Segundo o Ministério de Minas e Energia, enquanto a média global de renováveis não ultrapassa os 14%, o Brasil mantém 46% de fontes renováveis em sua matriz energética (Rodrigo Capote/Getty Images)
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Publicado em 2 de abril de 2026 às 22h51.
O cenário de instabilidade no Oriente Médio e a constante oscilação nos preços do barril de petróleo têm colocado as economias globais em alerta. Neste cenário, o Brasil se destaca por possuir uma indústria de biocombustíveis altamente sofisticada que funciona como um amortecedor econômico e estratégico.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, enquanto a média global de renováveis não ultrapassa os 14%, o Brasil mantém 46% de fontes renováveis em sua matriz energética, posicionando-se à frente das principais potências econômicas.
Legado
Na década de 1970, o programa Proálcool, criado para reduzir a dependência externa após a primeira grande crise do petróleo, foi o início deste movimento que resultou na diversificação da matriz energética. Hoje, essa herança evoluiu para a tecnologia Flex, a partir de etanol, gasolina ou a mistura de ambos, presente em cerca de 75% da frota de veículos leves do país. Assim, quando o petróleo encarece e a gasolina sobe nos postos, a migração para o etanol hidratado ocorre de forma quase instantânea.
Segundo Francisco Neves, diretor-executivo da Associação Nacional dos Distribuidores de Combustíveis (ANDC), essa trajetória permitiu ao Brasil marcos históricos, como a retirada do chumbo da gasolina. "O Brasil foi o primeiro país do mundo a tirar o chumbo da gasolina e o fez por causa do etanol anidro, que exerce o papel de organizar o processo de queima no motor", explica.
“O etanol anidro é seco, misturado obrigatoriamente à gasolina. Já o etanol hidratado é o único produto 100% substituto do fóssil vendido em larga escala e tem cerca de 70% do poder energético da gasolina, por isso essa é a referência de preço para o consumidor", pontua.
Além do impacto no bolso de quem abastece, os biocombustíveis são essenciais para o cumprimento de metas ambientais. Eles permitem que o Brasil reduza a emissão de gases de efeito estufa sem a necessidade de uma troca imediata e onerosa de toda a infraestrutura de transporte para veículos elétricos.
Futuro
O próximo passo dessa estratégia envolve o etanol de segunda geração (E2G), também chamado de bioetanol, etanol verde ou etanol celulósico, é produzido a partir da palha e do bagaço da cana, e o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). As antigas usinas estão se transformando em complexas biorrefinarias, capazes de produzir não apenas combustível, mas químicos renováveis e hidrogênio de baixa intensidade de carbono.
Embora o uso de biocombustíveis não elimine totalmente os reflexos das crises internacionais — já que o preço do etanol pode subir com o aumento da demanda —, ela garante ao Brasil uma autonomia que poucos países possuem.
"O petróleo subiu mais de 50% internacionalmente, mas o diesel no Brasil subiu pouco mais de 20%. Não estamos em uma situação de caos. O Brasil sofre muito menos que outros países por causa dessa matriz peculiar. Nós temos uma situação privilegiada. Temos uma grande empresa de capital misto (Petrobras) e uma pauta de produção agrícola diversificada que conseguem gerenciar e amortizar essas variações de maneira segura", avalia Neves.