Sob pressão, Macron suspende discussões de acordo Mercosul-União Europeia

Após "onda verde" nas eleições locais, presidente francês diz que não negociará com países que não respeitarem o Acordo de Paris

O presidente da França, Emmanuel Macron, aumentou a pressão pela rejeição do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Em discurso nesta segunda-feira na Convenção Cidadã pelo Clima, no Palácio do Eliseu, ele reforçou sua posição contrária ao acordo assinado há um ano, mas que depende da ratificação de todos os países do bloco europeu.

— Vocês dizem: “nenhum acordo comercial com países que não respeitarem o Acordo do Paris”. Eu compartilho dessa opinião — afirmou Macron. — É por isso que, em relação ao Mercosul, interrompi as negociações, e o último relatório que nos foi apresentado reforça essa decisão.

A declaração de Macron acontece no dia seguinte à derrota de seu partido para os Verdes nas eleições municipais. Por isso, a rejeição do acordo pode ser vista, em parte, como uma estratégia para buscar apoio entre esse eleitorado.

Além de se declarar contra o tratado de livre comércio, Macron se comprometeu a direcionar € 15 bilhões, em dois anos, para promover a “transformação ecológica” da economia francesa, com investimentos em “transportes limpos, renovação imobiliária e invenção das indústrias do futuro”.

O presidente francês declarou apoio a outras iniciativas propostas pela convenção cidadã, como a criminalização do “ecocídio” na justiça internacional, para penalizar quem não respeita os ecossistemas, e a criação de uma “nota de carbono” para ser estampada em embalagens de produtos.

No domingo, o partido Europa Ecologia – Os Verdes foi o grande vencedor das eleições municipais, conquistando prefeituras importantes como Lyon, Bordéus e Estrasburgo. A Convenção Cidadã sobre o Clima é uma “resposta à onda verde”, afirmou Macron após o pleito.

Contudo, não é a primeira vez que Macron se diz contrário ao tratado de livre comércio. Em agosto do ano passado, apenas dois meses após a assinatura, o presidente francês defendeu essa posição, com críticas à gestão ambiental do governo de Jair Bolsonaro.

Oposição da sociedade civil

Além de Macron, o tratado de livre comércio ganhou nesta segunda-feira a oposição de 265 instituições civis europeias e latino-americanas, incluindo duas dezenas de grupos franceses e seis brasileiros, que apelaram às autoridades pela rejeição do tratado.

“A rejeição do acordo EU-Mercosul não deve ser interpretada como uma rejeição da cooperação construtiva entre as regiões”, diz o manifesto, citando que a parceria entre os dois blocos deve respeitar a luta contra a pobreza e as mudanças climáticas, os direitos dos trabalhadores entre outras questões, mas que o “atual acordo está na direção oposta”.

A pressão contra o acordo entre Mercosul e União Europeia cresce às vésperas de a Alemanha assumir a presidência do bloco europeu, no próximo dia 1º. A chanceler Angela Merkel já declarou apoio ao tratado e deve priorizar sua ratificação durante a gestão.

No início do mês passado, o Parlamento da Holanda aprovou uma moção pedindo que o governo se oponha ao tratado, com o argumento de que o acordo pode impulsionar o desmatamento da Amazônia.

O tratado de livre comércio entre os dois blocos foi assinado em 28 de junho do ano passado, após mais de duas décadas de negociações, mas requer ratificação do Parlamento Europeu.

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