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Da fábrica ao campo: as três frentes do Grupo Boticário para mitigar a crise hídrica

Fabricante de produtos de beleza adapta estruturas internas, melhora os produtos para serem mais biodegradáveis e financia projetos de restauração em nascentes estratégicas

Trabalho passa pela instalação de estação de tratamento de resíduos, tecnologias para testar produtos e a proteção de hectares de floresta (Grupo Boticário /Divulgação)

Trabalho passa pela instalação de estação de tratamento de resíduos, tecnologias para testar produtos e a proteção de hectares de floresta (Grupo Boticário /Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 11 de junho de 2026 às 18h24.

Última atualização em 12 de junho de 2026 às 15h10.

De São José dos Pinhais (PR)* — Em 2020, a região metropolitana de Curitiba viveu a pior seca em 40 anos. Os reservatórios chegaram às mínimas históricas, e a companhia de saneamento local, a Sanepar, precisou implementar o racionamento em algumas regiões. A Bacia do Miringuava, um dos sistemas hídricos que abastece a área, viu sua vazão cair 70%, ou seja, enquanto antes era possível retirar mil litros por segundo, o volume caiu para 300 litros.

É também nesta região que está a sede do Grupo Boticário, com uma unidade em São José dos Pinhais. Além do impacto nas casas e na qualidade de vida da população, a fabricante de itens de beleza e higiene percebeu os riscos crescentes para sua operação diante do aumento dos eventos climáticos extremos e da ocorrência cada vez mais frequente de secas e estiagens.

Recentemente, a companhia elaborou uma pesquisa que aponta o impacto futuro da escassez de recursos naturais sobre a fabricação. O resultado foi que quase a totalidade do que é produzido depende de água na formulação e que a falta desse recurso acarretaria, de longe, os piores impactos para a operação. "A água é o capital natural crítico para a nossa operação", conta Luis Meyer, diretor de ESG do Grupo Boticário.

Desde então, a fabricante trabalha em três frentes a partir da estratégia para o recurso hídrico: garantir eficiência no consumo, adaptar produtos para evitar contaminação de recursos naturais e restaurar bacias hidrográficas em parceria com agricultores.

"Conseguimos chegar a produtos e operações ecoeficientes, mas também gerar impacto para 'fora de casa'. Hoje, trabalhamos soluções considerando mananciais críticos e como incorporar estratégias baseadas na natureza para o trabalho do grupo", explica Meyer.

A EXAME foi até São José dos Pinhais para conhecer as instalações da companhia e entender como o Grupo Boticário atua na proteção desse recurso.

Eficiência hídrica na fábrica

O trabalho começa internamente: desde 2023, o Grupo Boticário instalou poços na unidade, que hoje respondem por cerca de 60% a 70% do consumo da planta. O restante é fornecido pela concessionária Sanepar.

A ideia partiu de garantir que fosse possível manter a produção mesmo em períodos de poucas chuvas e, ao mesmo tempo, reduzir a pressão sobre a rede do bairro. Wellington Baldo, gerente de sustentabilidade ambiental na empresa, explica que a água captada pelos poços passa por filtragem química para garantir que esteja adequada ao uso em itens de beleza e higiene.

Ela é aplicada principalmente em produtos faciais, como maquiagens e batons, enquanto a que vem da concessionária é usada em produtos cremosos.

Captação própria: Grupo Boticário implementou poços internos para reduzir a pressão hídrica em São José dos Pinhais (Letícia Ozório/Exame)

"A matéria-prima vai para o reator, onde recebe a mistura conforme a fórmula. O desafio principal é a higienização, que precisa de volume maior de água", explica Baldo. Cada ciclo de limpeza consome cerca de 200 litros.

A água usada para limpar áreas comuns, irrigação de jardins e em alguns processos mais nobres de refrigeração e geração de vapor passa pela Estação de Tratamento de Reúso, inaugurada em 2023, após um primeiro tratamento na ETE da unidade. Ao todo, o trabalho demandou investimentos de R$ 10 milhões e aumentou o uso de água de reúso de 20% para 60%. A estação funciona 24 horas por dia e processa 550 metros cúbicos diariamente.

