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Dia do Orgulho: um retrato da violência contra pessoas LGBTQIAP+ no Brasil

Conjunto de dados mostra que a violência não recua de forma estrutural, apenas se reorganiza entre mortes, tentativas e agressões cotidianas

O cenário de 2025 sugere deslocamento da violência mais do que redução, com manutenção de grupos mais expostos e territórios críticos (FERENC ISZA/AFP)

O cenário de 2025 sugere deslocamento da violência mais do que redução, com manutenção de grupos mais expostos e territórios críticos (FERENC ISZA/AFP)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 28 de junho de 2026 às 07h49.

Neste domingo, 28 de junho, o Dia do Orgulho LGBTQIAP+ volta ao calendário global como uma data de memória e reivindicação.

O marco histórico remete à Revolta de Stonewall, em 1969, quando frequentadores do bar Stonewall Inn, em Greenwich Village, Nova York, reagiram a uma batida policial violenta — episódio que se tornou um ponto de inflexão na luta por direitos civis da população LGBTQIA+.

Mais de meio século depois, o cenário que atravessa essa data ainda é atravessado por uma tensão entre reconhecimento social e violência persistente. No Brasil, em 2025, foram registradas 257 mortes violentas de pessoas LGBT+, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB). O número equivale, na prática, a uma morte a cada 34 horas.

O dado, por si só, não aparece isolado. Ele se desdobra em diferentes formas de violência: 204 homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios e 16 mortes classificadas em outras circunstâncias associadas a contextos violentos. Em relação a 2024, quando foram registradas 291 mortes, houve uma queda de 11,7%, segundo o GGB. Ainda assim, a redução convive com um patamar elevado de letalidade.

O próprio levantamento chama atenção para um elemento adicional: três pessoas heterossexuais e cisgêneros também morreram em situações ligadas à defesa de pessoas LGBTQIA+ ou em contextos envolvendo a comunidade, o que indica como a violência, em alguns casos, transborda os limites do grupo diretamente alvo.

Uma juventude ainda exposta à violência

Quando os dados são organizados por perfil, o recorte etário e de identidade ajuda a dimensionar quem está mais exposto à violência. Entre as vítimas de 2025, homens gays aparecem como maioria absoluta, com 156 casos (60,7%).

Em seguida estão 46 mulheres trans (17,9%), 18,7% travestis, além de 9 pessoas bissexuais (3,5%), 4 lésbicas (1,6%), 3 homens trans (1,2%) e 3 pessoas heterossexuais (1,2%). Em 16 casos (6,2%), não havia informação disponível.

https://exame.com/esg/em-busca-da-liberdade-a-historia-do-dia-do-orgulho-lgbtqia/

Nos registros com idade identificada, há um padrão que se repete em diferentes levantamentos: a concentração em faixas mais jovens. Foram 39 vítimas entre 19 e 30 anos, e 37 entre 31 e 45 anos.

Ainda que os números não esgotem o universo da violência, eles ajudam a delinear um perfil de maior vulnerabilidade em fases economicamente e socialmente ativas da vida.

Brasil no topo da violência contra pessoas trans

No recorte específico da população trans, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) contabilizou 80 assassinatos em 2025. O número representa queda de cerca de 34% em relação a 2024, quando foram 122 casos.

A redução, porém, não se traduz automaticamente em mudança estrutural. A própria entidade afirma que o Brasil segue como o país com maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo. Além disso, o estudo aponta aumento nas tentativas de homicídio em 2025, o que sugere deslocamento da violência letal para formas igualmente graves, ainda que nem sempre convertidas em morte.

No recorte geográfico, a violência se distribui de forma desigual, mas com concentração clara. Ceará e Minas Gerais lideram o ranking de assassinatos de pessoas trans, com 8 casos cada. Regionalmente, o Nordeste concentra 38 mortes, seguido pelo Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6).

Em uma leitura de mais longo prazo, o estado de São Paulo aparece como o mais letal entre 2017 e 2025, com 155 mortes de pessoas trans registradas.

Violência fora das estatísticas

Se os dados de homicídios ajudam a dimensionar a face mais extrema da violência, os registros de violência não letal indicam um campo mais amplo e cotidiano de vulnerabilidade.

Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), os casos de homofobia e transfobia não letais cresceram 52% entre 2023 e 2024, passando de 1.633 para 2.480 registros.

A distribuição desses casos também não é homogênea. São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará, Paraná e Distrito Federal concentram os maiores volumes.

Ao mesmo tempo, o próprio levantamento chama atenção para lacunas importantes: estados como Amazonas, Bahia e Rio de Janeiro não apresentaram dados, enquanto o Pará não computou registros.

Nesse conjunto, entram diferentes formas de violência que vão além da agressão física: ameaças, intimidação, violência psicológica e moral, lesão corporal, violência sexual, discriminação institucional.

O que o país acredita sobre si mesmo

A percepção social sobre o tema também aparece em dados de opinião. Uma pesquisa PoderData de janeiro de 2025 indica que 74% dos brasileiros acreditam que existe homofobia no país. Outros 20% dizem não perceber preconceito contra a comunidade LGBTQIAP+ e 6% não souberam responder.

Esse dado ajuda a tensionar uma contradição frequente em debates públicos: a coexistência entre reconhecimento do problema e dificuldade de enfrentamento estruturado.

População estimada e invisibilidades estatísticas

Em termos demográficos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que o Brasil tenha 2,9 milhões de pessoas homossexuais ou bissexuais, o equivalente a 1,8% da população com 18 anos ou mais. Dentro desse grupo, são 1,8 milhão de homossexuais e 1,1 milhão de bissexuais.

O instituto também registra 100 mil em “outra orientação”, além de 1,7 milhão que não souberam responder e 3,6 milhões que recusaram a resposta.

No entanto, o Censo 2022 não incluiu perguntas sobre identidade de gênero, o que limita a construção de uma fotografia estatística mais ampla.

Trabalho, renda e permanência em espaços formais

No mercado de trabalho, diferentes levantamentos apontam barreiras persistentes de inserção e permanência. Uma pesquisa do Datafolha indica que apenas 4,5% dos empregos formais eram ocupados por pessoas LGBTQIA+, enquanto pessoas trans ocupavam 0,38% das vagas.

Outro estudo, agora da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual Paulista, conta 33% das empresas brasileiras afirmam não contratar pessoas LGBTQIA+ para cargos de liderança. Já levantamento do Instituto Ethos/Ipec mostra que apenas 3,2% das grandes empresas possuem ações afirmativas voltadas à inclusão de pessoas LGBTI+ em cargos de direção.

A presença em posições de liderança também é reduzida: apenas 8% das lideranças e 6% das presidências são ocupadas por pessoas LGBTI+.

Uma pesquisa do Infojobs de 2025 ajuda a detalhar a experiência cotidiana por trás desses números, ainda muito marcada pela violência. Segundo o levantamento, 72,7% dos profissionais LGBTQIAPN+ afirmam já ter sofrido algum tipo de preconceito no trabalho, e 64% dizem que isso ocorreu mais de uma vez.

O cenário  de mudanças em políticas de diversidade ao redor do mundo — especialmente desde que Donald Trump tomou posse novamente como presidente dos Estados Unidos — também é refletido no Brasil, mesmo que a maioria das empresas afirme não ter alterado a forma como o tema entra em suas prioridades. Metade dos entrevistados (51%) percebe retrocesso nas políticas de diversidade em 2025, enquanto 56% afirmam que suas empresas nunca implementaram ações afirmativas.

Entre queda pontual e persistência estrutural

Os diferentes recortes de 2025 desenham um quadro que não se organiza em uma única direção. Há queda em alguns indicadores de mortes violentas, mas manutenção de níveis elevados de letalidade e aumento de registros não letais. Há também concentração regional, subnotificação em estados e permanência de padrões de violência contra pessoas trans em escala global.

É sob esses números que o Brasil celebra o Dia do Orgulho LGBTQIAP+.  O conjunto dos dados indica que, mesmo com variações anuais, a violência contra a população LGBT+ no Brasil permanece como um fenômeno multifacetado — que atravessa desde agressões cotidianas, violências silenciosas e e escondidas sob brincadeiras até homicídios, e se estende para fora das estatísticas de morte, nas formas menos visíveis de exclusão social e econômica.

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