Café: safra menor e estoques baixos limitam exportações brasileiras em julho de 2025 (Carl de Souza/AFP/Getty Images)
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Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 19h26.
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia reposiciona o Brasil no comércio internacional ao ampliar de forma significativa o acesso ao maior bloco econômico do mundo. Com a redução ou eliminação gradual de tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral, o tratado tende a gerar ganhos sobretudo em volume exportado, com destaque para produtos com os quais o País já ocupa posição dominante — entre eles, o café.
Conforme dados do governo federal, a União Europeia é destino de 48,36% das exportações brasileiras de café não torrado, percentual que destaca a centralidade do bloco para o setor. Segundo o presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, o acordo cria condições para ampliar ainda mais essa presença.
“No caso do café não torrado, é possível que haja aumento de demanda, porque se trata de um mercado com demanda elástica. Isso pode fazer com que cresçam tanto as exportações de café torrado quanto de café não torrado”, afirma.
Castro reforça que, no curto prazo, os ganhos devem se dar principalmente pelo aumento de volumes, impulsionado pela eliminação tarifária para mais de 5 mil produtos brasileiros. “Claramente isso vai gerar um aumento de volume. Não estamos falando de ganho de preço, mas de volume exportado, o que tende a beneficiar a balança comercial brasileira”, diz.
Para commodities como petróleo bruto e minérios de cobre — cujas exportações para a UE representam, respectivamente, 21,98% e 61,17% do total brasileiro — o acordo tende a consolidar fluxos já existentes, com menor impacto sobre a mudança de fornecedores.
No caso do café, porém, o acordo abre uma janela estratégica para ir além da exportação da matéria-prima. Para o presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Pavel Cardoso, a redução gradual das tarifas para cafés industrializados pode ajudar o Brasil a corrigir um desequilíbrio histórico.
“O Brasil produz cerca de 40% do café mundial, mas participa com apenas 2,7% da receita global do setor. A única forma de estreitar essa distância é exportando produto acabado”, avalia.
Atualmente, segundo o presidente, o café torrado e o café solúvel enfrentam tarifas entre 7,5% e 9% para entrar na União Europeia. Pelo acordo, essas alíquotas serão reduzidas de forma progressiva até zerarem em um período de até quatro anos, dependendo do produto. Além disso, o reconhecimento de indicações geográficas brasileiras, como o Café do Cerrado Mineiro e da Alta Mogiana, tende a fortalecer a estratégia de diferenciação e agregação de valor.
Para José Augusto de Castro, o acordo também amplia o leque de compradores dentro do próprio bloco europeu, formado por 27 países. “O Brasil passa a ter mais possibilidades logísticas e comerciais, atendendo mercados que antes não eram viáveis por questão de custo. Isso aumenta a competitividade e diversifica a pauta exportadora”, pondera. Segundo ele, a expansão da cobertura dos acordos comerciais do Brasil, de 8% para 36% das importações mundiais, reforça esse novo patamar de inserção internacional.