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Do aluguel à revenda: o plano da Localiza para rodar 10 mil carros híbridos e elétricos da BYD

Diretor de ativos da companhia de locação de carros conta como híbridos e elétricos integram a frota e o cenário para reduzir o uso do motor a combustão

Mix entre carros flex, híbridos e elétricos é, para a Localiza, possibilidade para atender perfis distintos de uso e infraestrutura disponível (Leandro Fonseca/Exame)

Mix entre carros flex, híbridos e elétricos é, para a Localiza, possibilidade para atender perfis distintos de uso e infraestrutura disponível (Leandro Fonseca/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 19 de março de 2026 às 16h17.

Última atualização em 19 de março de 2026 às 16h22.

A Localiza&Co, maior locadora da América Latina, firmou no início deste ano um acordo com a BYD para a compra de 10 mil veículos híbridos e elétricos ao longo dos próximos dois anos.

Os modelos — Song Plus, Song Pro, Dolphin e Dolphin Mini — serão incorporados às diferentes soluções da empresa: aluguel diário e mensal, carro por assinatura, gestão de frotas corporativas e a Localiza Seminovos.

O movimento não surge do zero: a parceria foi precedida por mais de um ano de testes operacionais com modelos da BYD, avaliando desempenho, confiabilidade e eficiência na rotina de locação.

Hoje, os veículos eletrificados representam cerca de 2% de uma frota que supera 630 mil unidades. A participação ainda é pequena, mas o contexto do mercado brasileiro ajuda a entender o ritmo que a empresa pretende seguir.

A EXAME conversou com o diretor-executivo de ativos da companhia para entender como a estratégia de descarbonização integra o plano da companhia para crescer nos próximos anos.

Híbridos na frente

Os números de 2025 mostram que a descarbonização no transporte no Brasil está crescendo — e que os híbridos lideram esse avanço. Foram emplacados cerca de 203 mil veículos híbridos no ano, alta de 77% em relação a 2024, de acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

Os elétricos somaram 80 mil unidades, crescimento de 30%, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Na prática, para cada elétrico vendido, dois híbridos saíram das concessionárias.

Carros híbridos e elétricos juntos já representavam entre 9% e 10% do mercado total de veículos leves no Brasil em 2025, segundo ABVE

Esse dado orienta diretamente a estratégia da Localiza. Dirley Ricci, Diretor Executivo de Ativos da companhia, contou à EXAME que os híbridos têm papel prioritário justamente por oferecerem mais flexibilidade ao cliente — que pode tanto usar a motorização elétrica quanto abastecer o veículo normalmente.

"O Brasil possui uma característica única, que é a ampla presença de veículos flex, capazes de utilizar etanol, um biocombustível com menor intensidade de carbono. Por isso, entendemos que a transição energética no setor automotivo no país tende a ocorrer de forma gradual, combinando diferentes tecnologias", diz o executivo.

A avaliação é de que o mercado ainda está em transformação e que diferentes tecnologias — elétricos, híbridos e flex — vão conviver por um bom tempo, atendendo perfis distintos de uso e infraestrutura disponível.

Infraestrutura em expansão

Uma das principais barreiras históricas para a adoção de elétricos no Brasil tem sido a rede de recarga — e ela está crescendo em ritmo acelerado. Levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) aponta que o país superou 20 mil eletropostos, com crescimento de 42% em um ano.

O destaque fica com as estações rápidas de corrente contínua (DC), que saltaram de 2.430 para 6.479 unidades — alta de 166% em relação a fevereiro de 2025.

A mudança reflete tanto a queda no custo dos equipamentos quanto uma aposta estratégica dos operadores em corredores rodoviários e frotas corporativas. A distribuição geográfica, porém, ainda é desigual: metade dos eletropostos está no Sudeste, com quase 4.700 só em São Paulo. O Norte e Nordeste ficam consideravelmente atrás.

Para a Localiza, parte da resposta a esse desafio vem da tecnologia já embarcada na frota. Mais de 90% dos veículos da companhia estão conectados por soluções de IoT (ou Internet das Coisas) o que permite monitorar em tempo real aspectos como carregamento, telemetria e eficiência de uso dos eletrificados.

