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A região concentra cerca de 58% das reservas identificadas de lítio e 35% das reservas globais de cobre (Andriy Onufriyenko/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 2 de abril de 2026 às 16h58.
Última atualização em 2 de abril de 2026 às 17h11.
A América Latina pode ser a "bateria verde" do mundo, mas corre contra o tempo. Um novo estudo da McKinsey mostra que a região está diante de uma das últimas janelas para "crescer antes de envelhecer".
Desde 2010, perdeu participação no PIB mundial: de 7% a cerca de 6,4%, com tendência de queda. "Se não fizermos nada, a consequência é irrelevância", resume Nelson Ferreira, líder global da consultoria, em entrevista à EXAME.
Por outro lado, há uma janela de oportunidade: a região reúne ao mesmo tempo e de forma raramente combinada três vantagens estratégicas para liderar a economia verde: energia renovável abundante e barata, reservas de minerais críticos e liderança em biocombustíveis.
Se conseguir destravá-las, a estimativa é que a região teria potencial para elevar seu PIB de US$ 6,5 trilhões para mais de US$ 10 trilhões, com renda per capita chegando a US$ 14 mil ou US$ 15 mil.
“A América Latina pode ser dona natural da transição energética, mas precisa acelerar investimentos e execução para não perder essa janela histórica", diz o especialista.
Em minerais críticos, os números falam por si: a América Latina concentra cerca de 58% das reservas identificadas de lítio e 35% das reservas globais de cobre, dois insumos centrais para a eletrificação da economia.
As margens são até 2,3 vezes maiores do que a média global, graças a custos de extração mais baixos. Em biocombustíveis, já responde por 27% da produção mundial, com o Brasil sozinho representando 93% desse volume e consolidado como segundo maior produtor de etanol do mundo.
No setor de energia, Chile e Argentina aparecem entre os países mais competitivos em solar e eólica, respectivamente.
E em hidrogênio verde e derivados (chamados power-to-X), há um potencial para ampliar suas exportações em cerca de US$ 60 bilhões por ano até 2040, desde que atraia os US$ 275 bilhões em investimentos necessários para capturar essa oportunidade.
Por outro lado, o estudo mostra uma contradição: apesar de todas essas vantagens, a região investe apenas cerca de 20% do PIB e ainda concentra capital em setores de menor complexidade.
Isso compromete sua capacidade de subir na cadeia de valor, justamente onde estão os maiores retornos da transição energética: equipamentos, processamento, tecnologia, green steel, Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e data centers verdes.
O risco real, como resume Nelson, é o de sempre: exportar recursos naturais enquanto outros países capturam o valor agregado.
Para o especialista a palavra-chave para superar o principal gargalo que separa o potencial da realidade é produtividade.
Ele defende a criação de polos industriais: "modelos de condomínios produtivos", como os que existem na Europa, nos EUA e na China e que concentrem empresas, infraestrutura compartilhada e talentos em torno de setores estratégicos como hidrogênio verde, baterias, biocombustíveis e amônia de baixo carbono.
"Faz muito tempo que o setor público não senta com as empresas para eleger esses polos que sejam massa crítica", afirma.
Um dos pontos centrais da análise é sobre o papel de tecnologias para o armazenamento de energia. Para o líder da consultoria, as baterias são o elo que falta para destravar todo o restante.
"Os sistemas BESS vão fazer para a transição energética o que o Motor Flex fez pelo etanol", compara.
A lógica é a mesma: sem armazenamento flexível e competitivo, a abundância de solar e eólica esbarra na intermitência.
Com baterias em indústrias, comércio e residências, a energia gerada durante o dia poderia ser usada à noite, o excedente poderia voltar à rede, e o consumidor ganharia a mesma liberdade que o "motorista flex tem na bomba".
Um leilão de sistemas de armazenamento previsto para junho no Brasil pode dar um primeiro impulso concreto a esse mercado.
O contexto geopolítico global adiciona urgência: a guerra no Oriente Médio acelerou o movimento dos países para reduzir a dependência energética de combustíveis fósseis e isso abre espaço para a América Latina em duas frentes, aponta a consultoria: na expansão de renováveis e, paradoxalmente, também na produção de petróleo e gás fora das regiões instáveis.
Neste cenário, Argentina, Brasil, Guiana e Venezuela têm reservas que voltam ao radar dos investidores, ao mesmo tempo que fontes limpas podem se tornar mais atrativas.