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Banco do Brasil e BEI assinam crédito de 250 milhões de euros para mulheres na Amazônia

Anunciada na COP30, a parceria prevê apoiar 50 mil empreendedoras em três anos, mas taxa, prazo e ticket ainda não foram definidos

Empreendedorismo feminino na Amazônia: BB faz acordo de 250 milhões de euros e aposta em crédito e capacitação para 50 mil mulheres.

Empreendedorismo feminino na Amazônia: BB faz acordo de 250 milhões de euros e aposta em crédito e capacitação para 50 mil mulheres.

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 1 de setembro de 2026 às 14h39.

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O Banco do Brasil fechou com o BEI Global, agência de desenvolvimento do Banco Europeu de Investimento, um financiamento de 250 milhões de euros destinado a mulheres que empreendem na Amazônia Legal.

A assinatura aconteceu em Luxemburgo, sede do BEI, e formaliza um compromisso que vinha sendo negociado havia meses.

Os 250 milhões de euros não entram de uma vez. O valor será desembolsado de forma gradual ao longo de três anos, conforme o Banco do Brasil concede o crédito às empreendedoras, com a meta de alcançar 50 mil mulheres à frente de negócios na região.

O acordo teve origem na COP30, realizada em Belém em novembro do ano passado. Foi lá que as duas instituições anunciaram a intenção de fazer a operação, por meio de um memorando de entendimentos.

A assinatura desta semana é o passo seguinte, que transforma a carta de intenções em contrato com valor e prazo definidos.

Mais do que um ponto de chegada, o anúncio marca uma etapa dentro de um planejamento que ainda se desenha. Boa parte das definições operacionais virá nos próximos meses, à medida que o recurso começa a ser alocado.

Um contrato assinado, um desenho em aberto

A meta de 50 mil mulheres não é uma obrigação prevista em contrato. Trata-se de um potencial estimado, como explica José Alves Cardoso, head de Sustentabilidade do banco.

O mesmo vale para as condições que vão determinar se o dinheiro chega ou não à ponta. Não há taxa definida, tampouco prazo padrão ou ticket médio calculado.

O que existe é um teto de 45 mil euros por operação e a informação de que o funding poderá alimentar mais de uma linha de crédito, com preços que variam conforme o perfil de cada tomadora.

A justificativa do banco é de ordem técnica. Como o dinheiro será aplicado de forma gradual, Cardoso pondera que taxa e prazo dependerão de um cenário macroeconômico que pode mudar bastante ao longo dos três anos, uma lógica compreensível para uma carteira que só estará inteiramente montada ao fim do período.

A ressalva importa porque, num crédito que se apresenta como ferramenta de inclusão, a taxa de juros é o que de fato separa o acesso da armadilha

Um financiamento caro demais pode empurrar a empreendedora para o endividamento em vez de destravar seu negócio. Por isso o custo efetivo cobrado na ponta, mais do que o volume total anunciado, será o número a acompanhar quando as primeiras contratações começarem a sair.

Quem entra pela porta principal

A linha financiada pelo BEI é voltada a empresas já constituídas. A mulher sem CNPJ, sem garantia e sem histórico bancário - perfil que descreve boa parte de quem empreende na região - não entra por essa porta, e sim por outras frentes que o banco vem montando em paralelo.

O recorte importa porque o território tem características próprias. No Norte do país, mulheres pretas, pardas e indígenas formam a maioria das empreendedoras formais e informais, com índices acima de 70%, segundo levantamentos com base na PNAD Contínua do IBGE.

A taxa de empreendedorismo inicial feminino também supera a média nacional, conforme o Global Entrepreneurship Monitor.

Só o estado do Amazonas reúne cerca de 175 mil mulheres à frente de pequenos negócios, de acordo com o Sebrae. É esse contingente que esbarra no acesso ao crédito antes mesmo de discutir taxa.

Para essa fatia que ainda não chegou ao balcão, o banco aposta numa estrutura paralela. São os hubs de sociobioeconomia montados no Pará e no Amazonas, o Pronaf e a formação de agentes de crédito recrutados nas próprias comunidades, que funcionam como habilitadores para o financiamento.

