Presidente norte-americano tem colocado homenagens a si próprio em diversos locais do país (Departamento do Tesouro dos EUA/Divulgação)
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Publicado em 21 de julho de 2026 às 16h47.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou na última quarta-feira, 15, que a Casa da Moeda do país começou a produzir moedas de US$ 1 com o rosto de Donald Trump impresso nelas.
Oficialmente, a moeda faz parte da comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência do país e, para o secretário do Tesouro, Scott Bessent, ela representa “um legado duradouro de liberdade” e pode ser considerada um “símbolo de patriotismo”.
A moeda carrega uma imagem posada de Donald Trump cortada a partir do ombro e a frase “In God we trust” (Em Deus nós acreditamos) ao centro. No contorno, a palavra “Liberty” (Liberdade) e a idade do país (1776 - 2026). Na outra face, o nome do país, o seu valor e a tradicional águia careca, símbolo nacional.
Tal representação esbarra, porém, na proibição prevista pela seção 6 do Circulating Collectible Coin Redesign Act of 2020 (Lei de Redesenho de Moedas Colecionáveis em Circulação de 2020, na tradução livre). Segundo essa parte da constituição norte-americana, é vedado o retrato de cabeça e ombros ou busto de qualquer pessoa, viva ou morta, e qualquer retrato de pessoa viva no reverso das moedas.
“Do ponto de vista social, é algo totalmente anti-republicano. Porque os EUA sempre foram uma república. E uma república deve se pautar pelo princípio da impessoalidade que, claramente, foi violado”, disse o professor de Relações Internacionais pela FAAP e FGV, Vinicius Rodrigues Vieira.
“A iconografia monetária dos Estados Unidos foi construída historicamente sobre abstrações republicanas: a liberdade, a águia, o lema da unidade na pluralidade, e sobre figuras já mortas, justamente para separar o Estado da pessoa que ocupa temporariamente o cargo. Essa era uma herança direta da ruptura antimonárquica de 1776”, acrescentou o pesquisador Lucas Leite, do INCT/INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos).
Para ele, que também é Professor Dr. de Relações Internacionais na FAAP, a confiança na moeda implica confiança no governo emissor, uma vez que ele não permitirá que a política e a geopolítica interfiram indevidamente no uso da moeda e na estabilidade monetária.
“Uma moeda com o rosto do presidente vivo, emitida contra a leitura majoritária da própria legislação, é exatamente o tipo de gesto que corrói essa expectativa”, afirmou.
Para além da moeda com seu rosto, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos disse, ainda em março deste ano, que em breve a assinatura de Donald Trump será exibida nas novas cédulas impressas no país.
Atualmente, na parte da frente da nota há duas assinaturas: uma do tesoureiro nacional e outra do Secretário do Tesouro. Segundo a comunicação, a rubrica de Trump passará a assumir a posição do tesoureiro, o que nunca aconteceu na história dos Estados Unidos.
“Para o cidadão comum, o efeito é pedagógico no pior sentido, porque naturaliza a fusão entre líder e instituição. Isso acontece num governo que já vinha alterando o sistema monetário por decisão presidencial, com o fim da produção do centavo. A moeda com o rosto do presidente é a peça mais visível de um conjunto de intervenções que consolidam a marca pessoal sobre o dinheiro público”, concluiu Lucas.