Estação de tratamento de efluentes do Grupo Boticário: 60% da água de reuso é usada pela companhia internamente. O restante retorna para os rios próximos (Letícia Ozório/Exame)

Além da filtragem com bactérias aeróbicas, que destroem a carga orgânica, o líquido ainda passa por dois sistemas: ultrafiltração, que permite o uso em vasos sanitários e jardins, e osmose reversa, aplicada em caldeiras e torres de refrigeração.

Recuperação de bacias e nascentes

A frente mais complexa ligada à água é gerida pela Fundação Grupo Boticário, órgão criado para proteger recursos naturais. Já são mais de 36 anos de trabalho, sendo 20 dedicados à gestão hídrica.

Um dos braços da Fundação é o Movimento Viva Água, que atua com produtores rurais locais para incentivar e financiar a restauração florestal próximo a bacias estratégicas, como o Rio Miringuava. Durante a seca de 2020, áreas com maior cobertura vegetal mantiveram 50% do volume de água original, enquanto propriedades degradadas ficaram com 6% a 10%, de acordo com dados da Fundação.

O projeto também atua na Baía de Guanabara (RJ), no Cantareira (SP), Joanes e Jacuípe (BA), e seleciona uma nova bacia no Ceará para próximos ciclos. A iniciativa apoia comunidades sob alta pressão hídrica, especialmente grandes capitais e regiões de operação do grupo, que inclui as fábricas em Camaçari (BA) e Pouso Alegre (MG), ainda em construção.

Rio Miringuava: nascente em meio a propriedade apoiada pelo Boticário. Estratégia é financiar restauração como forma de garantir a preservação hídrica (Letícia Ozório/Exame)

Só na Grande Curitiba, o programa já mobilizou R$ 4 milhões em investimentos para turismo sustentável, agricultura regenerativa e reflorestamento e deve alocar mais R$ 2 milhões.

Um exemplo é a pousada ecológica de Leonardo Sena, proprietário do Rancho do Sena, na Colônia Murici, em São José dos Pinhais. O chalé, ao lado da plantação de frutas e hortaliças, ocupa cinco hectares protegidos com financiamento do Grupo Boticário. Ali, uma trilha desemboca no Rio Miringuava.

O apoio garante o plantio de novas mudas, especialmente da araucária, árvore símbolo do Paraná, que enfrenta destruição: restam apenas cerca de 4,3% de sua vegetação original.

"A cada nova muda, preciso subir a trilha com um perfurador de solo, um equipamento bem pesado. Daí volto e subo a trilha de novo, agora levando as mudas, também pesadas. Leva tempo e muito esforço físico. É por isso que a restauração florestal é um processo caro", explica.

Produtos seguros para o meio ambiente

A principal aliada na produção de itens seguros para o meio ambiente é a I.A.R.A. — Índice de Avaliação de Risco Ambiental. Implementada há 10 anos, a plataforma aplica metodologia pioneira em produtos enxaguáveis, garantindo que substâncias liberadas em corpos d’água sejam seguras.

De acordo com Andrezza Canavez, gerente de segurança de produto e métodos alternativos, a plataforma utiliza ferramentas digitais para avaliar a estrutura química de determinadas moléculas e, com a ajuda de inteligência artificial preditiva, avalia o efeito sistêmico e de irritação não só para os rios e oceanos, mas para as espécies de peixes e corais lá presentes.

"A plataforma determina o risco a partir de uma pontuação, já que não basta ser biodegradável. Os ingredientes não podem apresentar nenhum grau de ecotoxicidade ou de bioacumulação, processo em que um organismo retém e acumula substâncias químicas tóxicas", explica.

Com o sistema, a companhia substituiu fórmulas com certos silicones, microplásticos e ácido poliláctico por apresentarem riscos ambientais. Hoje, 98% dos shampoos e 100% dos sabonetes e óleos enxaguáveis atendem aos critérios ideais de biodegradabilidade.

*A repórter viajou a convite do Grupo Boticário.

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