Henrique Leite de Vasconcellos, gerente executivo de Negócios e Soluções ASG do Banco do Brasil, contou que 105 desses agentes passaram pelo treinamento em junho, em parceria com Banco Mundial e BID, com meta de chegar a 300 até o fim do ano.

A esse desenho soma-se uma camada de recursos que não são empréstimo. O BB ainda negocia com o governo de Luxemburgo 700 mil euros em doações, dinheiro que não precisa ser devolvido, para preparar essas mulheres antes mesmo de elas pedirem crédito.

O crédito, portanto, é só a parte visível de um arranjo maior. A autonomia econômica prometida às 50 mil mulheres vai depender tanto do dinheiro do BEI quanto de tudo o que o cerca, dos hubs aos agentes treinados dentro das comunidades.

A engenharia da captação

Vista de cima, a operação com o BEI é maior do que os 250 milhões de euros anunciados. O guarda-chuva pode chegar a 350 milhões, e a parcela restante, de 100 milhões, fica reservada a um escopo diferente, ligado à transição energética na Amazônia Legal.

Para essa fatia, ainda não há previsão de contratação divulgada. A operação se encaixa numa estratégia mais ampla de captação. Na Agenda 30, o Banco do Brasil assumiu o compromisso de levantar R$ 100 bilhões em recursos, dos quais cerca de R$ 69 bilhões já entraram.

A carteira de finanças sustentáveis somava R$ 431,5 bilhões em junho, a caminho da meta de R$ 500 bilhões até 2030.

O recorte feminino tem lastro histórico na casa. O banco afirma atender 1,3 milhão de empresas dirigidas por mulheres e já liberou mais de R$ 102 bilhões em linhas voltadas a esse público desde 2023

Nessa escala de centenas de bilhões de reais, os 250 milhões de euros representam uma fração da carteira.

Questionados sobre quanto do total sustentável se destina a pequenos negócios e quanto vai para créditos de grande porte, os executivos estimam que cerca de 40% da carteira está voltada ao agronegócio, num conjunto de 3,5 milhões de beneficiários em que predominam os contratos de menor valor.

O que entra na régua

Para medir resultado e impacto, o banco parte de um sistema que já roda em outras de suas captações. Na operação de agora, segundo Vasconcellos, deverão ser acompanhados índices de geração de emprego e renda e o número de contratos fechados, além da redução de emissões, já que o financiamento se destina à Amazônia.

O executivo afirma que tudo deve se converter em um reporte público auditado, atualizado a cada ano, dentro de um arcabouço com mais de vinte indicadores sociais e climáticos que a instituição diz aplicar a tudo o que capta sob o selo sustentável.

Há, porém, um limite no lado ambiental do acordo. Questionado sobre se há algum compromisso mensurável de clima ou de conservação atrelado a ele, Cardoso responde que não.

O executivo pondera que a Amazônia Legal abrange também áreas urbanas, e não só floresta - o que torna o vínculo com a mata mais contextual do que contratual.

A meta de emissões, nesse caso, vem de uma promessa mais ampla da instituição, signatária do Business Ambition, que prevê reduzir os financiamentos de escopo 3

É por esse caminho, e não por uma cláusula específica no crédito, que a operação se conecta ao Acordo Verde entre União Europeia e Brasil e ao Acordo de Paris, marcos que o banco evoca como o lastro político da transação.

De Belém a Antalya

O acordo foi desenhado para viajar. Assinado no calor da COP30, deve reaparecer em novembro próximo, na COP31, em Antalya.

Na Turquia, aliás, esta operação não virá sozinha. Cardoso adianta que o banco pretende levar para a conferência um conjunto de captações voltadas à economia feminina, à transição energética e à agricultura sustentável, enquadrando o pacote como parte de uma estratégia de atração de capital para o Brasil.

Entre uma conferência e outra, o Banco do Brasil terá começado a liberar o dinheiro do BEI. O número que ainda não existe nesta semana, o de quantas empreendedoras de fato acessaram o crédito, será o melhor indicador de que a operação saiu do papel.

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