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Sérgio Rocha, CEO da Agrotools: “Vivemos uma tempestade perfeita para transformar preservação em agenda econômica" (Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 14h38.
Última atualização em 26 de fevereiro de 2026 às 14h46.
Vivemos uma “tempestade perfeita” para transformar a preservação em agenda econômica. É assim que o CEO da Agrotools, Sérgio Rocha, define o atual cenário: o enfraquecimento dos mecanismos privados de controle ambiental, a queda brutal das margens no campo, o avanço da crise climática e a pressão global pela descarbonização formaram uma rara convergência de fatores.
“É um momento único. O produtor está sem margem, os instrumentos tradicionais de controle perderam força e o capital internacional precisa investir em clima. Nunca foi tão favorável", diz em entrevista exclusiva à EXAME.
É nesse contexto que a Agrotools, uma das agtechs mais valiosas do país e apontada pelo mercado como forte candidata a se tornar o próximo unicórnio do agronegócio, lança a maior plataforma de pagamentos por serviços ambientais (PSA) do mundo.
A solução funciona como um marketplace digital que conecta produtores rurais que preservam vegetação nativa a empresas, governos e fundos internacionais dispostos a pagar para evitar o desmatamento e compensar suas emissões.
A iniciativa nasce com um aporte inicial de R$ 80 milhões, provenientes do terceiro leilão do programa Eco Invest, mecanismo do Tesouro Nacional criado para atrair capital estrangeiro para projetos ligados à transição energética, bioeconomia, infraestrutura verde e economia circular.
O valor foi alocado via Itaú, banco que recebeu a maior fatia de recursos do leilão, cerca de R$ 7,6 bilhões em capital catalítico, e que selecionou a Agrotools como uma das plataformas estratégicas para alavancar investimentos sustentáveis.
O objetivo é multiplicar esse montante por quase quatro vezes: a startup pretende captar R$ 300 milhões adicionais em recursos privados, principalmente no exterior, para financiar pagamentos a produtores que mantêm suas florestas em pé.
“O foco é criar um mercado global de preservação ambiental, com escala, credibilidade e retorno financeiro”, destaca o CEO, e faz um alerta: se a solução não ganhar escala, o desmatamento legal vai avançar rapidamente.
"Transformar floresta em ativo econômico é a única saída”, garante.
Embora o pagamento por serviços ambientais seja uma política pública no Brasil desde 2021, a aposta da Agrotools é que sua aplicação no setor privado ainda ocorre de forma fragmentada e em pequena escala.
O lançamento já surge com ambição internacional. Em São Paulo, um evento promovido pela startup nesta semana reuniu representantes de países europeus como Noruega, Alemanha, Holanda, França e Bélgica, que já sinalizaram disposição em pagar por serviços ecossistêmicos para garantir cadeias produtivas livres de desmatamento e com alta governança.
“Pela primeira vez, grandes economias reconhecem publicamente que precisam pagar se quiserem produtos 100% rastreados, segregados e sem desmatar”, diz à EXAME Bernardo Pires, gerente de relações governamentais da empresa.
Segundo a Agrotools, 280 milhões de hectares de vegetação nativa estão dentro de propriedades rurais privadas no Brasil. Desse total, 70 milhões podem ser legalmente desmatados, enquanto 30 milhões possuem alta aptidão agrícola, com solo fértil, boa logística e condições ideais para lavouras e pecuária.
“É exatamente nessas áreas que a devastação vai acontecer nos próximos anos”, afirma o gerente de relações governamentais.
“Hoje, a única forma realmente eficiente de conter o desmatamento legal no Brasil é pagar pela preservação", complementa Bernardo.
O cenário é agravado pelo fim da moratória da soja, pelo adiamento da nova legislação ambiental europeia e pela queda expressiva da rentabilidade agrícola.
“A governança ambiental privada enfraqueceu, enquanto os produtores enfrentam custos elevados, crédito caro e margens apertadas. Sem incentivo financeiro, a tendência é abrir novas áreas”, reforça.
Na prática, o modelo proposto pela Agrotools transforma a floresta em ativo econômico, competindo diretamente com culturas como soja e milho.
“Se você oferece US$ 100 por hectare ao ano, o produtor aceita na hora. Ele ganha cerca de US$ 300 com soja, mas com risco climático, volatilidade de preços e incerteza de crédito. O pagamento pela preservação é renda certa”, afirma Bernardo.
A lógica é peça-chave para o funcionamento da plataforma: produtores cadastram áreas de vegetação excedente à reserva legal, enquanto investidores (empresas, governos e fundos) escolhem onde alocar recursos para compensar emissões, cumprir metas ESG e avançar em suas metas climáticas.
Fundada em 2006, a Agrotools construiu o que considera o maior banco de dados do agronegócio do mundo, alimentado por imagens de satélite, inteligência artificial e informações coletadas em campo.
Por ano, são cerca de 30 milhões de análises por ano, com mapeamento detalhado de propriedades, uso do solo, riscos socioambientais e produtividade. Essa tecnologia é o coração da nova plataforma.
“A desconfiança só acaba quando você mostra, na imagem de satélite, exatamente qual floresta está sendo protegida. O investidor consegue ver onde seu dinheiro está atuando”, explica Bernardo.
Segundo o CEO, o salto tecnológico dos últimos anos tornou viável aquilo que antes era inviável: escalar modelos ambientais com credibilidade.
“Uma análise que levava sete horas hoje é feita em menos de um segundo. Isso permite criar uma infraestrutura global de confiança", complementa.
Para o Tesouro Nacional, o Eco Invest faz parte de uma estratégia mais ampla de criação de um mercado de ativos ambientais capaz de atrair capital internacional.
“Quando olhamos os números da transição para uma economia de baixo carbono, são gigantescos. São centenas de bilhões. Não existe poupança interna suficiente para isso. Então precisamos criar mecanismos que tragam esse capital de fora e internalizem esses recursos no Brasil”, afirma à EXAME, Mario Gouvêa, coordenador do programa Eco Invest no Tesouro Nacional.
Segundo o executivo, o desenho do programa transfere ao setor privado a responsabilidade pelas decisões de investimento.
“Quem decide onde investir é o mercado. O risco é privado, então os bancos escolhem os projetos que consideram mais sólidos. Nosso papel é estruturar o ambiente, dar segurança regulatória e juntar os atores”, diz.
Para evitar a criação de uma máquina estatal inchada, o Tesouro aposta em governança, auditoria independente e transparência. “Se fôssemos operar tudo diretamente, precisaríamos criar uma estrutura do tamanho do BNDES, o que não faz sentido. O controle vem da governança, das auditorias e do controle social”, completa.
O interesse crescente por soluções desse tipo ficou evidente no último e terceiro leilão do Eco Invest. A demanda dos bancos superou em mais de dez vezes as expectativas iniciais do Tesouro, que previa mobilizar R$ 4 bilhões.
No fim, foram R$ 15,2 bilhões em capital público, condicionados à captação de R$ 52,8 bilhões em recursos privados.
Para a Agrotools, isso sinaliza uma virada estrutural.
“Estamos construindo um sistema operacional da natureza. Uma infraestrutura para que negócios baseados em capital natural finalmente possam ganhar escala”, afirma o CEO.
A aposta é ousada: transformar o país com a maior biodiversidade em um mercado estruturado, rastreável e financeiramente viável. Se funcionar, o Brasil pode se consolidar como o maior polo global de investimentos em preservação ambiental.