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Da previsão do tempo ao fechamento de pistas: a estratégia da Motiva para o El Niño

Companhia de transporte mapeou vulnerabilidades dos ativos, criou protocolos de emergência e passou a incorporar cenários climáticos de longo prazo ao planejamento de investimentos

Motiva: Após episódios de deslizamentos e alagamentos, operadora de infraestrutura estruturou modelo que une sustentabilidade, engenharia e segurança operacional (CCR MOBILIDADE/Divulgação)

Motiva: Após episódios de deslizamentos e alagamentos, operadora de infraestrutura estruturou modelo que une sustentabilidade, engenharia e segurança operacional (CCR MOBILIDADE/Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 05h44.

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Quando chuvas intensas atingiram a Rio-Santos, no trecho entre Rio de Janeiro e São Paulo, a Motiva viu um cenário que colocaria à prova seus protocolos de emergência.

Em dois dias, foram registrados cerca de 700 milímetros de chuva, volume suficiente para afetar aproximadamente 400 pontos da rodovia, com danos em taludes, desmoronamentos e impactos em áreas próximas à pista.

O episódio passou a ser uma referência interna para a revisão da forma como a companhia, uma das maiores operadoras de infraestrutura de transporte do país, lidaria com eventos climáticos extremos.

Desde então, a Motiva ampliou a integração entre sustentabilidade, engenharia e operação para criar uma estratégia de resiliência climática que envolve suas concessões rodoviárias e as linhas 4, 5, 8 e 9 de trens metropolitanos.

A preparação ganhou novo foco com a previsão de chegada de um novo ciclo de El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e que pode alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões.

Para a companhia, porém, o fenômeno não é tratado como um evento isolado, mas como parte de uma agenda permanente de avaliação de riscos.

“A estratégia de resiliência climática é viva”, afirmou Juliana Maria da Silva, diretora de sustentabilidade da Motiva. “A gente continua monitorando tudo que está acontecendo.”

Segundo ela, a empresa trabalha com dois horizontes. Um deles é operacional, voltado para decisões do dia a dia, como alterar uma rotina de manutenção diante de uma previsão de chuva intensa. O outro é estratégico, com projeções de longo prazo baseadas em cenários climáticos.

Do risco climático ao impacto financeiro

Um dos movimentos feitos pela companhia foi transformar riscos climáticos em informações financeiras para apoiar decisões de investimento.

Segundo Juliana, a Motiva desenvolveu uma metodologia própria de precificação dos impactos porque não encontrou no mercado uma referência pronta que respondesse à necessidade da empresa de avaliar seus ativos.

Há dois anos, quando perguntaram se existia algum cálculo que desse aproximadamente qual seria esse valor, eu fui atrás do mercado. Procurei consultorias, grandes empresas e ninguém tinha. Nós tivemos que fazer isso sozinhos”, contou Miguel Dau, diretor de Segurança Corporativa e Resiliência Empresarial da Motiva.

O trabalho envolveu a análise dos ativos individualmente, considerando diferentes cenários climáticos. A companhia passou a avaliar, por exemplo, qual seria o impacto financeiro de um evento extremo caso nenhuma ação fosse tomada e quanto custaria implementar medidas de adaptação.

Em fevereiro, a empresa publicou um relatório de transição de sustentabilidade inspirado nas normas do IFRS (International Financial Reporting Standards), conjunto de padrões internacionais de divulgação financeira. O documento apresentou uma faixa de impactos financeiros associados aos riscos climáticos identificados.

A partir desse levantamento, a Motiva passou a priorizar ações de adaptação. Segundo Juliana, cerca de 5 mil medidas foram mapeadas e estão passando por uma matriz de decisão.

Entre os critérios analisados estão a existência de seguro para determinado risco, o valor da franquia, o potencial de impacto financeiro e o investimento necessário para reduzir a exposição.

“Não é só olhar o risco. É entender onde vale a pena investir, qual medida reduz aquele impacto e como isso entra no nosso planejamento”, explicou a executiva.

Clima e biodiversidade entram na mesma matriz de risco

A avaliação da companhia também passou a incluir biodiversidade. Segundo Juliana, a Motiva entendeu que os temas não podem ser tratados separadamente. “Não dá para desconectar a agenda de clima e biodiversidade. A natureza afetada também afeta a temperatura, e a gente tem trabalhado essas agendas de forma muito conectada”, afirmou.

