Para suprir o déficit setorial, o documento aponta que nenhuma fonte isolada dá conta das necessidades do País e propõe um novo regime estruturado em seis pilares fundamentais (Motiva/Divulgação)
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Publicado em 16 de setembro de 2026 às 20h21.
O Brasil precisa mais do que duplicar os aportes destinados à infraestrutura para reduzir seu déficit histórico e equiparar-se aos padrões internacionais, elevando os investimentos de 2,27% do PIB (R$ 266,8 bilhões investidos em 2024) para 4,65% do PIB — o equivalente a cerca de R$ 550 bilhões anuais — e mantendo esse patamar estagnado por pelo menos 20 anos. É o que aponta o estudo “Financiamento dos Investimentos em Infraestrutura no Brasil” da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Os dados mostram que a composição financeira do setor passou por uma transformação profunda entre 2010 e 2024. A participação do capital privado saltou de uma média de 29,3% no período de 2010 a 2014 para 61,5% em 2024. Em valores atualizados para 2024, as fontes privadas passaram de R$ 88,6 bilhões para R$ 184,5 bilhões.
Em contrapartida, os recursos públicos recuaram de R$ 208,5 bilhões para R$ 107 bilhões no mesmo intervalo. Do total de R$ 266,8 bilhões investidos em 2024, o setor privado respondeu por R$ 188,1 bilhões (70,5%), enquanto os aportes públicos somaram R$ 78,6 bilhões, com forte protagonismo de estados e municípios. As instituições multilaterais completaram o montante com R$ 8,4 bilhões.
Apesar da expressiva marca atual, especialistas alertam que a atração contínua de recursos exige muito mais do que percentuais elevados. Conforme aponta Carlos Lebelein, sócio da LMDM Consultoria e especialista em infraestrutura, "o desafio brasileiro não é simplesmente aumentar a participação percentual do setor privado, que é elevada, mas aumentar significativamente o volume total de investimentos".
Lebelein reforça que, para viabilizar contratos de longo prazo, "segurança jurídica, estabilidade regulatória, contratos bem estruturados, agências reguladoras tecnicamente fortalecidas e mecanismos eficientes e tempestivos de reequilíbrio econômico-financeiro são fundamentais".
Na mesma linha, Diego Fernandes, sócio do Roenick Fernandes Advogados e especialista em direito da infraestrutura, ressalta que os números consolidados representam o passado e exigem cautela: "Os 70% representam participação no investimento realizado e não são, por si só, medida da disposição de aportar novos recursos".
Fernandes acrescenta que, para transformar o potencial em investimentos efetivos, é necessário "ampliar a oferta de projetos contratáveis, em quantidade e qualidade", uma vez que "na infraestrutura, a qualidade jurídica do projeto tem consequência econômica direta, porque quem assume compromisso por vinte ou trinta anos precisa de confiança de que as condições contratadas serão respeitadas".
Para suprir o déficit setorial, o documento aponta que nenhuma fonte isolada dá conta das necessidades do País e propõe um novo regime estruturado em pilares fundamentais como: maior engajamento de investidores institucionais; a expansão do crédito privado por meio de mecanismos de distribuição de riscos; estabilidade fiscal; segurança jurídica e previsibilidade, acompanhadas de rigorosa autonomia técnica das agências reguladoras; carteira robusta de projetos voltada a concessões e parcerias público-privadas; e, a atuação estratégica do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e de outras instituições públicas para mitigar riscos, estruturar projetos e alavancar capital privado.
O estudo também analisou experiências de nações como Reino Unido, Chile, Austrália, México, Espanha, Índia e França. A conclusão reforça que o investimento público permanece essencial, mas deve atuar de forma inteligente para alavancar e atrair recursos privados de longo prazo, em vez de atuar como mero substituto do mercado.