"O uso de dados em tempo real ajuda a tornar a operação desses veículos mais eficiente e contribui para uma melhor experiência do cliente", diz Ricci.

O ciclo completo: da locação à revenda

Para uma locadora, o carro não termina seu ciclo quando sai da frota ativa. Os veículos eletrificados da Localiza&Co seguem o mesmo caminho dos demais modelos: depois do período de uso, são disponibilizados na Localiza Seminovos, onde são revendidos por um preço abaixo do mercado de novos.

Segundo Ricci, o mercado de seminovos no Brasil tem apresentado forte desempenho nos últimos anos, com sucessivos recordes de vendas — e a companhia acompanha de perto como cada categoria se comporta ao longo desse ciclo.

"O modelo de negócios da Localiza&Co é estruturado justamente para lidar com esse tipo de dinâmica, atuando com disciplina na gestão de ativos, refinando continuamente o timing e o mix de vendas para capturar o melhor valor possível, com foco em eficiência operacional e produtividade ao longo de todo o ciclo do veículo", afirma Ricci.

A reportagem da EXAME encontrou um veículo da BYD, no modelo Song Plus, sob revenda no site da Localiza Seminovos. O veículo, fabricado em 2024, está sendo revendido em São Paulo por R$ 176 mil. Como comparação, o valor de fábrica costuma sair em torno de R$ 249 mil a R$ 299 mil.

Demanda corporativa puxa o movimento

O perfil de quem está alugando híbridos e elétricos no Brasil ainda tem contornos bem definidos. Na Localiza, o crescimento mais expressivo vem de dois segmentos: gestão de frotas para empresas e o modelo de assinatura, o Localiza Meoo. Empresas com metas de sustentabilidade e compromissos ESG têm buscado cada vez mais opções eletrificadas em seus contratos.

No varejo, o interesse cresce, mas em ritmo mais gradual. "Observamos um interesse crescente por veículos eletrificados, especialmente entre clientes que buscam unir tecnologia e performance sustentável em suas escolhas de mobilidade", afirma Ricci.

O dado setorial dá perspectiva: híbridos e elétricos juntos já representavam entre 9% e 10% do mercado total de veículos leves no Brasil em 2025, segundo ABVE.

Digitalização na companhia

A eletrificação está inserida em uma estratégia mais ampla da Localiza&Co de evolução do seu ecossistema de mobilidade — que passa tanto pela modernização da frota quanto por investimentos em tecnologia e experiência do cliente.

O Fast Retirada Digital permite o autosserviço via smartphone e já viabiliza a abertura autônoma de cerca de um terço dos contratos de pessoas físicas nas agências, tendo atingido a marca de um milhão de contratos. A assistente virtual Liza, solução proprietária de inteligência artificial, realiza mais de 4 mil atendimentos diários e dobra a conversão em canais digitais.

"Ao oferecer modelos híbridos e elétricos, ampliamos o acesso dos clientes a novas tecnologias automotivas. Mas a eletrificação é parte de um processo gradual, no qual diferentes tecnologias — elétricos, híbridos e flex — convivem e ampliam as possibilidades de mobilidade", afirma Ricci.

Setor em transformação

A BYD, parceira da Localiza no acordo, é hoje líder de vendas de elétricos no Brasil. Em novembro de 2025, a companhia chegou a 9,77% de participação no ranking da Fenabrave.

A fabricante inaugurou sua fábrica em Camaçari (BA) em 2025, com capacidade inicial para 150 mil veículos por ano e investimento de R$ 5,5 bilhões. O hub é planejado para abastecer também outros países da América Latina.

O movimento não é isolado. GWM e Stellantis também avançam na produção local de híbridos e elétricos. Estudos das consultorias Acende Brasil e Mirow & Co. projetam que o ecossistema de eletrificação pode movimentar R$ 200 bilhões por ano até 2030, com potencial de dobrar os empregos no setor automotivo brasileiro.

Para a Localiza, os próximos passos seguirão o ritmo do mercado. "A Companhia seguirá avaliando oportunidades que façam sentido do ponto de vista operacional, financeiro e da experiência do cliente, ampliando gradualmente a diversidade e a modernização da sua frota à medida que a demanda evolui", conclui Ricci.

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