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Dia da Favela: conheça a história do 4 de novembro, nas palavras de Celso Athayde, da Cufa

A origem do termo “favela” remonta à história de Canudos, levante popular no sertão baiano em 1896. Para Athayde, favela é potência

Se fossem um estado, as favelas seriam o quarto maior em população e o quinta em renda (iStockphoto/Getty Images)

Se fossem um estado, as favelas seriam o quarto maior em população e o quinta em renda (iStockphoto/Getty Images)

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Celso Athayde*

4 de novembro de 2022, 09h59

Para que os Historiadores tomem nota, a origem do termo “Favela”, hoje espaço de resistência e resiliência, remonta à histórica Canudos, um levante de resistência popular no sertão baiano em 1896. Canudos, sob a liderança de Antônio Conselheiro, foi um ajuntamento formado por mais de 25 mil pessoas que se aliaram na busca por melhores condições de vida  já naquela época, século 19, na luta contra a seca nordestina, contra a falta de oportunidades e contra o total desamparo institucional das autoridades competentes. Como é de costume no tratamento que o Brasil dá aos manifestantes, o governo enviou soldados do Exército para sufocar o movimento, provocando uma verdadeira carnificina.

Para completar, os militares que lutaram na guerra foram enganados. Eles pegaram navios do Rio de Janeiro até a Bahia com a promessa de ganhar o soldo e terras após o fim da batalha contra o povo de Canudos, mas ao retornarem não receberam nem um e nem outro. Sonhando com plantações e agricultura nas terras prometidas, umas das sementes trazidas do sertão baiano pelos “heróis” foram as mudas de uma planta conhecida como Favela ou Faveleiro.

Enquanto os combatentes “travavam uma nova luta”, agora em solo carioca, a luta para que o Governo cumprisse com o prometido e assim recebessem suas posses, eles permaneciam entre a sede do 1º Batalhão do Exército, a Central do Brasil e a Praça Mauá. Nesse intervalo há o Morro da Providência. Os soldados foram ficando por ali e para que as sementes não morressem, foram plantando também por ali. Daí veio o apelido de Morro da Favela para o Morro da Providência.

Três anos depois, pela primeira vez o poder público divulga um documento oficial por meio do delegado de Polícia Enéas Galvão. Ele escreve um documento no dia 4 de novembro de 1900, às 14h30, que é enviado ao governador do Rio de Janeiro da época se referindo ao Morro da Providência como uma favela, um lugar, de acordo com o delegado, de desgraça, de lixo, de guerra, de gente estranha e tudo que era ruim.

Então, a gente resolveu transformar essa data numa referência. A Central Única das Favelas (CUFA) juntou 90 mil assinaturas e transformamos a data no Rio de Janeiro no Dia das Favelas, que hoje é comemorado no país inteiro, não como uma celebração pura e simplesmente para “glamourizar” a existência da favela, até porque o que queremos mesmo é um projeto de habitação, transporte e segurança, para que pessoas que moram distante do Centro não sofram porque não conseguem ônibus com dignidade, não sofram porque a milícia e o tráfico estão tirando as casas das pessoas, então quanto menos favela melhor.

Por isso queremos que você, de qualquer favela, faça no dia de hoje, neste 4 de novembro, um gesto por essa data, que dê um abraço no pai, entregue uma flor à professora da sua favela, liga para alguém, mande uma mensagem, corte um bolo, a gente quer que hoje seja um dia que as pessoas celebrem, protestem, reconheçam aquilo que é feito e produzido nesses locais Brasil adentro. Carentes são eles, Favela é potência!

*Celso Athayde é CEO da Favela Holding e um dos fundadores da Central Única das Favelas (Cufa)