Estima-se que até 40 milhões de toneladas, cerca de metade do que a China exportou no ano passado, estejam agora sob bloqueio ou cotas rígidas (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)
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Publicado em 25 de março de 2026 às 21h09.
A China, um dos pilares do fornecimento global de insumos agrícolas, decidiu priorizar sua própria "casa" em detrimento do mercado externo. Segundo a agência Reuters, o país asiático está restringindo a exportação de fertilizantes. A manobra visa isolar os agricultores chineses da disparada de preços e da escassez causadas pelo conflito entre Estados Unidos/Israel e o Irã, que já bloqueia rotas vitais como o Estreito de Ormuz.
Estima-se que até 40 milhões de toneladas, cerca de metade do que a China exportou no ano passado, estejam agora sob bloqueio ou cotas rígidas. Entre os produtos afetados estão misturas de nitrogênio, potássio e variedades de fosfato. Essa postura protecionista não é isolada e reflete uma estratégia mais ampla de blindagem econômica, também foram suspensas as exportações de combustíveis refinados, como diesel e querosene.
Impacto
A China é o terceiro maior fornecedor de fertilizantes para o Brasil (responsável por 11,5% das compras em 2025), que observa o cenário com cautela. No ano passado, as importações vindas do gigante asiático somaram mais de US$93 milhões.
De acordo com o pesquisador do FGV/Agro, Felippe Serigati, doutor em economia com foco em economia agrária, apesar do tom de urgência global, o impacto para o produtor brasileiro não será imediato, pois o fertilizante para o plantio atual já foi adquirido e o problema reside no segundo semestre: a médio prazo, novas compras podem vir com preços inflacionados e o bloqueio no Oriente Médio encarece o frete e reduz a oferta global.
“O volume que o Brasil demanda é do agro, da dimensão que é uma agropecuária tropical, que precisa de mais fertilizante mesmo. Há espaço para negociação, pois não tem outra opção, é preciso buscar outros fornecedores. Mas tem que negociar com a própria China: é de interesse dela que o agro brasileiro seja produtivo, porque uma parte da segurança alimentar de lá depende justamente do fornecimento de produtos agropecuários aqui do Brasil. Então, eu acho que tem espaço para negociar", avalia.
Embora países como as Filipinas afirmem ter recebido garantias de Pequim sobre o fluxo de insumos, o governo chinês evita declarações oficiais. No mercado de Xangai, a expectativa entre vendedores é pessimista: a maioria acredita que as proibições de exportação não serão levantadas antes de agosto, após o pico do período de plantio na China.
Enquanto isso, países como a Índia, que dependem fortemente do fornecimento chinês, tentam negociar cotas de emergência. Sem sinais de trégua na guerra ou flexibilização por parte de Pequim, o agronegócio global se prepara para um ano de custos elevados e cadeias de suprimentos sob constante estresse.
“Ninguém sabe até onde o aumento do preço do petróleo vai, até onde vai o [aumento do] gás natural. Até onde vai o [aumento do] ácido sulfúrico…. E veja que o ponto aqui nem é o impacto no custo, porque vai aumentar o custo, mas qual é a relação de troca? Ou seja, para o produtor, mais importante do que o preço do fertilizante é a relação de troca: quantas sacas de milho, de soja, de café, ele tem que comercializar para conseguir comprar uma tonelada de fertilizante, se essa relação de troca vai compensar por fertilizante, isso é um enorme ponto de interrogação", ressalta Serigati.