A empresa aderiu à Taskforce on Nature-related Financial Disclosures, iniciativa internacional que busca orientar empresas na identificação e divulgação de riscos relacionados à natureza.

A biodiversidade passou a ser considerada um dos critérios utilizados para priorizar medidas de adaptação climática. Na operação, a estratégia ganhou uma camada de monitoramento permanente.

Miguel Dau explica que a resiliência climática da companhia é dividida entre planejamento estratégico e resposta operacional. Para essa segunda frente, a empresa estruturou uma rede de monitoramento com parceiros meteorológicos e sistemas de acompanhamento em tempo real.

A Motiva utiliza ainda informações da Climatempo e de outros parceiros para acompanhar previsões e condições como chuva, vento, temperatura, risco de incêndios e movimentação de sistemas meteorológicos.

Nas rodovias, as 13 concessões administradas pela empresa são acompanhadas por um centro integrado de controle localizado em Jundiaí, em São Paulo.

“O conceito é conseguir consolidar tudo em um único centro. Eu não teria capacidade de aplicar individualmente em todas as rodovias o que conseguimos fazer de forma integrada”, disse Dau.

A partir dessas informações, equipes avaliam se determinado trecho precisa entrar em estado de alerta ou se medidas mais severas devem ser tomadas, como alteração de tráfego ou fechamento preventivo.

A companhia também utiliza monitoramento geotécnico, com acompanhamento da estabilidade de solos e encostas.

Segundo Fausto Camilotti, diretor de operações da Motiva Rodovia, esse modelo já levou a quatro fechamentos preventivos de rodovias a partir de riscos de deslizamentos. “Fechamos a estrada muito antes do escorregamento acontecer. Por isso ninguém se machucou”, afirmou.

Os aprendizados de eventos extremos

A experiência com eventos climáticos recentes mudou protocolos internos. Fausto conta que, após o episódio da Rio-Santos, a empresa revisou seus planos de ação para considerar diferentes combinações de risco, como excesso de chuva, vento e calor.

“Naquele momento, vivemos uma situação de bastante caos, com fechamento integral da pista e vários sinistros. Aprendemos com aquela situação e revisamos os protocolos”, afirmou.

O trabalho passou a combinar obras físicas, como melhorias de drenagem e reforço de taludes, com monitoramento e planos de emergência.

“Não adianta nada eu ter um risco de deslizamento de talude e simplesmente reforçar o talude. É um conjunto de ações que resolve a causa raiz: melhoria da drenagem, reforço, monitoramento e manutenção”, disse Juliana.

A empresa também criou planos específicos para proteger colaboradores em situações extremas.

Durante a preparação para possíveis impactos climáticos no Sul do país, a companhia realizou o mapeamento georreferenciado das residências de funcionários em áreas vulneráveis e chegou a estruturar uma operação de retirada emergencial com apoio aéreo caso fosse necessário.

Segundo Fausto, a iniciativa faz parte de uma lógica de prioridade definida pela companhia: primeiro proteger pessoas, depois recuperar a operação.

A lógica da resiliência: vidas, operação e reputação

Miguel Dau resume a política de resiliência da companhia em três pilares aprovados pelo conselho de administração: salvar vidas, retomar a atividade com segurança e proteger a reputação da empresa.

“O primeiro é salvar vidas. Primeiro o colaborador, depois o cliente. Porque se eu não tiver o meu colaborador vivo, ele não atende o cliente”, afirmou.

Para ele, a capacidade de resposta passou a ser um elemento central da operação em um cenário de maior frequência de eventos extremos.

“A palavra resiliência é isso: você ter capacidade de enfrentar uma crise e, se ela impactou o seu negócio, com que velocidade você retoma a normalidade.”

O desafio de transformar previsão em investimento

A estratégia da Motiva ainda está em expansão. Segundo Juliana, as medidas de adaptação serão incorporadas ao longo das concessões e associadas ao cronograma de obras da companhia.

A executiva destaca que o planejamento precisa continuar sendo atualizado conforme novas projeções climáticas surgem.

“Não estamos esperando as coisas se concretizarem. A estratégia é manter esse olhar vivo, porque o clima é dinâmico”, afirmou.

O desafio, nesse processo, é transformar informações sobre eventos que podem acontecer no futuro em decisões concretas no presente — seja uma obra de drenagem, uma mudança no calendário de manutenção ou o fechamento preventivo de uma rodovia antes que o risco se materialize.

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