guiana aparece como o epicentro desse avanço. O texto afirma que Georgetown vive um processo de gentrificação, com alta de preços e deslocamento de comunidades tradicionais. A indústria petrolífera avança com pouco controle ambiental e com queima ilegal de gases, o que faz do país o segundo amazônico com maior emissão por essa prática, atrás do Equador.
Embora o governo diga que a receita do petróleo financia escolas e hospitais, organizações ouvidas pela Fossil Free Caribe afirmam que a riqueza não se converte em bem-estar de forma equilibrada e que pobreza e desemprego se aprofundam.
O Suriname é apresentado como outra frente central da expansão. O país tem reservas estimadas em 2,4 bilhões de barris e 12,5 trilhões de pés cúbicos de gás fóssil, com produção offshore prevista para 2028.
Entre 2025 e 2027, são esperados ao menos dez novos poços adicionais na bacia Guiana-Suriname. O documento registra ainda que esse avanço ocorre em meio a uma crise de desmatamento e mineração ilegal na floresta amazônica do país, com impactos sobre territórios indígenas como os dos Saamaka e dos Wayana.
Na República Dominicana, o texto identifica três focos simultâneos de expansão fóssil. Um deles é o projeto Manzanillo Gas & Power, que reúne uma terminal de GNL e duas usinas de ciclo combinado de 420 MW cada, com entrada em operação prevista para 2026.
Outro é Punta Catalina, usina a carvão vinculada, segundo informes da FIDH e de organizações locais citados no material, a projeções de até 6 mil mortes prematuras em 30 anos. O terceiro caso são as barcaças da Karpowership em Los Negros, em Azua, onde líderes comunitários relatam mais de 20 mortes por danos pulmonares.
Em nota, a Karpowership afirmou que todos os powerships em operação em Los Negros, na República Dominicana, cumprem rigorosamente toda a legislação ambiental e trabalhista aplicável, em conformidade com os padrões e requisitos estabelecidos e monitorados pelas autoridades do país. A empresa também relatou que atua em estreita coordenação com as comunidades no entorno de suas operações, mantendo uma atuação responsável, pautada pelo diálogo, respeito e engajamento local.
No Panamá, o material diz que o governo recebe assessoria da colombiana Ecopetrol para iniciar exploração de hidrocarbonetos no Caribe. O texto afirma que essa direção contrasta com o fato de o país ser um dos três únicos carbono-negativos do mundo e com os compromissos assumidos em sua NDC 3.0, que prevê eliminação do carvão até 2026 e emissões líquidas negativas até 2050.
Em Honduras, a exploração na costa caribenha ocorre há mais de 12 anos, com contratos offshore com a britânica CaribX, etapas sísmicas e pedidos recentes para perfuração de poços. Em 2023, o país assinou um memorando de entendimento com a Pemex para cooperação técnica e, em 2025, avançou rumo à perfuração exploratória sem consulta prévia a povos indígenas, segundo o documento.
O material alerta ainda para os riscos ao Sistema Arrecifal Mesoamericano, descrito como o maior do Caribe e o segundo mais extenso do mundo, responsável por abrigar 90% da diversidade coralina da região.
A Guatemala é citada em outro contexto: o do fechamento de infraestrutura fóssil. O Campo Xan, apontado como o maior campo petrolífero do país, já está em desuso após o fim do contrato, mas segue sem plano adequado de desmantelamento por parte da empresa ou do governo.
Para o documento, o caso exemplifica um desafio que pode se repetir na região, com passivos ambientais recaindo sobre as comunidades quando não há planejamento claro para o encerramento das operações.
A Venezuela também integra o mapa traçado pela Fossil Free Caribe. Desde que Donald Trump assumiu o controle petrolífero do país, a produção venezuelana caiu de mais de 3 milhões de barris diários para menos de 900 mil, em um cenário de refinarias inoperantes, oleodutos corroídos e derrames constantes no Lago de Maracaibo.
A Jamaica é apresentada como o caso mais recente. As estimativas preliminares mencionadas no documento falam em até 7 bilhões de barris de recursos prospectivos em águas jamaicanas. O texto contrapõe essa perspectiva ao impacto do furacão Melissa, que em outubro de 2025 se tornou o mais custoso da história do país. Os danos foram estimados entre US$ 6 bilhões e US$ 7 bilhões pelo governo jamaicano, e em US$ 8,8 bilhões pelo Banco Mundial e pelo BID. O Instituto de Planificação da Jamaica calculou perdas de até 1,95 trilhão de dólares jamaicanos, equivalentes a 56,7% do PIB.
Ao lado da expansão, o material também reúne exemplos de resistência e transição. Belize mantém desde 2017 uma moratória total à exploração e à extração de hidrocarbonetos no mar do Caribe para proteger seu arrecife, e uma reforma aprovada em 2023 passou a exigir referendo nacional para qualquer reversão da medida. Na Costa Rica, o Decreto nº 41578, de 2019, estendeu a moratória nacional sobre exploração e produção de petróleo e gás até 2050. O texto observa, porém, que a sociedade civil segue em vigilância depois de o presidente ter deixado aberta a possibilidade de reavaliar a exploração.
Nas Bahamas, o governo negou em 2021 a renovação de licenças de exploração offshore à Bahamas Petroleum Company. Em 2024, o país assinou a Declaratória do Tratado sobre Combustíveis Fósiles. O documento afirma que, com eleições em 2026, a empresa ameaça processar o governo por atrasos em licenças, enquanto grupos da sociedade civil tentam blindar legalmente a proibição.
A Colômbia é citada como um caso de liderança climática com contradições internas. O país assinou a Declaratória do Tratado de Não Proliferação na COP28, em 2023, e avançou com moratórias em novos contratos, mas projetos de gás offshore com Petrobras e Ecopetrol seguem em andamento, enquanto a própria Ecopetrol colabora com o Panamá na exploração no Caribe.
Neste mês, a Colômbia sediará a primeira conferência dedicada a deixar os combustíveis fósseis para trás.
Santa Lúcia também aparece no levantamento, com meta de 50% de energias renováveis até 2030. Hoje, 92% da energia primária do país vêm do petróleo, embora o documento aponte alto potencial solar e geotérmico e cite iniciativas voltadas a cooperativas pesqueiras.
O mapa ainda inclui Aruba, Granada, México, Porto Rico, Antígua e Barbuda e São Cristóvão e Névis, com diferentes níveis de pressão por novos projetos fósseis ou desenvolvimento de iniciativas renováveis. No conjunto, o material da Fossil Free Caribe descreve um cenário em que o avanço do petróleo na Guiana passou a influenciar decisões energéticas em boa parte do Caribe, ao mesmo tempo em que organizações, comunidades e alguns governos buscam conter esse movimento e ampliar alternativas de transição.