Do Harlem para Helipa

O afroempreendedorismo mostra sua força na semana da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, e Celso Athayde, da Favela Holding, está cada vez mais certo que o mundo é das mulheres pretas
Lideranças do movimento negro se reuniram no prédio da ONU na semana da Assembleia Geral: o afroempreendedorismo mostra sua força (Leandro Fonseca/Exame)
Lideranças do movimento negro se reuniram no prédio da ONU na semana da Assembleia Geral: o afroempreendedorismo mostra sua força (Leandro Fonseca/Exame)
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Celso Athayde*

Publicado em 24/09/2022 às 09:47.

Última atualização em 24/09/2022 às 09:51.

Acabei de pousar no Brasil, depois de muita emoção de ter que voltar, depois de uma hora de voo as turbinas estão saindo fogo. Chego cada vez mais certo de que o mundo é pra elas.

Estou chegando no Brasil. Fiz muita coisa em Nova York. E uma que sempre faço, quando visito a capital do mundo, é bater perna no Harlem.

É um dos lugares do mundo que mais me sinto em casa, sempre rodeado de irmãos pretos e irmãs pretas! Andando por esse pedaço da Big Apple, é como se eu estivesse em Madureira, na minha Favela do Sapo, sei lá, Heliópolis, Capão Redondo....

É uma convergência artística, cultural e econômica fenomenal. Os pretos estão sempre inventando alguma coisa diferente! É uma inovação permanente que não parece ter fim.

Portanto, a cada ida no Harlem, saio surpreso com alguma coisa nova. Dessa vez, foi a quantidade de mulheres pretas desenvolvendo alguma prática econômica inovadora.

Fiquei arrepiado! Era um salão de beleza estilizado, uma hamburgueria com cardápio personalizado. Várias pretas produzindo intervenções artísticas na dança ou produzindo grandes apresentações musicais. Não é discurso, vão lá e fazem. Aliás, não estou dizendo que é apenas lá que isso acontece. No Brasil, esse fenômeno não é novo. O que move é que a qualificação em massa faz o sarrafo subir, e sobe junto a capacidade de entrega e o grau de exigências. Não tem mais volta.

Mas, por outro lado, existem as vantagens de ser no primeiro mundo, onde os Estados Unidos, e sobretudo Nova York, se colocam à frente mais uma vez. Descobri que essas mulheres são incentivadas a colocarem a sua veia criativa, portanto empreendedora, na rua e movimentar a economia social. Não vou entrar nos detalhes dos números para não fazer comparações, pois o objetivo central é usar a força de produção criativa que vi, e, nessa minha última parada, reconhecer um movimento global do afroempreendedorismo feminino.

Não teve como eu não pensar no Brasil e nas nossas favelas. A maior parte da população do país é formada por mulheres. Nas favelas brasileiras, temos 8,7 milhões de mulheres potentes. Quase a metades dos lares desses territórios são chefiados por mulheres, em sua maioria mães solo, muitas delas empreendedoras

Isso confirma o já eternizado conceito de que que a favela é lugar de potência. E as mulheres, que ali vivem, mais ainda. Vamos lembrar o show de organização, amor ao próximo e mobilização que elas deram no Mães da Favela, programa de combate à pandemia criado pela CUFA (Central Única das Favelas).

Não chegou a hora da sociedade civil olhar para essas guerreiras como um ativo? Explico: Se elas forem contempladas com benefícios, subsídios e linhas de crédito para terem uma estrutura para empreender, qual o ganho para a economia e a sociedade que elas poderiam proporcionar?

Por isso, provocar as empresas que sigam a Caixa Econômica que, em breve, estará lançando uma grande iniciativa, capitaneada pela presidente Daniella Marques, que olha para essas mulheres como parte das que passaram os maiores sufoco na pandemia, mas que reagiram e sobreviveram, para agora darem a volta por cima.

Se a sociedade entender que elas são capazes de impactar a economia, até porque vivem em um território que movimenta R $180 bilhões por ano, e proporcionar estrutura e incentivos para elas, poderemos nos deparar com um crescimento econômico e social, como jamais visto.

*Celso Athayde é fundador da Central Única de Favelas e CEO da Favela Holding