Transporte, energia e saneamento são os maiores gargalos do país

Para a Abdib, o Brasil entra em 2005 com os mesmos problemas de infra-estrutura de 2004
 (EXAME.com)
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Márcio JuliboniPublicado em 09/10/2008 às 10:47.

O Brasil avançou muito pouco em termos de infra-estrutura neste ano. (Se você é assinante, leia reportagem de EXAME.) Por isso, 2005 começa com praticamente os mesmos gargalos e prioridades que permearam os debates entre o poder público e o empresariado nos últimos meses. "Os investimentos no setor ficaram muito aquém do desejável", afirma Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib).

Em 2004, segundo Godoy, o país investiu cerca de 10 bilhões de dólares em projetos de infra-estrutura (veja abaixo a tabela com os setores que mais investem em infra-estrutura). A cifra é metade dos 20 bilhões que a associação calcula serem necessários, anualmente, para solucionar os principais problemas do setor. "Os investimentos praticamente não tiveram efeitos práticos neste ano", diz. Outro problema foi a concentração dos recursos em poucos setores. Sozinho, o setor de petróleo e gás, liderado pela Petrobras, recebeu 5,5 bilhões de dólares, conforme a Abdib.

Os analistas são unânimes em afirmar que o ritmo de investimentos em infra-estrutura é ditado pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Por isso, alertam que a expansão do país pode ser comprometida em breve, caso as obras necessárias para sustentar o desenvolvimento econômico não sejam realizadas a tempo. Neste ano, as projeções indicam que o PIB avançará 5%. Em 2005, o incremento deve ficar entre 3,5% e 4%.

"O Brasil está se consolidando no comércio mundial. A falta de infra-estrutura será um impeditivo para o crescimento ", diz Godoy. O problema é que o país parece seguir o caminho contrário: está aplicando cada vez menos dinheiro no setor. Segundo o economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas, em 1976 (época do milagre econômico), foi aplicado 2,5% do PIB em obras de infra-estrutura. Neste ano, a conta deve fechar em 0,6%.

Prioridades

Na avaliação de Godoy, os problemas mais urgentes estão em três setores: energia, transportes e saneamento. Envoltas na remodelagem do modelo do setor elétrico, as geradoras não apresentaram investimentos em energia nova neste ano. Além disso, muitas empresas também optaram por esperar os resultados do megaleilão de energia existente, realizado em 7 de dezembro em São Paulo.

"Esperamos algum tipo de recuperação em 2005", afirma Godoy. No próximo ano, o governo deverá realizar um leilão para a construção de 17 usinas hidrelétricas, com capacidade total de 2 800 megawatts. A Abdib também espera investimentos em linhas de transmissão e distribuição de energia.

Rodovias, ferrovias e portos também devem ter atenção especial, segundo a Abdib. O Brasil sofre há, pelo menos, uma década com a falta de investimentos maciços no setor, capazes de manter e expandir o sistema de transporte. O resultado é que, segundo a Confederação Nacional de Transportes (CNT), 75% das rodovias estão mal conservadas. As ferrovias enfrentam problemas para expandir sua malha, devido ao marco regulatório do setor, e os portos precisam de 1,6 bilhão de reais por ano para operar em condições adequadas.

Por fim, é preciso destravar o marco regulatório do setor de saneamento, cujos debates remontam ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Cerca de 20% dos brasileiros ainda não possuem água encanada, e 52% não contam com rede de esgoto. "Não podemos continuar com essas taxas ridículas de atendimento", diz Godoy.

Confira os dados de investimento em infra-estrutura na tabela abaixo.

Setores que mais investem em infra-estutura*
Setor (1)
Número de obras
Valor para a conclusão das obras (em milhões
de reais)
Valor médio para a conclusão das obras (em milhões
de reais)
Energia
109
76 171
699
Transporte
203
48 721
240
Petróleo e gás
17
34 833
2 049
Saneamento
74
24 138
362
Total
403
183 863
456
*O quadro mostra o investimento necessário para finalizar
as principais obras de cada setor e o valor médio para concluir cada uma
delas
1. O setor elétrico não enfrenta a necessidade de investir
em obras para superar gargalos que impeçam a realização do serviço
Fonte: Anuário EXAME 2004/2005

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