ESG

Oferecimento:

LOGO SITE YPÊ
LOGO SITE AFYA
LOGO SITE COCA COLA FEMSA
LOGO SITE COPASA

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Busca por minerais críticos causa crise ambiental e de saúde, diz ONU

Relatório do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde aponta que custos da extração recaem sobre comunidades mais pobres

 (ONU/Reprodução)

(ONU/Reprodução)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 3 de maio de 2026 às 08h01.

A transição digital e a mudança para matrizes de energia limpa estão gerando uma crise ambiental e de saúde oculta que o mundo falha em monitorar ou enfrentar. O alerta vem de uma investigação profunda do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH).

O relatório Critical Minerals, Water Insecurity and Injustice revela que os custos da extração de minerais críticos recaem desproporcionalmente sobre as comunidades mais pobres, enquanto os benefícios se acumulam no Norte Global na forma de veículos elétricos (EVs), sistemas de energia renovável e infraestrutura de Inteligência Artificial (IA).

"Não se pode chamar uma transição de verde, sustentável e justa se ela simplesmente desloca o dano ambiental dos ricos para os pobres, e de um grupo de pessoas ou região para outro", afirma Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e Stockholm Water Prize Laureate de 2026. O estudo não questiona a necessidade das tecnologias limpas, mas denuncia quem está pagando a conta do progresso da humanidade.

Minerais críticos

A mineração de minerais críticos exige volumes de água que competem diretamente com a sobrevivência humana e a agricultura. Em 2024, a produção global de lítio de aproximadamente 240 mil toneladas consumiu 456 bilhões de litros de água. Para efeito de comparação, este volume seria suficiente para suprir as necessidades domésticas anuais de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana — quase a população total da Tanzânia.

Os impactos locais são devastadores:

  • Chile (Salar de Atacama): A mineração de lítio responde por até 65% do uso regional de água. Entre 1990 e 2015, o nível dos lençóis fráticos em áreas próximas a poços de salmoura caiu até nove metros.
  • Bolívia (Uyuni): Comunidades locais enfrentam dificuldades crescentes para cultivar quinoa, sua base econômica e nutricional, devido à escassez hídrica provocada pela mineração.
  • Estados Unidos: A mina de lítio de Thacker Pass, em Nevada, deve consumir 3,5 bilhões de litros de água anualmente, desviando recursos de agricultores do Quinn River Valley.

Globalmente, 16% das reservas de minerais críticos estão em regiões de alto estresse hídrico, e 54% dos projetos de mineração estão localizados em territórios indígenas ou próximos a eles.

Impacto na saúde

O impacto na saúde pública é descrito como uma crise severa, especialmente na República Democrática do Congo (RDC), maior produtora de cobalto do mundo. O relatório documenta que 72% dos moradores próximos às minas apresentam doenças de pele e 56% das mulheres e meninas sofrem com problemas ginecológicos.

A contaminação por metais pesados está atingindo a próxima geração: as taxas de má-formação congênita em maternidades próximas às áreas de mineração são elevadas. Foram registrados 10,9 casos de defeitos no tubo neural (que afetam o cérebro e a coluna do bebê) e 8,8 casos de defeitos nos membros inferiores para cada 10.000 nascimentos. O estudo revela ainda que cerca de 30% das minas na RDC empregam crianças, algumas com apenas sete anos de idade, trabalhando sem qualquer equipamento de proteção.

Entenda o que são minerais críticos – e por que eles podem ser uma oportunidade para o Brasil

Para cada tonelada de minerais de terras raras produzida, são geradas 2.000 toneladas de resíduos tóxicos. Em 2024, a produção global gerou 707 milhões de toneladas de lixo — o suficiente para formar uma fila de caminhões capaz de dar a volta na Linha do Equador 13 vezes.

A urgência do Acordo de Paris criou o que os cientistas chamam de "paradoxo": cumprir as metas climáticas exigirá um aumento de nove vezes na demanda por lítio e o dobro da demanda por cobalto e níquel até 2040. "Sem mecanismos de controle eficazes, os próprios alvos desenhados para proteger o planeta podem acelerar crises de água, saúde e injustiça", alerta Madani.

Injustiça econômica

A desigualdade econômica é o alicerce desse sistema. Na RDC, mais de 80% da produção mineral é controlada por mineradoras estrangeiras, enquanto 73,5% da população vive com menos de US$ 2,15 por dia. O país detém 50% das reservas de água doce da África, mas 64% de seu povo não tem acesso básico a água potável em 2024.

O relatório do UNU-INWEH pede uma mudança fundamental na governança global, com recomendações claras:

  • Padrões Obrigatórios: Substituir a conformidade voluntária por normas internacionais de due diligence legalmente vinculativas.
  • Sistemas de Descarga Zero: Controle estrito de águas residuais e monitoramento independente de metais pesados.
  • Economia Circular: Investimento em reciclagem avançada de baterias e componentes eletrônicos para reduzir a pressão sobre a mineração primária.
  • Consentimento Indígena: Proteção legal para o Consentimento Livre, Prévio e Informado (FPIC) de comunidades afetadas.

"Se não corrigirmos as falhas de governança, teremos construído a economia de energia limpa do futuro sobre as mesmas injustiças extrativas da economia fóssil do passado", conclui o Dr. Abraham Nunbogu, autor principal do estudo.

Acompanhe tudo sobre:MineraçãoEnergia renovávelMineradorasTransição energética

Mais de ESG

As dez maiores usinas de energia solar do mundo — e quantas são brasileiras

CGOB: o que é o certificado de garantia de origem de biometano e o que falta para operacionalizá-lo

R$ 5 milhões em IA e tecnologia: programa da ENGIE quer turbinar a energia solar no Brasil

LRCAP 2026: segurança energética e os sinais de um sistema em transição