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Consumidor pode sentir a embriaguez mais rápido, mas garrafas da safra afetada só devem chegar ao mercado a partir de 2028 (Poike/Thinkstock)
Repórter de ESG
Publicado em 12 de setembro de 2026 às 18h15.
Última atualização em 12 de setembro de 2026 às 18h30.
Os impactos das mudanças climáticas chegaram também à viticultura: na França, o calor recorde e a seca prolongada elevaram os níveis de açúcar nas uvas da região de Champagne a patamares excepcionalmente altos.
O nome da bebida, aliás, é protegido por lei e só pode ser usado para o espumante produzido nessa região específica do nordeste francês, seguindo um método tradicional que remonta a séculos e o que torna a área um símbolo da viticultura no mundo.
Como o açúcar é convertido em álcool durante a fermentação, o resultado foi uma champanhe mais forte do que o normal que obrigou autoridades do setor a tomarem uma decisão inédita.
Pela primeira vez na história, os produtores franceses receberam autorização para ultrapassar o limite regulamentar de álcool da bebida.
De acordo com o Comitê de Champagne, o teto que historicamente era de 13% pode chegar a 15% neste ano.
A medida excepcional foi motivada pelo comportamento de um pequeno número de vinhos da colheita de 2026, que durante o segundo processo de fermentação, ultrapassou ligeiramente o teto regulamentar, chegando a cerca de 13,1% ou 13,2%.
Diante disso, o comitê decidiu elevar o limite para 15%, mas apenas de forma temporária e restrita a esta safra.
As garrafas dessa safra atípica não devem chegar às prateleiras antes de 2028, já que o champanhe precisa envelhecer por pelo menos 15 meses antes de ser comercializado.
Ainda assim, o alerta já está dado: de acordo com Maxime Toubart, copresidente do Comitê de Champagne, a tendência é que colheitas como esta deixem de ser exceção e passem a ser a norma dentro de 10 a 15 anos, à medida que o planeta continua a aquecer.
A região registrou a colheita mais precoce até então, iniciada já no começo de agosto. Para as indústrias do setor, 2026 vai ficar marcado como um dos anos mais atípicos para a produção, somando geadas primaveris intensas, uma floração adiantada e cinco ondas de calor ao longo do verão.
Stéphane Vignon, produtor da região de Verzenay, resumiu o cenário ao jornal britânico The Times: o clima mediterrâneo estaria avançando para o norte da Europa, e embora este padrão não deva se repetir todos os anos, tende a se agravar com o aquecimento global.
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Já a colunista de vinhos Jane Anson ponderou que um champanhe mais forte dificilmente será um atrativo comercial, já que a preferência atual dos consumidores caminha na direção oposta, para bebidas com menor teor alcoólico.
Segundo ela, esse descompasso entre "o que o mercado busca e o que a natureza está entregando tende a se tornar uma fonte constante de pressão para os produtores".
O episódio no Champagne é apenas um dos retratos de um verão de extremos climáticos na Europa. A França foi um dos países mais afetados, com incêndios florestais recordes e de grande escala que se somaram à seca que também atingiu os vinhedos.
Segundo o serviço climático Copernicus, a Europa é o continente que mais rapidamente aquece no planeta, com temperaturas subindo a um ritmo duas vezes maior que a média global, o que tem tornado as ondas de calor mais frequentes e intensas na região.
As chamas avançaram na sequência de duas ondas de calor prematuras, registradas em maio e junho, que já haviam quebrado recordes de temperatura em toda a Europa Ocidental.
Um estudo publicado pelo grupo científico World Weather Attribution classificou o cenário como o mais severo já registrado no continente para o período do ano, e atribuiu o fenômeno diretamente à queima de combustíveis fósseis.
Os efeitos já vinham sendo sentidos por outras regiões vinícolas francesas antes mesmo da safra do Champagne.
Um dos maiores incêndios da história recente do país chegou a se aproximar dos vinhedos de Bordeaux, se somando a uma lista de pressões que já incluía seca, ondas de calor, queda nas vendas e tarifas sobre o vinho francês.
No Château Smith Haut Lafitte, propriedade fundada em 1365, as chamas avançaram até cerca de 16 quilômetros dos vinhedos.
A proximidade do fogo levou a administração da vinícola a preparar um plano de evacuação para os animais da propriedade, entre eles cavalos, galinhas, cabras e lhamas. Ludovic Fradin, diretor-geral do château, comentou a situação ao jornal The New York Times: para ele, os problemas da indústria do vinho estão se acumulando, e é preciso estar preparado para qualquer cenário.
A principal preocupação do setor, no entanto, recai sobre os possíveis efeitos do clima sobre as uvas, e, por consequência, sobre a qualidade da safra.