ESG
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A ascensão do “S” no ESG: os indicadores que as empresas precisam olhar

Difíceis de definir, os fatores sociais passam a fazer parte das preocupações mais prementes, seja pelo aumento da desigualdade, ou pelo valor da inclusão

Os fatores sociais, geralmente entendidos como mais difíceis de definir, delimitar o escopo e mensurar, ficaram para trás, mas a pandemia do Covid-19 tornou-se um catalisador (Danny Lehman/Getty Images)

Os fatores sociais, geralmente entendidos como mais difíceis de definir, delimitar o escopo e mensurar, ficaram para trás, mas a pandemia do Covid-19 tornou-se um catalisador (Danny Lehman/Getty Images)

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Patrícia Nader

13 de maio de 2022, 11h47

Patrícia Nader*

As questões ambientais, sociais e de governança, o famoso ESG, não são tratadas de forma igual. Determinados pela relevância do setor, pelas prioridades organizacionais ou pela maior facilidade de medir, historicamente, investidores e companhias acabam focando mais no quesito ambiental.

Os fatores sociais, geralmente entendidos como mais difíceis de definir, delimitar o escopo e mensurar, ficaram para trás, mas a pandemia do Covid-19 tornou-se um catalisador para o 'S' e agora, são questões entre as preocupações mais prementes em todo o mundo, seja pelo aumento escancarado da desigualdade e do desemprego, seja pelo valor cada vez mais explícito da diversidade e inclusão, ou pela fragilidade das cadeias de suprimentos (ainda mais à tona após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia).

 

Hoje em dia, o grande foco das empresas e investidores ao analisarem o aspecto ‘S’, tem sido na diversidade dos times. No entanto, precisamos ir além. Não que o tema não seja importante, mas que o pilar é muito mais do que isso. Trabalhar com a completude do ‘S’ nos ajudará a chegar mais perto de resolver os grandes e urgentes problemas sociais que temos no Brasil e no mundo.

Dado que diversidade e inclusão, direitos e condições dos trabalhadores, justiça e igualdade, assim como a maioria dos fatores 'S', não são traduzidas de forma tão óbvias em ações e métricas, por onde podemos começar?

Um bom ponto de partida é olhar para a indústria a que a companhia pertence. Note que os elementos sociais considerados de maior materialidade financeira dependem de aspectos específicos, principalmente relacionados ao ramo de atividade. A estrutura do Conselho de Padrões de Contabilidade de Sustentabilidade (SASB, da sigla em inglês) fornece orientação sobre os tópicos financeiramente relevantes nas indústrias e vale a consulta.

Indo além, entre os diversos indicadores que as empresas precisam considerar e medir para avaliar e evoluir no pilar S, estão:

  • Dignidade, igualdade e equiparação salarial de gênero: diferença salarial entre homens e mulheres, ou entre os cargos mais altos e mais baixos, proporções do salário-básico padrão comparado ao salário-mínimo local e ao que é considerando digno.
  • Saúde e bem-estar: além de acompanhar taxas de acidentes e lesões, é interessante analisar a taxa de absenteísmo nos diferentes níveis da empresa, a satisfação dos funcionários e a proporção dos funcionários que participam de programas de bem-estar.
  • Desenvolvimento humano: horas de treinamento por categoria e gênero, rotatividade e capacidade de preencher vagas com candidatos internos.
  • Respeito ao consumidor: índice de reclamações, número de recalls, NPS, perfil sociodemográfico dos usuários, proporção da receita de produtos e serviços que oferecem benefícios socioambientais específicos
  • Impactos na cadeia: métricas relacionadas a força de trabalho dos fornecedores

Investidores e organizações estão em uma posição única para mudar o foco das questões sociais, que mais do que conter um potencial passivo mitigante de riscos, pode gerar um retorno financeiro para as empresas, business core dos que lidam com impact growth.

Há um ano, aproximadamente um quinto das 2.000 maiores empresas públicas do mundo se comprometeram a cumprir metas net zero, segundo relatório divulgado pela Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU) e pela Oxford Net Zero. Mas para alcançar a verdadeira sustentabilidade, devemos também melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem neste planeta. Uma ação que visa impacto social deve resolver um problema estrutural da sociedade, ter escala e ser suportável – reunindo fatores para que faça sentido e seja aplicável, funcional e apresente efeitos duráveis.

E é preciso ter em mente que não podemos gerenciar o que não podemos medir. Sendo assim, é passada a hora de aumentarmos o nível de medição de impacto social, criar dados melhores e mais confiáveis, além de oferecer ao mercado algo para precificar em seus modelos. No entanto, esse não pode ser o limitador decisivo para promover o fortalecimento do ‘S’ e a equidade entre os pilares da tríade que define as boas práticas de uma operação consciente, sustentável e em observância com as regras.

Para que o ESG seja aplicado coerentemente ao seu propósito existencial, é imprescindível que os eixos de cada vertente estejam alinhados. Em síntese, não dá para privilegiar este ou aquele quesito e acreditar estar em dia com a agenda urgente de resolver problemas estruturais da nossa humanidade.

*Patrícia Nader é líder de ESG na GK Ventures, gestora de impact growth