Nesse cenário, ganha força o debate sobre a implementação da Política Nacional de Economia Circular. A proposta visa reestruturar o atual modelo econômico linear, substituindo-o por um sistema integrado de reutilização, reparo e reciclagem (Freepik)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 9 de junho de 2026 às 21h10.
Empresas que investem em economia circular são bem avaliadas por 72% da população brasileira, mas o descompasso entre a percepção ambiental e a rotina dos brasileiros se reflete diretamente no descarte e reaproveitamento de resíduos, já que 43% dos entrevistados evitam adquirir produtos reciclados, independente do preço do item.
Os dados são de uma pesquisa realizada pela Nexus para a Confederação Nacional da Indústria (CNI). De acordo com o estudo, que ouviu 2.019 pessoas, 84% dos entrevistados não utilizam sistemas de logística reversa para devolver itens como pilhas, baterias e eletroeletrônicos aos pontos de origem.
As principais justificativas para o não engajamento são a escassez ou distância dos postos de coleta (24%) e a falta de orientação e informação adequada (33%). Além disso, 58% dos consumidores misturam materiais recicláveis com o lixo comum, inviabilizando o processo de reaproveitamento.
A pesquisa também identificou que, embora 58% dos brasileiros possuam o hábito de consertar produtos antes de trocá-los por novos, a motivação por trás desse comportamento é majoritariamente financeira (economia de dinheiro) e não ambiental — apenas 10% dos que reparam seus bens associam a atitude à preocupação com o meio ambiente.
A resistência ao consumo de materiais reaproveitados envolve fatores culturais e de mercado, com 34% dos entrevistados demonstrando preferência por itens novos e 30% manifestando desconfiança sobre a durabilidade e qualidade dos reciclados.
Para Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, os dados evidenciam uma barreira que precisa ser superada com clareza. "Hoje, 47% dos brasileiros têm dúvidas sobre o desempenho dos reciclados. Precisamos de comunicação transparente e selos de certificação que comprovem que esses itens possuem segurança e qualidade equivalentes aos de matéria-prima virgem", afirma Bomtempo.
O superintendente destaca ainda que o fator econômico é decisivo no momento da escolha: "A decisão de compra é sensível ao custo; 38% só comprariam o reciclado se custasse o mesmo que o convencional. O desafio é transformar a simpatia pela agenda em escolha efetiva".
Urgência regulatória
A transição para um modelo sustentável no País exige avanços estruturais. Nesse cenário, ganha força o debate sobre a implementação da Política Nacional de Economia Circular. A proposta visa reestruturar o atual modelo econômico linear, substituindo-o por um sistema integrado de reutilização, reparo e reciclagem que otimize o uso de recursos e mitigue as perdas em todas as etapas produtivas.
A medida promove alterações em marcos jurídicos como a Lei de Licitações e Contratos Administrativos e a Lei do Pré-Sal, alinhando-as às novas diretrizes sustentáveis. Atualmente o texto está no Senado Federal, onde aguarda análise final dos parlamentares após já ter tramitado entre as duas casas legislativas.