B3 se prepara para tsunami ESG com renovação do índice de sustentabilidade

Objetivo da bolsa paulista é tornar o ISE mais transparente e objetivo, com maior foco em governança. Mercado de carbono também está nos planos

A B3 sabe que o ESG, conceito que inclui critérios socioambientais e de governança na avaliação dos investimentos, é um caminho sem volta. Fazer o investidor entender como adotar esse modelo é que é o problema. Os critérios são complexos. A conta, nem sempre, segue uma lógica de causa e consequência. E há diversos padrões diferentes de divulgação das informações. 

Por enquanto, a realidade é que as grandes gestoras que abraçaram o ESG como estratégia, caso da BlackRock, a maior do mundo, desenvolveram métodos proprietários de análise. Isso tem sido um diferencial na indústria, portanto, é improvável que o pequeno investidor possa se beneficiar dessa onda por conta própria. 

A B3, no entanto, prepara uma reformulação da principal referência para atuação sustentável das empresas, o seu Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Criado há 15 anos, o ISE é formado por 36 ações de 30 companhias, cujo valor de mercado ultrapassa 1,6 trilhão de reais. Atualmente, é a principal plataforma de informações ESG disponível para o investidor comum. 

O objetivo é tornar o ISE mais atrativo para investidores e empresas. A B3 espera também abrir oportunidades de mercado com o produto. Para isso, irá mudar as métricas de avaliação das empresas, adotando padrões ESG internacionais, e tornar a metodologia mais transparente. 

A primeira fase do projeto consiste em setorizar o questionário aplicado nas empresas. Atualmente, todas as companhias respondem as mesmas perguntas. No novo ISE, um banco como o Itaú, que faz parte do índice, receberá questões diferentes de uma indústria como a petroquímica Brasken, outra companhia do ISE. 

Essa medida serve para aumentar a materialidade da análise, no jargão do setor, que significa dar mais objetividade e clareza aos critérios e resultados. Nesse sentido, a B3 deve dar mais ênfase ao G do ESG, ou seja, à governança. Os parâmetros ambientais, carro-chefe da versão atual do ISE, serão substituídos pelo relatório do Carbon Disclosure Project (CDP), entidade sem fins lucrativos que opera um sistema global de divulgação da pegada de carbono das companhias. 

Outra mudança é a inclusão de dados externos à análise, inclusive de notícias sobre as companhias. Ao final da análise, cada empresa terá um score baseado no seu desempenho por dimensão e indicadores, ranking setorial e critérios de materialidade (específicos para cada setor). Adicionalmente, serão consideradas informações sobre a reputação da companhia, com dados externos, e uma análise baseada em benchmarks ESG internacionais. 

Ainda não há previsão para a conclusão dos trabalhos. Paralelamente, a B3 também trabalha no desenvolvimento de uma plataforma para a negociação de créditos de carbono. A expectativa é de que esse mercado seja regulado, globalmente, em dezembro do próximo ano, na Conferência do Clima da ONU (COP25), que acontecerá na Escócia. O projeto, no entanto, ainda é embrionário. 

Fundos ESG estão bombando

No segundo trimestre, a indústria de fundos ESG  alcançou 1 trilhão de dólares em patrimônio, com um crescimento de 25% — quase o dobro da média do mercado, que foi de 13%. No Brasil, em termos de volume, o segmento ainda não é relevante. Mas vem crescendo rapidamente. Os fundos registrados como Ações Sustentabilidade/Governança pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) possuem um patrimônio somado de 543,1 milhões de reais. Entre julho de 2019 e julho deste ano, essa categoria registrou um crescimento de 26%, de acordo com relatório produzido pela Exame Research

Empresas e fundos de investimentos ESG, em diversos mercados globais, demonstraram maior resiliência aos efeitos recessivos da covid-19. Um levantamento feito pela BlackRock aponta que 94% dos produtos de investimento sustentáveis, seguidores dos princípios ESG, tiveram performance melhor do que seus pares, no primeiro trimestre deste ano. 

Para Juliana Machado, especialista em fundos de investimento da Exame Research, os fundos ESG estão indo melhor porque filtram a capacidade coordenada da empresa de atuar de forma sistêmica. “É sobre economia de custos, eficiência de gastos, um ecossistema mesmo”, afirma Machado. “No fim, a preocupação socioambiental se reflete em empresas mais eficientes e, consequentemente, valiosas.”

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